quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

Bom Ano Novo

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2008 está aí à porta...

Nesta altura quero dirigir a todos os meus amigos os meus votos para que 2008 seja o ano da DIFERENÇA, o ano da MUDANÇA, o ano da SOLIDARIEDADE, o ano em que a PAZ invada, finalmente, esta NAVE que tão mal tratada tem sido...

Para todos vós, muita saúde!
Para todos vós, a minha esperança no FUTURO!
Para todos vós, a...

RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de Janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade



quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Natal...

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Com os meus votos de um Feliz Natal:



O filho do homem


O mundo parou
A estrela morreu
No fundo da treva
O infante nasceu.

Nasceu num estábulo
Pequeno e singelo
Com boi e charrua
Com foice e martelo

Ao lado do infante
O homem e a mulher
Uma tal Maria
Um José qualquer.

A noite o fez negro
Fogo o avermelhou
A aurora nascente
Todo o amarelou.

O dia o fez branco
Branco como a luz
À falta de um nome
Chamou-se Jesus.

Jesus pequenino
Filho natural
Ergue-te, menino
É triste o Natal.

Vinicius de Moraes


domingo, 9 de dezembro de 2007

Bom Natal (?!!!!)...



BOM NATAL! BOM ANO NOVO!
(Discurso que sempre se repete, mas que nunca se cumpre)


Natal

Menino dormindo... / Silêncio profundo. /
Benvindo, benvindo, / Salvador do Mundo!
Noite. Noite fria. / Mas que lindo que é! /
De um lado Maria. / Do outro José. /
Um anjo descerra / A ponta do véu... /
E cai sobre a Terra / A imagem do Céu!
[1]

Este poema foi escrito naquele tempo em que todos nós – crianças e adultos – sentíamos ainda o Espírito de Natal. Nos dias de hoje, Natal não passa de uma mera “palavra”, com significado igual ao daqueles dias de "qualquer coisa" que se comemoram nos 365 dias do ano.

Em Dezembro, as luzes coloridas dão novas cores e novos ritmos às árvores, às varandas, aos portais e às janelas das casas. No ar paira um espírito de festa, de uma pseudo-alegria e de mistério. As músicas natalícias ouvem-se em cada canto e esquina, adormecendo a razão de quem as escuta.

Toda a gente – rica e pobre - se acotovela diante dos escaparates e das montras deslumbrantes... Multidões irrompem pelas lojas, subjugadas aos deuses do consumismo, inebriadas pelas coisas inúteis que compram sem pensar e muito menos sem precisar...

Neste mês finge-se que tudo é diferente:

— Diz-se “Bom dia”, com um sorriso no rosto, ao vizinho... – que é ignorado todo o resto do ano!

— Olha-se para os idosos com mais respeito e com um sorriso nos lábios, dá-se-lhes um pouco mais de carinho, de atenção, de amizade... - para, durante o resto do ano, continuar-se a ignorar a sua existência!

— Para os pobrezinhos, os “sem abrigo”, os marginalizados, os indigentes, os doentes... lá estão os nossos “primeiros”, “segundos” e “terceiros” a dar-lhes a anual “sopa de pedra”, entre um sorriso e um piscar de olhos ternurento (mas só para as câmaras dos média os focarem num grande primeiro plano!)... e, durante o resto do ano, continuam a ignorar que estes (pobrezinhos, “sem abrigo”, marginalizados, indigentes, doentes) existem e que continuam a precisar de comer, vestir, dormir e, sobretudo, de um trabalho que lhes permitam sobreviver com dignidade!

Por isso dei por mim a pensar...

Ø Na “Balada de Neve” de Augusto Gil, naqueles pezinhos de criança, no frio e na dor que sente ao caminhar...

Ø No poema de Ary dos Santos que, ontem como hoje, ilustra bem o “faz de conta” desta época que estamos a viver: “Tu que dormes a noite na calçada ao relento / Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento / Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento / És meu irmão amigo / És meu irmão / (...) [2].

Mas o tempo avança inexoravelmente e as pessoas continuam a caminhar, atarefadas, sem ter tempo, sequer, de olhar para o lado...

A época natalícia sucede-se ano após ano, com os mesmos gestos, os mesmos fracassos e as mesmas promessas. Fala-se de Fraternidade Universal, fala-se do Criador, fala-se de Jesus que nasceu numa manjedoura... Mas porque não se fala num Jesus mais adaptado a este mundo real?

Natal

Nasceu! / Numa garagem abandonada, coberta de chapa de zinco, / e num caixote velho de latas de óleo, / Entre desperdícios sujos e usados, / Nossa Senhora e S. José tinham vindo pela estrada, / Os pés no asfalto negro, onde circulam carros de luxo: / Pedir boleia, pediram, mas ninguém viu ou quis ver, / Ou escutar o gesto...

