domingo, 20 de agosto de 2006

Que fazer, a partir daqui?




Hoje deve ser um dia "não" nos meus artigos.
Por muitas razões:


- No dia 19 de Agosto do ano passado partiu José Machado, o Pantanero, um Amigo que tinha o condão de fazer amigos...

- No dia 19 deste ano (ONTEM) - E porque tudo tem um fim... - uma Amiga fechou definitivamente o seu blogue que nos acompanhou durante anos;

- E porque já não sei o que dizer ou o que fazer, deixo-vos com um poema de António Nobre, normalmente teatrializado por mim (Coveiro) e pela JÓ (Anto):


MALES DE ANTO

(Meses depois, num cemitério)



ANTO:

Olá, bom velho! É aqui o Hotel da Cova,
Tens algum quarto ainda para alugar?
Simples que seja, basta-me uma alcova…
(Como eu estou molhado! É do luar…)

Vamos! depressa! Vem, faze-me a cama,
Que eu tenho sono, quero-me deitar!
Ó velha Morte, minha outra ama!
Para eu dormir, vem dar-me de mamar…


O Coveiro:

Os quartos, meu Senhor, estão tomados,
Mas se quiser na vala (que é de graça…)
Dormem, ali, somente os desgraçados,
Tem bom dormir… bom sítio… ninguém passa…

Ainda lá, ontem, hospedei um moço
E não se queixa… E há-de poupá-lo a traça,
Porque esses hóspedes só trazem osso,
E a carne em si, valha a verdade, é escassa.


ANTO:

Escassa, sim! Mas tenho ossada ainda,
Enquanto que a Alma, ai de mim! Nada tem…
Guia-me ao quarto… (a Lua vai tão linda!)
Dize-me: quantos anos me dás? Cem?

Oh cem! E os que eu não mostro e o peito guarda…
Os teus mortinhos, sim! Dormem tão bem:
«Dormi, dormi! Que a vossa Mãe não tarda,
Foi lavar à Fontinha de Belém…»


O Coveiro:

Aqui. Fica melhor do que em 1.ª:
Colchão assim não acha em parte alguma!
Os outros são de chumbo, de madeira,
Mas este, veja bem, é sumaúma…

«Colchão de raízes e de folhas, liso,
Lençóis de terra brandos como espuma,
Dá-los-ei ao rol, no Dia do Juízo…»
Pronto. Quer mais alguma coisa? Fuma?

ANTO:

Mais nada. Boas noites. Fecha a porta.
(Que linda noite! Os cravos vão abrir…
Faz tanto frio!) Apaga a luz! (Que importa?)
A roupa chega para me cobrir…

Toma lá para ti, guarda. E ouve: na hora
Final, quando a Trombeta além se ouvir,
Tu não me venhas acordar, embora
Chamem… Ah deixa-me dormir, dormir!


(António Nobre)

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Para essa Amiga que ontem nos deixou mais sós nesta encruzilhada da blogesfera, dedico:
Lira na voz de Adriano Correia de Oliveira
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José Gomes
20 Agosto 06


14 comentários:

  1. Bom... eu não digo nada! Tu já sabes o que acho! A minha inspiração também não anda grande coisa! Por isso não tenho publicado nada nestes últimos dias... Por obrigação não! Então deixo-me ir ao sabor do que me apetece... :) **

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  2. Lamento imenso a tua perda! não sou muito boa nestas horas, nem sei k te dizer! Mas força!!! Se estamos aqui de passagem toca a aproveitar ao segundo! ha tantas coisas bonitas que a vida nos dá!!! o facto de a teres como amigo deixa-te memórias, não? è uma forma de continuação da tua amiga! um beijo grande!!! Força!!!

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  3. Amigo, continua !
    Obrigada por esta canção do Adriano !
    Um grande abraço

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  4. Já nem digo nada!
    beijos

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  5. Como podes, tu, Zé, acreditar
    que pra escrever chega a inspiração
    se o esforço maior para cantar
    mais que da garganta, é o da Razão?

    Acredita, meu caro, que escrever
    além de ser um acto solitário,
    reflecte essa vontade de querer
    ser com os outros sempre solidário.

    É por isso que quando a gente escreve
    se sente mais liberto, menos preso.
    Sem as palavras fica-se mais leve
    passando para os outros o seu «peso».

    FERNANDO PEIXOTO

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  6. como gostaria de ver a morte de forma tão soft... apenas um adormecer!! E como eu gosto de dormir...

