domingo, 27 de agosto de 2006

Pensamentos dispersos...

" Gilreu" - Penedo enfrente à Praia de Gondarém, na Foz do Douro



Nesta tarde quente de verão, salpicado pelo fresco vento que soprava do Norte, sentado no que resta do areal do que um dia foi a minha praia de Gondarém, dei por mim a fitar, melancolicamente, aquela massa de rocha que me transportou à minha juventude, aos grupos de praia, aos amigos de Agosto/Setembro, às competições a nado desde a praia até ao rochedo, sempre acompanhado pelo banheiro Joaquim, remando o seu barco para ir recolhendo aqueles que se ficavam pelo caminho...


Lembrei-me de Cesário Verde, poeta do século XIX e, apesar de o poema que me veio à cabeça nada ter a ver com o mar, sussurro-o em voz baixa:

De Tarde

Naquele piquenique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

(Cesário Verde - 1875)





A maré fustigava o rochedo, o vento assobiava aos meus ouvidos, enquanto flocos de espuma voavam pelo ar.
Sorri, sentindo-me ser transportado aos tempos em que os risos do nosso grupo era a alegria daquela praia, a amizade que se cimentava até ao fim do mês era uma promessa de um mês fantástico...

Mas a separação do grupo (que se foi esboroando em poucos anos!) estava bem patente naquela canção dos Les Chats Sauvages, com que nos despedíamo-nos até...

E a letra e a melodia, voltou aos meus ouvidos, acompanhada pelo zunir do vento e o bater das ondas no Gilreu, fazendo-me marejarar os olhos:



Quand vient la fin de l'été sur la plage
Il faut alors se quitter peut-être pour toujours
Oublier cette plage et nos baisers
Quand vient la fin de l'été sur la plage
L'amour va se terminer comme il a commencé
Doucement sur la plage par un baiser


Le soleil est plus pale mais nos deux corps sont bronzés
Crois-tu qu'après un long hiver notre amour aura changé ?
Quand vient la fin de l'été sur la plage
Il faut alors se quitter les vacances ont duré
Lorsque vient septembre et nos baisers


Quand vient la fin de l'été sur la plage
Il faut alors se quitter peut-être pour toujours
Oublier cette plage et nos baisers, et nos baisers
Et nos baisers !


Levantei-me.
Sorri ao Gilreu, às ondas, às areias, às recordações...

"Quand vient la fin de l'été sur la plage"

Regressei ao meu "rame-rame"!

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José Gomes
26 Agosto 06
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Charles Aznavour - "La Boheme"

domingo, 20 de agosto de 2006

Que fazer, a partir daqui?




Hoje deve ser um dia "não" nos meus artigos.
Por muitas razões:


- No dia 19 de Agosto do ano passado partiu José Machado, o Pantanero, um Amigo que tinha o condão de fazer amigos...

- No dia 19 deste ano (ONTEM) - E porque tudo tem um fim... - uma Amiga fechou definitivamente o seu blogue que nos acompanhou durante anos;

- E porque já não sei o que dizer ou o que fazer, deixo-vos com um poema de António Nobre, normalmente teatrializado por mim (Coveiro) e pela JÓ (Anto):


MALES DE ANTO

(Meses depois, num cemitério)



ANTO:

Olá, bom velho! É aqui o Hotel da Cova,
Tens algum quarto ainda para alugar?
Simples que seja, basta-me uma alcova…
(Como eu estou molhado! É do luar…)

Vamos! depressa! Vem, faze-me a cama,
Que eu tenho sono, quero-me deitar!
Ó velha Morte, minha outra ama!
Para eu dormir, vem dar-me de mamar…


O Coveiro:

Os quartos, meu Senhor, estão tomados,
Mas se quiser na vala (que é de graça…)
Dormem, ali, somente os desgraçados,
Tem bom dormir… bom sítio… ninguém passa…

Ainda lá, ontem, hospedei um moço
E não se queixa… E há-de poupá-lo a traça,
Porque esses hóspedes só trazem osso,
E a carne em si, valha a verdade, é escassa.


ANTO:

Escassa, sim! Mas tenho ossada ainda,
Enquanto que a Alma, ai de mim! Nada tem…
Guia-me ao quarto… (a Lua vai tão linda!)
Dize-me: quantos anos me dás? Cem?

Oh cem! E os que eu não mostro e o peito guarda…
Os teus mortinhos, sim! Dormem tão bem:
«Dormi, dormi! Que a vossa Mãe não tarda,
Foi lavar à Fontinha de Belém…»


O Coveiro:

Aqui. Fica melhor do que em 1.ª:
Colchão assim não acha em parte alguma!
Os outros são de chumbo, de madeira,
Mas este, veja bem, é sumaúma…

«Colchão de raízes e de folhas, liso,
Lençóis de terra brandos como espuma,
Dá-los-ei ao rol, no Dia do Juízo…»
Pronto. Quer mais alguma coisa? Fuma?

ANTO:

Mais nada. Boas noites. Fecha a porta.
(Que linda noite! Os cravos vão abrir…
Faz tanto frio!) Apaga a luz! (Que importa?)
A roupa chega para me cobrir…

Toma lá para ti, guarda. E ouve: na hora
Final, quando a Trombeta além se ouvir,
Tu não me venhas acordar, embora
Chamem… Ah deixa-me dormir, dormir!


(António Nobre)

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Para essa Amiga que ontem nos deixou mais sós nesta encruzilhada da blogesfera, dedico:
Lira na voz de Adriano Correia de Oliveira
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José Gomes
20 Agosto 06


terça-feira, 15 de agosto de 2006

Amizade? Ai que saudades...



"Foz do Douro, ao anoitecer" - José Gomes - Agosto 06



A Amizade...

não é receber, é dar;
não é magoar, é incentivar;
não é descrer, é crer;
não é criticar, é apoiar;
não é ofender, é compreender;
não é humilhar, é defender;
não é julgar, é perdoar.


Amigo é aquele pedacinho de chão quando precisamos pisar firme e um pedacinho do céu quando precisamos sonhar.


Amigo é a luz que não deixa a vida escurecer.


O amigo não é aquele que nos faz algum bem , mas aquele que está sempre e em toda a parte ao nosso lado.


O verdadeiro amigo não é aquele que só apoia sem discordar mas sim aquele que aconselha mas que nem sempre concorda.


Amigo não é aquele que chora na despedida mas sim aquele que nunca diz adeus.


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Para complementar um dia em que a inspiração não ajuda, deixo-vos com "Samba da benção", numa homenagem a Vinícius de Morais, acompanhado por Toquinho.

Saravah!

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José Gomes
15 Agosto 06


quinta-feira, 10 de agosto de 2006

Agora compreendo a guerra toda à nossa volta


Não quero acreditar!

Mas só assim compreendo porque nos estamos a matar uns aos outros... como se tudo não passasse de um mero filme de acção!

"Aprende a respeitar os teus irmãos de outros reinos, os animais e vegetais, porque são seres vivos e pertencem à mesma Criação".

(Sabedoria Ameríndia)

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

Nostalgia numa tarde de Verão...

Quando a última árvore tiver caído...
Quando o último rio tiver secado...
Quando o último peixe for pescado...
Vocês vão entender que o dinheiro não se come!

(Greenpeace)
Apenas junto mais uma linha a este grito de alerta:

Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a Humanidade deverá escolher o seu Futuro.

Mais nada!...

José Gomes
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Fundo musical:
"A Apocalipse dos Animais"
Vangelis
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