Iam apressados para a ceia da noite, / Desbragada como um conta-quilómetros / E cheia de neblina e promessas.

Nasceu!

Num caixote velho de latas de óleo, / Entre desperdícios sujos e usados.

(...) [3]

Finalmente é chegado o dia de Natal!...

"Hoje é dia de ser bom. / É dia de passar a mão pelo rosto das crianças / De falar e de ouvir com mavioso tom, / de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças".

"É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem, / de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria, / De perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem, / de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria"

(...) [4].

Milhares de mensagens vão atravessar o ciberespaço nas vésperas e no dia de Natal, compondo coisas lindas nos mais de 10 milhões de telemóveis que inundam este país de contradições e do faz de conta!... para gáudio das operadoras que, assim, vêem os seus lucros subirem em flecha!

Este mesmo ritual vai-se repetir na noite de 31 de Dezembro!... Desta vez regado com espumante e ao som das 12 badaladas da meia noite, como manda a tradição! Frases, pensamentos, mensagens (melhor ou pior elaboradas) vão ser trocadas num desejo mútuo de tudo de Bom, muita Saúde, Paz, Fraternidade e Amor...

Mas a velha dúvida persegue-me!... e interrogo-me, o que como será possível desejar em 2008...

Tudo de Bom...
— se irão subir as rendas de casa, a electricidade, as portagens, os táxis, a água, os transportes públicos, o pão, sei lá que mais!!!...

Tudo de Bom...
— se vão continuar as falências, os despedimentos, o desemprego!!!...

Muita Saúde...
- com o sistema de saúde que temos!!! Com a maioria do nosso povo a auferir um salário mínimo inferior a 450 euros!!! Serão suficientes para pagar os medicamentos, os honorários dos médicos, os tratamentos, os internamentos?!!!...

Paz...
- com tanta instabilidade e tantas guerras à nossa volta e sem qualquer vontade política de lhes pôr fim?!!!...

Fraternidade...
- se impera a lei da selva na nossa sociedade, do vale tudo, da competitividade desenfreada e sem regras...

Desejar Amor para 2008...
- se nem sequer há tempo para se DAR e muito menos para se poder COMPARTILHAR?!!!...

José Gomes


[1] - “Natal”, poema de Pedro Homem de Mello.

[2] - Excerto de “Quando um Homem Quiser”, poema de Ary dos Santos.

[3] - Excerto do poema “Natal”, escrito na noite de Natal de 1952, pelo poeta Amândio César.

[4] - Excerto de “Dia de Natal”, poema de António Gedeão.





segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Natal - Pedro Homem de Mello




No Sábado passado lembrei-me de Pedro Homem de Mello. Li estes dois poemas... bonitos, mas tão simples como ele sempre foi:

O Presépio

Duas tábuas...
E era um berço!

Estaria Deus lá dentro?

Tudo escuro...
E alumiava!

Fomos a ver...
E lá estava!

Pedro Homem de Mello


Natal

Menino dormindo...
Silêncio profundo.
Benvindo, benvindo,
Salvador do Mundo!

Noite. Noite fria.
Mas que linda que é!
De um lado Maria.
Do outro José.

Um anjo descerra
A ponta do véu...
E cai sobre a Terra
A imagem do Céu!

Pedro Homem de Mello

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Uma noite recordando... Adriano Correia Oliveira

Dia 24 de Novembro, a "reportagem" possível...

Foi um sábado muito frio, dentro e fora da Cripta da Igreja de Gueifães. Uma noite fria no que ainda resta de um Outono de mil caras que tirita um Inverno já anunciado. Talvez por isso, ou pelo futebol na TV, ou porque não soubemos passar a mensagem, a Cripta da Igreja ficou com bastantes lugares vagos.

Cantores, poetas, a organização e até os espectadores tudo fizeram para que esta Sessão, que se adivinhava fria, fosse digna do homem digno que se homenageava.

Um retrato de Adriano dependurado nas cortinas do palco, uma viola, uma capa negra e uma boa dúzia de cravos vermelhos espalhados e três cadeiras onde iriam intervir os cantores convidados, constituíam o cenário deste evento.

Uma noite recordando… Adriano Correia de Oliveira” começou com a declamação de poemas a Adriano, na voz e autoria de Maria Mamede, intercalados por poemas de Manuel da Fonseca, Manuel Alegre e Ary dos Santos na voz de José Gomes.

Um texto da autoria de José Silva, preparado e dedicado a Adriano, foi lido pela Maria Mamede.

Carlos Andrade, João Teixeira e José Silva “encheram”, por mais de hora e meia, a Cripta da Igreja de Gueifães com as suas interpretações de Adriano e algumas das mais emblemáticas canções de Zeca Afonso.

Mesmo sem microfones Carlos Andrade, João Teixeira e José Silva conseguiram, na sua maneira muito peculiar, cativar e fazer com que a assistência colaborasse desde o primeiro minuto e se tornasse interveniente, transmitindo um calor humano que envolveu todos.