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  7. Agradeço (muito!) a música que adoro. E digo-te que o que tens que fazer é continuar enquanto escrever, imaginar, criar alguma coisa para aqui pôr, te der gozo. O problema comigo é que já não estava a ser gratificante continuar ali. Nem sei porquê,provavelmente só porque era altura de acabar. E, como vês, eu continuo por aqui e no telefone e no mail. :)
    Beijos

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  8. Olá Zé.
    Duas "perdas" no mesmo dia, espaçadas no tempo, embora por motivos diferentes, é muito pesado.
    Passei pela Lique, não tive coragem de dizer nada, fiquei imobilizada. Compreendo-a e como ela sinto que há momentos de paragem. Admiro-lhe a coragem (as suas belas letras, sempre admirei).
    Bjos para todos

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  9. Olá Zé, cá estou eu aflito..., estava a jantar e a beber uma receita, feita numa caneca vinda da Festa do Avante, e que é uma das heranças do nosso camarada Machado e estava a pensar escrever algo sobre a festa e o meu mano, mal chego aqui levo com uma notícia destas, tu nem imaginas que também és um dos responsáveis do Pantanero, foram as pessoas do Movimentum que me deram força para continuar, se tu terminasses era possível que outros terminassem, força Zé Gomes.

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  10. Viva!
    Só perde quem desiste de lutar...
    Obrigado pela música.
    cumps

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  11. Quero agradecer os comentários aqui colocados como os emails recebidos.
    Mas gostaria de responder individualmente a cada um de vós:


    m.p.

    Compreendo a tua actitude, postar por obrigação não. Mas a nossa amiga era já mais que uma referência. O meu receio é que haja mais alguma coisa por baixo dessa desistência e nós não a podemos ajudar.
    Vou funcionar ao sabor da corrente...

    Mas obrigar as pessoas a lerem os meus posts, ai isso não! Tentarei postar ao sábado e domingo.
    Se alguém ler, óptimo...
    Se não ler... depois vejo!

    Sandra Daniela

    Contigo, Sandra, já esclareci a situação.
    Felizmente a minha amiga está bem viva e ainda bem.
    Obrigado pelas tuas palavras.

    Júlia Coutinho

    Gostaria de continuar, Júlia mas, continuar para quê?
    Não consigo mobilizar a sociedade, não consigo mudar o mundo, não consigo que a miséria acabe... e foram estes alguns dos meus sonhos.

    wind

    A resposta que dei à m.p. serve para ti. e repetindo-te, digo o mesmo "Já nem digo nada!"

    Fernando Peixoto

    A tua vida, já ela é Poesia. Os teus concelhos são de amigo.
    Mas olha, quando o desânimo me começa a invadir...
    Valerá a pena continuar? E para quê?

    Myu

    Antonio Nobre desde muito novo que foi um pessimista. Nem as loiras inglesas que ele encontrava nos areais da Boa Nova, nem na Ponte do Tavares, lhe dava força para a Vida.

    Alice D.

    Quanto à música fiz aquilo que sempre me ensinaste. E fui um aluno duro e chato qunto baste!
    Já fui muito chato há muito tempo atrás, até fiz figura de menino mimado e mal educado para fazeres aquilo que não querias.
    Sei que estás sempre ao alcance de um dedo.
    Compreendo a tua actitude, de mulher madura, responsável, que preferes sair pela porta grande antes que tudo acabe em banalidades...
    Mas, mesmo assim, é muito duro, minha amiga.

    amita I

    Desta vez não conseguiste sequer deixar um comentário. Eu tentei e nada! Mesmo assim foi ela que me alertou para o dia 19. E não me disse nada, a malandra!!!
    Espero que possa falar contigo no dia 2 de Setembro (tenta convencer a Otília), na Noite de Poesia em Vermoim.

    Adérito

    Recebi logo de manhã o email dizendo da actualização do Pantanero, mas estava tudo na mesma. Tentei entrar em contacto contigo mas vinha tudo devolvido.
    O Pantanero foi um dos meus pontos de referência, só mais tarde o GM é que me disse quem era o teu irmão.
    Eu sei que ele e eu fomos os responsáveis pelos "Mouros" virem até à Noite de Poesia de Vermoim e de virtual passamos todos a reais, com um estreitamento de amizades que me fez lembrar or primódios do rádio amadorismo.
    Não acredito que se eu terminar com os blogs outrs seguiriam o meu caminho.
    Isso era corromper o ideal do Zé Machado.

    José Manuel Dias

    "Só perde quem desiste de lutar..."! Zé Dias, tantos anos a lutar por um ideal e chegar a esta altura ver aquilo que acreditamos está a ruir à nossa volta...
    Pergunto se valeu a pena tudo aquilo por que lutei... não encontrei, ainda, a resposta.

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  12. Que fazer?!
    A vida continua... só não podemos é desistir, mas podemos sim continuar e pensar que esta vida é uma passagem.. e quem sabe quem partiu não estará bem melhor do que os que cá estão!!!!

    Bjinho
    Céci

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  13. Que fazer a partir daqui?... Arregaçar as mangas e seguir!!! um beijo

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  14. 19 de Agosto é uma data importante para mim, por 2 razões.

    Num ano caso-me a 19 de Agosto.

    No ano seguinte, a 19 de Agosto, nasce a minha filhota, eu estou só, porque o pai dela e meu 1º. marido, tinha fugido com uma enfermeira...

    É um dia marcante este, e se lhe juntar os motivos que apontas, ainda é mais...

    Um abraço carinhoso ;)

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