Antes de terminar esta noite evocativa e depois dos “Vampiros” de Zeca Afonso ter sido cantado pela plateia e pelos cantores em palco, ouvimos as palavras sentidas de Paivas Canhão e um agradecimento muito especial do Presidente da Junta de Freguesia de Gueifães.

A Homenagem a Adriano Correia de Oliveira terminou com a “Trova do Vento que Passa” cantada a viva voz pela plateia e por todos intervenientes nesta Sessão.

Apesar do frio, apesar da Cripta não ter esgotado a sua capacidade, os presentes – cantores e público – conseguiram dar um espírito combativo bem digno do Adriano.

É tempo de Adriano voltar a cantar… sempre!


José Gomes


segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Um sábado em grande!!!

Vai ser um sábado em que terei de me desdobrar... são duas actividades diferentes mas de qualidade:

- uma, às 21,30 horas, desenvolvida por Movimentum - Arte e Cultura (vide Blogando http://movimentum-blogando.blogspot.com/), uma homenagem a Adriano Correia de Oliveira, na Cripta da Igreja de Gueifães, em Gueifães - Maia);

- outra, às 18 horas, a cargo do Núcleo de Fotografia do Grupo Dramático e Musical Flor de Infesta, a III Exposição Colectiva de Fotografia, subordinada ao tema "41º N ~ 8º W ", com fotografias de Alberto Martins, Carla Carvalheira, Fernando Martins, Irene Leite, José Gomes, Luciana Santos, Milú Gomes, Manuel Correia e Zia Papacamayo.

Este é o convite para esta III Exposição:

(Clicar na imagem para a ampliar)

Ajudem-nos a divulgar estas duas actividades.

José Gomes

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

…Mas o que é preciso é criar desassossego.












"…Mas o que é preciso é criar desassossego.

Quando começamos a procurar álibis para justificar o nosso conformismo, então está tudo lixado! E, quando isso acontecer comigo, eu até agradeço que os meus amigos me chamem à atenção e me critiquem. Acho que, acima de tudo, é preciso agitar, não ficar parado, ter coragem, quer se trate de música ou de política.
E nós, neste país, somos tão pouco corajosos que, qualquer dia, estamos reduzidos à condição de 'homenzinhos' e 'mulherzinhas'. Temos é que ser gente, pá!"

Zeca Afonso

Roubado - com toda a amizade - a Momentos e Documentos (http://momentosydocumentos.wordpress.com/)


Cantar Alentejano
(José Afonso)

Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer

Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou

Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou

Aquela pomba tão branca
Todos a querem p'ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti

Aquela andorinha negra
Bate as asas p'ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar




Para não esquecer:

"OS CANTOS DO ZECA"


Domingo, 18 de Novembro, 16 horas, no Fórum da Maia

Espectáculo, Exposição, Bancas, etc.

(participa e e ajuda a divulgar este evento)


José Gomes


segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Os cantos do Zeca

Cliquem na imagem para a verem em tamanho real



"OS CANTOS DO ZECA"


18 de Novembro, Domingo, 16 horas, Fórum da Maia

Espectáculo, Exposição, Bancas, etc.

(participa e divulga o melhor possível)

Informações: ajanorte@gmail.com


terça-feira, 30 de outubro de 2007

Teixeira de Pascoais



Teixeira de Pascoaes (Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos) nasceu em Amarante, a 2 de Novembro de 1877, e faleceu em São João de Gatão, Amarante, a 14 de Dezembro de 1952.

Teixeira de Pascoaes fez o curso oficial no Liceu Nacional de Amarante, tendo partido para Coimbra em 1896, com 18 anos, para se matricular no curso de Direito, que concluiu em 1901.

Nunca se adaptou à vida normal coimbrã seguida pelos estudantes de então, confinando-se ao seu quarto, aos seus livros, aos seus papéis e às suas ruminações de homem que "não fora feito para este mundo" (Jacinto do Prado Coelho). "O seu coração", observa ainda Prado Coelho, "apenas devia palpitar pela virgem que nunca existiu e de que tem saudades, vaga aspiração de azul e de inocência. O verdadeiro amor de Pascoaes dirigia-se à natureza, ao silêncio, ao mistério, aos fantasmas. O mundo fantástico era o seu mundo".

Durante a passagem por Coimbra, fez alguns amigos como Fausto Guedes Teixeira, Augusto Gil, João Lúcio e Afonso Lopes Vieira.

Em 1901 começou a exercer advocacia, em Amarante. Neste ano conheceu o pensador espanhol Miguel de Unamuno. (ver post: Don Miguel de Unamuno ) A partir de 1906, exerceu advocacia no Porto, onde conheceu Leonardo Coimbra, Jaime Cortesão e Raul Brandão, entre outros. Em 1910, foi um dos fundadores da revista A Águia, órgão do movimento da Renascença Portuguesa, sociedade cultural que tinha por fim "restituir Portugal à consciência dos seus valores espirituais próprios". Nesta publicação que dirigiu entre 1912 e 1917, Teixeira de Pascoaes pretendeu inculcar a saudade como "expressão superior da alma portuguesa", nas suas duas vertentes de lembrança e desejo, afirmando-se como grande teorizador do saudosismo.

Em 1911, foi nomeado juiz substituto em Amarante, cargo que exerceu durante dois anos, dando por finda, a sua carreira judicial, em 1913, ano em que se fixou no solar da família em S. João de Gatão.

Foi homenageado, em 1951, pela Academia de Coimbra e está traduzido para várias línguas. Faleceu em São João de Gatão, Amarante, a 14 de Dezembro de 1952.


A sua obra literária mais significativa:

Poesia:


Sempre -1898;
À Minha Alma -1898;
Terra Proibida -1899;
Vida Etérea -1906;
As Sombras -1907;
Marânus -1911;
Regresso ao Paraíso -1912;
Elegias -1912;
O Doido e a Morte -1913;
Contos Indecisos -1921;
Sonetos -1925;
Cânticos -1925.

Prosa:

O Espírito Lusitano ou o Saudosismo - 1912;
O Génio Português na sua Expressão Filosófica, Política e Religiosa -1913;
A Era Lusíada - 1914;
O Penitente - 1942


Dos seus poemas escolhi:


A MÁSCARA

Esta luz animada e desprendida –

Duma longínqua estrela misteriosa

Que, vindo reflectir-se em nosso rosto,

Acende nele estranha claridade;

Esta lâmpada oculta, em nossa máscara

Tornada transparente e radiante

De alegria, de dor ou desespero

E de outros sentimentos emanados

Do coração dum anjo ou dum demónio;

Este retrato ideal e verdadeiro,

Composto de alma e corpo e de que somos

A trágica moldura, errando à sorte,

E ela, é ela, a nossa aparição,

Feita de estrelas, sombras, ventanias

E séculos sem fim, surgindo, enfim,

Cá fora, sobre a Terra, à luz do Sol.

Teixeira de Pascoaes


José Gomes



domingo, 21 de outubro de 2007

António Aleixo

Estátua António Aleixo

Hoje acordei com as “Quadras do Poeta Aleixo” a entoarem nos meus ouvidos.

Peguei no livro deste poeta popular e escolhi estas quadras… embaladas pela voz de Francisco Fanhais:

Quadras de António Aleixo


Os meus versos o que são?

Devem ser, se os não confundo,

Pedaços do coração

Que deixo cá, neste mundo.

Este livro que vos deixo

E que a minha alma ditou,

Vos dirá como o Aleixo

Viveu, sentiu e pensou.

Eu não tenho vistas largas,

Nem grande sabedoria,

Mas dão-me as horas amargas

Lições de filosofia.

Eu não sei porque razão

Certos homens, a meu ver,

Quanto mais pequenos são

Maiores querem parecer.

P'ra a mentira ser segura

E atingir profundidade,

Tem de trazer à mistura

Qualquer coisa de verdade.

Tu, que tanto prometeste

Enquanto nada podias,

Hoje que podes – esqueceste

Tudo quanto prometias...

Metade do mundo come

À custa de outra metade;

Viver com honestidade

É abrir portas à fome...

É triste que a gente veja

Tanta gente que não come:

O pão que a muitos sobeja

Matava bem essa fome...

Quem trabalha e mata a fome

Não come o pão de ninguém;

Quem não ganha o pão que come,

Come sempre o pão de alguém!

Sei que pareço um ladrão...

Mas há muitos que eu conheço,

Que, não parecendo o que são,

São aquilo que eu pareço.

A arte é força imanente,

Não se ensina, não se aprende,

Não se compra, não se vende,

Nasce e morre com a gente.

A arte é dom de quem cria;

Portanto não é artista

Aquele que só copia

As coisas que tem à vista.

A arte em nós se revela

Sempre de forma diferente:

Cai no papel ou na tela

Conforme o artista sente.

Só a Arte tem o poder

De a todos nós transmitir

O que todos podem ver,

Mas poucos podem sentir.

Uma mosca sem valor

Poisa, c'o a mesma alegria,

Na careca de um doutor

Como em qualquer porcaria.

Riem d'outras com desdém

Certas damas bem vestidas;

Quantas, para vestir bem,

Se despem às escondidas!

Há tantos burros mandando

Em homens de inteligência,

Que às vezes fico pensando

Que a burrice é uma ciência!

...E assim, lição por lição,

Que a pouco e pouco aprendemos

De outros – a outros daremos,

Que a muitos outros darão!


Uma mini biografia de António Aleixo:

António Fernandes Aleixo, nome completo de um dos poetas populares algarvios de maior relevo, nasceu em Vila Real de Santo António a 18/Fev. 1899.

As suas quadras ficaram famosas pela ironia e pela crítica social sempre presente em seus versos. “
Também é recordado por ter sido simples, humilde e semi-analfabeto e mesmo assim ter deixado como legado uma obra poética singular no panorama literário português da primeira metade do século XX.” – Wikipédia.

Fez um pouco de tudo nos 50 anos que por cá passou: foi tecelão, guarda da P.S.P, servente de pedreiro, trabalho este que também exerceu em França, para onde emigrou.


Voltou a Portugal e estabeleceu-se em Loulé, onde passou a vender cautelas e a cantar as suas produções nas feiras, actividades essas que se juntaram ao seu rol de profissões.


Faleceu vitimado por tuberculose em 16 de Novembro de 1949.

José Gomes


quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Don Miguel de Unamuno

Don Miguel de Unamuno

(Espanha, 1864-1936)



Um Homem

Era o dia 12 de Outubro de 1936. O salão nobre da Universidade de Salamanca estava repleto. As mais altas patentes militares e demais autoridades franquistas, ali se juntaram com suas esposas, ao general Franco e sua esposa.

Celebravam o dia da raça. Pouco tempo antes Federico Garcia Lorca tinha sido fuzilado.

O Reitor da Universidade era, então, o mais prestigiado dos pensadores espanhóis e grande amigo de Lorca: Don Miguel de Unamuno.

A dada altura o general Millán Astray tomou a palavra. E, logo começou a sua alocução amaldiçoando os “bandos de republicanos e comunistas” que se opunham a Franco intitulando-os de “cancro espanhol”. Prometendo raivosamente que o fascismo “exterminaria aquele cancro passando-os a todos pelas armas” terminando a sua alocução com um “Viva La Muerte!

O Reitor escutando aquele slogan desvairado enaltecendo a luta contra a vida, ergueu-se. Virou-se para o general Astray e disse-lhe que não poderia permitir que fossem, uma grande parte dos espanhóis, vilipendiados na sua presença. E que também não aceitaria que em plena casa da sabedoria viessem aclamar a morte, com um “brado necrófilo e insensato”. Atribuindo aquele desvario todo ao facto do general ser um ignorante destituído da “grandeza moral de Cervantes”.

Ao escutar as derradeiras palavras do Reitor, o general Astray furioso e de pé, fazendo a saudação fascista, bradou: “abajo la inteligencia” complementando com um “viva la muerte”.

O Reitor virou-se novamente para ele e sem poder conter já a indignação disse-lhe:

Este é o templo da inteligência. E eu sou o sacerdote mais alto. Sois vós que profanais este sagrado recinto. Vencereis porque possuís a força bruta. Vencereis mas não convencereis porque para tanto vos falta a razão, o direito e o poder moral”.

E no meio de um silêncio constrangedor daquela multidão uniformizada que repentinamente emudecera, o Reitor retirou-se do salão.

Passados pouco mais de dois meses, a 31 de Dezembro desse mesmo ano de 1936, detido, coberto de humilhações, afundado na maior tristeza, morria também, tal como Federico Garcia Lorca às mãos do fascismo, este outro poeta e figura maior da inteligência mundial: Don Miguel de Unamuno.



- Texto cedido por José Silva (joseasilva@sapo.pt).




Don Miguel de Unamuno foi um escritor, pensador e filósofo espanhol, que nasceu e foi educado em Bilbau, num ambiente familiar tipicamente católico e puritano.

Fez os seus estudos universitários em Madrid (1880-1883) e foram as suas pesquisas e leituras de filósofos europeus (Carlyle, Spencer, Hegel, Marx) que contribuíram para o desenvolvimento de um idealismo racionalista. Desde 1981, ano em que ganhou a cátedra de grego na Universidade de Salamanca, que alternava o ensino com um intenso trabalho como jornalista.

Aderiu ao socialismo e deu a sua colaboração ao jornal de Bilbau “La lucha de clases”. No seu primeiro livro, “En torno al casticismo” (1895), tentou dar uma interpretação à alma espanhola. Desde então e até 1897 mergulhou numa profunda crise pessoal, existencial e religiosa, que foi fundamental para a evolução do seu pensamento.

Em 1921 foi nomeado reitor da Universidade de Salamanca. Perseguido em 1924 pelos seus ataques ao rei e ao ditador Primo de Rivera, foi para Paris e permaneceu em Hendaya (no lado francês da fronteira com Espanha) de 1925 a 1930.

Criada a República Espanhola em 1930, foi eleito deputado às Cortes por Salamanca e reintegrado na reitoria da Universidade, ao qual veio a renunciar em Outubro de 1936, no primeiro ano da guerra civil.

Depois do episódio acima descrito, Don Miguel de Unamuno passou os seus últimos meses em prisão domiciliária na sua casa em Salamanca, onde viria a morrer em 31 de Dezembro de 1936.

(tradução livre do artigo de Beth Groeneman)






domingo, 14 de outubro de 2007

Adriano Correia de Oliveira


Adriano Correia de Oliveira

25 anos depois da sua partida


  • Adriano Correia de Oliveira nasceu no Porto a 9 de Abril de 1942;
  • Meses depois foi morar para Avintes, na Quinta das Porcas, local pitoresco do Rio Douro.
  • Fez a instrução primária em Avintes, entre 1948 e 1952.
  • Fez o Curso Liceal no Liceu Alexandre Herculano (entre 1952-59), no Porto, tendo-se revelado um bom aluno.
  • Em 1957 foi fundada a União Académica de Avintes (UAA), da qual foi um dos fundadores; iniciou-se no Teatro Amador; a UAA tinha uma forte vertente desportiva, sendo uma das suas primeiras iniciativas a construção de um campo de voleibol.
  • Adriano acompanhou esta equipa desde os campeonatos regionais até à consagração de campeões nacionais da I Divisão.
  • Em 1959, com 17 anos de idade, matriculou-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra; tornou-se atleta da secção de Voleibol na AAC (Associação Académica de Coimbra); integrado no Conjunto Ligeiro da Tuna Académica, abrilhantou bailes de estudantes, cantando e tocando guitarra eléctrica, ao lado de José Niza, José Cid, Proença de Carvalho, e outros...
  • Apesar de caloiro, foi primeiro tenor no Orfeão Académico de Coimbra; fez também parte do Grupo Universitário de Danças Regionais da AAC; integrou o CITAC (Círculo de Iniciação Teatral de Coimbra), onde foi actor e participou em várias peças; iniciou-se no fado, acompanhando o Grupo Eduardo Melo, nas serenatas pelas noites frias das ruas da cidade de Coimbra.
  • Em 1960, foi campeão regional de Voleibol da II Divisão; gravou o seu primeiro disco “Noite de Coimbra”, acompanhado pelas guitarras de António Portugal, Jorge Martinho e Durval Meirinhas; serenata nos Jardins da A. A. Coimbra.
  • Foi, principalmente, o Orfeão Académico de Coimbra que proporcionou a Adriano o contacto com alguns dos melhores intérpretes e renovadores do fado de Coimbra.
  • Nas digressões feitas pelo Orfeão Académico de Coimbra, desde 1961 Adriano conviveu, actuou e sofreu, naturalmente, a influência de Zeca Afonso, Machado Soares, José Niza, entre outros.

No Campo Político:

  • Desde 1960 que Coimbra era palco de lutas desenvolvidas pelos estudantes, no sentido de se construir uma Academia Livre, Isenta, Justa, Democrática, um baluarte da Paz e da Igualdade.
  • Adriano Correia de Oliveira participou activamente nas lutas travadas pelo movimento associativo académico, que viria a culminar nas greves académicas de 1962.
  • Em 1963 agarrou um poema de Manuel Alegre e gravou aquele que seria o hino de resistência de uma geração, quiçá das gerações futuras: “Trova do Vento Que Passa”.
  • Os poemas que canta mobilizam e agitam quem os ouve.
  • Nos inícios de 1964, a voz de Adriano é já um apelo de combate; numa festa de recepção aos caloiros, na Faculdade de Medicina de Lisboa, Adriano cantou, pela primeira vez em público, “Trova do Vento que Passa”.
  • Uma onda de viragem começou a correr o País. A Poesia veio para a rua e com as vozes de Adriano Correia de Oliveira, Zeca Afonso; Francisco Fanhais; Luís Cília; Manuel Freire (entre outros), a cantiga tornou-se uma arma!
  • A voz e as canções de Adriano Correia de Oliveira denunciaram a Guerra Colonial, a injustiça e a opressão. A sua presença está ligada a toda uma luta estudantil, operária e camponesa contra a ditadura, a guerra colonial e a falta da Liberdade, desde a década de 60 até ao 25 de Abril.
  • Músicos e vozes como Adriano Correia de Oliveira, Zeca Afonso, José Niza, Rui Pato, António Portugal, Machado Soares, entre tantos outros, transformaram a canção numa arma contra a ditadura, uma forma de mobilização de consciências que deram origem ao PAÍS DE ABRIL.

Adriano partiu!... mas não devemos deixar cair nas brumas do esquecimento que foi com os seus sonhos, as suas canções, a sua voz e a sua generosidade que ajudou a construir este País de Abril.

Recordar-te aqui hoje, Adriano, como amanhã em qualquer ponto deste País, é manter-te bem vivo e actuante, é empunhar uma bandeira de esperança, é continuar a lutar por um Portugal, mais livre, mais fraterno, mais justo e mais solidário, tal qual como tu o sonhaste.

É esta a homenagem que te posso fazer, amigo Adriano.


É tempo de Adriano voltar a cantar!



José Gomes


quarta-feira, 10 de outubro de 2007

13 Outubro 07 - Tributo a Che Guevara (3)


Não esquecer
:

"Uma noite com... Che Guevara"


- Sábado, 13 Outubro 07 -


21,30 horas

Anfiteatro do GDM Flor de Infesta

Rua Padre Costa, 118

4465 S. Mamede Infesta




terça-feira, 9 de outubro de 2007

Che Cuevara - Hasta la victoria siempre


"No momento em que for necessário, estarei disposto a entregar a minha vida pela liberdade de qualquer um dos países da América Latina, sem pedir nada a ninguém..."


Che Guevara



1967

Após onze meses de luta, a guerrilha boliviana foi dizimada pelos "Boinas Verdes Quíchuas", tropas de elite do exército boliviano, treinadas pelos EUA especialmente para esse fim.

Che Guevara foi ferido e capturado no dia 8 de Outubro e levado para a aldeia de Higueras onde chegou a ordem do presidente boliviano René Barrientos: Che Guevara deve morrer.

Che Guevara foi executado no dia 9 de Outubro, pelo capitão Gary Prado Salgado, chefe da companhia de rangers do 2. Regimento.

Na sua morte não houve poeta ou cantor que não lhe tenha dedicado os seus poemas ou as suas canções.

Che Guevara foi chorado em todo o mundo e já nas manifestações estudantis de 1968 em França, o seu rosto apareceu impresso em bandeiras, posters, livros, camisas, boinas, numa repercussão jamais alcançada por nenhum líder político em toda a História.

José Gomes

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

13 Outubro 07 - Tributo a Che Guevara (2)


Acima de tudo procurem sentir no mais profundo de vocês qualquer injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer parte do mundo. É a mais bela qualidade de um Revolucionário.

(Che Guevara)


Não esquecer:

"Uma noite com... Che Guevara"

Sábado, 13 Outubro 07

21,30 horas

Anfiteatro do GDM Flor de Infesta

Rua Padre Costa, 118

4465 S. Mamede Infesta






domingo, 23 de setembro de 2007

13 Outubro 07 - Tributo a Che Guevara

No dia 8 de Outubro completam-se 40 anos sobre o assassinato de Che Guevara, na Bolívia.

No dia 13 de Outubro próximo, Movimentum - Arte e Cultura em colaboração com o Grupo Dramático e Musical Flor de Infesta, apresenta "Uma Noite com... Che Guevara", com a participação de Albino Santos, Carlos Andrade, Fernando Fernandes, Fernando Peixoto, Maria Mamede e Roberto Merino.

Che Guevara merece que o Anfiteatro do G. D. M. Flor de Infesta esteja cheio de uma mole humana que mostre aqueles que o assassinaram que CHE está bem vivo na nossa memória colectiva.

"A estrela de teu boné brilha mais forte, a força de teus olhos guia gerações pelas lutas da justiça, teu semblante sereno e firme inspira confiança aos que combatem pela liberdade".
- Frei Betto (antropólogo, filósofo, jornalista e escritor brasileiro).

Contamos com a vossa presença e o vosso empenhamento na divulgação deste evento.

(José Gomes)

domingo, 16 de setembro de 2007

Natália Correia - uma Mulher de garra!



Natália Correia



Natália Correia nasceu a 13 de Setembro de 1923 em Ponta Delgada, em Fajã de Baixo, uma freguesia arreigada a tradições e mitos, onde a magia e o oculto se interligam.

Veio, ainda criança, estudar para Lisboa. Iniciou-se muito cedo na escrita. Foi uma figura muito importante da poesia portuguesa contemporânea, exercendo a sua actividade criadora como Poeta, Dramaturga, Cronista, Ensaísta, Deputada, Oradora, Tradutora, Editora...

Foi na Poesia que o seu talento de vanguardista e de independente ganhou plena expressão, assegurando-lhe um lugar de destaque na cultura portuguesa da segunda metade do século XX.

Destacou-se na luta contra o fascismo, tendo apoiado a candidatura à Presidência da República do General Humberto Delgado.

A partir daqui viu vários dos seus livros serem apreendidos pela censura!

Frequentou, juntamente com Vitorino Nemésio, Ary dos Santos, Vinícius de Morais, David Mourão Ferreira, entre outros, as recepções dadas pela Amália Rodrigues. Mas cedo veio a afastar-se da fadista, não só pela sua postura de vida – Amália revolucionou o mundo cantando Camões; e Natália desafiou regime ao escrever “O Homúnculo, peça sobre Salazar -, como pelas suas posições religiosas - Amália Rodrigues, segundo Natália, era uma beata que já não a podia suportar mais; Natália Correia era uma herege insuportável, dizia Amália.

Foi eleita deputada à Assembleia da República pelo Partido Social Democrata, tendo-se destacado pela defesa das liberdades e garantias da Mulher.

Inigualável nos caprichos, nas iras, na coragem e na esperança, Natália Correia cantava e dançava, declamava, discursava, improvisava e, de tal maneira, que cada improviso chegava à raia do satírico e da polémica.

No dia 3 de Abril de 1982, o então deputado do CDS João Morgado, num debate sobre a legalização do aborto, na Assembleia da República, afirmou que «O acto sexual é para ter filhos». A resposta de Natália Correia, em poema, foi pronta e fez rir todas as bancadas parlamentares, sem excepção, tendo os trabalhos parlamentares sido interrompidos por causa disso:

Já que o coito - diz Morgado -
tem como fim cristalino,

preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
e cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou - parca ração! –
uma vez. E se a função
faz o órgão - diz o ditado –
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

(Natália Correia - 3 de Abril de 1982)


A partir de 1962, com Dórdio Guimarães (seu 4º marido), trabalhou para o cinema e televisão.

Com Isabel Meyrelles abriu o “Botequim”, um pequeno bar, espaço de convívio e tertúlia, onde se encontraram grandes vultos das letras e das artes do País.

Em 16 de Março de 1993 a poetisa sofreu um acidente cardiovascular e morreu em poucos minutos. A vigília do seu corpo, na Casa dos Açores, levou de todos os cantos do País milhares de pessoas e ondas de flores! Por lá passaram amigos e inimigos, músicos e cantores, ministros e intelectuais, tunas e artistas, vadios e desportistas, autarcas e videntes, astrólogos e sacerdotes que olharam o esquife aberto com ela lá dentro, serena, muito branca e feliz, finalmente transformada em deusa pagã.

Foi cremada no cemitério do Alto de S. João.

“(...)

Basta o que o tempo traz na sua anilha
Como uma rosa traz Abril no seio.
E que o mar dê o fruto duma ilha
Onde o amor por fim tenha recreio.”

Natália Correia - “Passaporte” (1958).

José Gomes

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Chile - 11 Setembro 1973

Salvador Allende
Assassinado em 11 de Setembro de 1973

Em 11 de Setembro de 1973, as forças armadas chilenas comandadas pelo general Augusto Pinochet e com o apoio e financiamento dos Estados Unidos, derrubaram o governo de Unidade Popular de Salvador Allende, democraticamente eleito 3 anos antes.

Em nome da democracia, dos valores cristãos e da liberdade, Pinochet instaurou uma ditadura de 17 anos em que foram brutalmente assassinadas 3.197 pessoas (este número inclui 49 crianças de 2 a 16 anos e 126 mulheres, algumas delas grávidas).

Neste dia, apesar dos vários pedidos feitos ao presidente Allende para renunciar ao cargo (e até lhe ofereceram e à sua família refúgio no exterior!), Allende não aceitou a proposta.

“ (…) Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e no seu destino. Outros homens hão-de superar este momento cinza e amargo em que a tradição pretende impor-se. Prossigam vocês, sabendo que, bem antes que o previsto, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor. Viva o Chile! Viva o Povo! Viva os Trabalhadores!

Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que o meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a deslealdade, a covardia e a traição."

Salvador Allende
Santiago do Chile, manhã do dia 11 de Setembro de 1973.
Pouco minutos passavam das 9 horas...

Tanques e aviões bombardearam o palácio presidencial. 20 mísseis foram disparados pelos caças que levaram destruição e atearam fogo ao palácio. Allende cumpriu a sua palavra de sair de La Moneda só depois de morto… e assim morreu o presidente do Chile, democraticamente eleito, de armas na mão resistindo ao golpe e defendendo o regime constitucional.

Começou então uma ditadura sanguinária com assassinatos, torturas, pessoas desaparecidas em nome da paz, da democracia e da liberdade. Os sectores conservadores dos EUA não toleraram um governo democrático de esquerda e ignoraram durante muitos anos os assassinatos, torturas e violações dos direitos humanos que eram cometidos.

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Deixo-vos com estes três vídeos, de autoria de Cesar Carrasco Caviedes, sobre o golpe de estado no Chile. Tem por base a recolha de documentos gráficos e apontamentos de reportagem desses dias sangrentos e que pertencem à colecção do autor.

Estes vídeos têm uma carga emocional muito forte, fazem-me sentir arrepios mas foi a forma que encontrei para homenagear Salvador Allende, os mártires dos anos de terror e todo o Povo do Chile.
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Chile, Venceremos El Olvido! (Parte 1 de 3)




Chile, Venceremos El Olvido! (Parte 2 de 3)



Chile, Venceremos El Olvido! (Parte 3 de 3)




11 Setembro 2007

José Gomes