segunda-feira, 3 de julho de 2006

A GUERRA DOS MUNDOS - Parte II

A Invasão dos Marcianos
(Versão livre do rádio-teatro transmitido pela Rádio Renascença
em 25 de Junho de 1958, às 20,45 horas)


Em continuação do artigo que iniciei no “post” anterior, vou hoje falar-vos sobre “A Guerra dos Mundos” (“A Invasão dos Marcianos”, na versão portuguesa) e que teve o condão de assustar não só os ouvintes mas também os governantes de então… talvez fosse por isso que Salazar deu ordem à Pide para dar a Matos Maia (o realizador, o intérprete, o homem dos efeitos especiais…) um “puxão de orelhas”!


Mas vamos lá à história…


Por acaso, no dia em que a RR transmitiu o rádio-teatro “A Invasão dos Marcianos”, talvez por conhecer a história e ter ouvido os avisos que antecederam o programa não entrei na histeria colectiva que acabou por se instalar nos ouvintes.


Como é que nasceu "A Invasão dos Marcianos"?


Matos Maia, um homem da Rádio, influenciado pelo livro de H. Wells “A Guerra dos Mundos” e pelo programa radiofónico inspirado nesta obra (que foi para o ar, nos Estados Unidos, em 30 de Outubro de 1938, conduzido pela mão do actor G. Wells e que bateu todos os recordes de audiência dessa noite), resolveu fazer um programa semelhante… mas à maneira portuguesa!!!


Depois de ter elaborado o resumo do rádio-teatro, Matos Maia, contactou a Direcção da Rádio Renascença que o leu e achou curioso. Endossou o assunto para a censura interna que, também, não viu qualquer inconveniente em ser transmitido, mas não fosse o diabo tecê-las consultaram, ainda, o delegado do Governo.
[1]


Este não encontrou qualquer razão para proibir o projecto de Matos Maia.


Depois da luz verde dada por todos, Matos Maia passou à fase seguinte: escrever o guião e escolher os intervenientes que iriam participar na "A Invasão dos Marcianos".


O papel do repórter da Rádio Renascença no rádio-teatro seria desempenhado por Henrique Mendes mas este, à última hora, pediu para que fosse substituído porque estava a prestar provas para entrar na RTP.


Para que a história tivesse o mínimo de credibilidade foram escolhidos quase a dedo os intérpretes entre os colegas de Matos Maia.


Os efeitos especiais estavam a dar os primeiros passos. Foi precisa muita imaginação para se criar ruídos e certos sons para determinadas situações.


O trabalho de criação desenvolvido por toda a equipa interveniente durou cerca de onze meses.
[2]


Durante a transmissão da “A Invasão dos Marcianos” começaram a "cair" os telefonemas mais variados nos estúdios da RR: desde angustiantes, curiosos, até aos insultuosos!
Até a agência noticiosa "France Press" quiz saber o que se estava a passar em Carcavelos (lugar da acção) e onde ficava a "Quinta das Conchas" pois tinham já mandado repórteres para o local"...


Por duas vezes, pelo telefone, o comandante de piquete da PSP, irritado e em tom ameaçador, ordenou a interrupção do programa ou, caso contrário, o responsável pela transmissão seria preso.


Os telefonemas, as ameaças e o nervosismo que se apoderou dos “actores” levaram-nos a ignorar a ameaça do comandante da polícia e tentaram, primeiro, tranquilizar os ouvintes, dizendo que o que estavam a ouvir era pura ficção…


O comandante da polícia enviou, mais tarde, um subchefe e três guardas devidamente armados que prenderam, nos estúdios da R.R., o responsável pela emissão.
A partir daí a emissão foi definitivamente interrompida e passou a a ser transmitida música gravada e os anúncios.


No Governo Civil, Matos Maia compreendeu a histeria que se instalara: um PBX com 20 linhas estava totalmente bloqueado por pessoas que queriam saber o que se estava a passar... até havia relatos de incêndios em Carcavelos, guerra em Vila Nova de Gaia, milhares e milhares de mortos, etc...


Matos Maia ficou preso numa cela do Governo Civil durante cerca de 3 horas, como se fosse um vulgar meliante.


No dia seguinte todos os jornais tinham manchetes sobre o assunto, uns criticando e pouquíssimos aplaudindo. Chegou-se a pedir ao Governo "uma censura mais apertada para a Rádio".


"Diário Poular"



"O Primeiro de Janeiro"



Durante vários dias as chamadas telefónicas continuaram a cair na redacção da Rádio Renascença. Sócios da R. R. marcaram a sua indignação deixando de ser sócios. Outros, talvez de espírito mais aberto, frisando que não eram católicos, inscreveram-se como sócios da “Liga dos Amigos da Rádio Renascença”.


Uma semana após esta emissão Matos Maia foi, sobre prisão, conduzido à PIDE para ser interrogado!


Depois de deambular por corredores, pátios, de subir e descer escadas, de “visitar” gabinetes acompanhado por agentes "mudos" finalmente chegou ao gabinete do inspector que o interrogou.


Este estava profusamente documentado sobre o livro de H. Wells, a dramatização de G. Wells e o efeito que o programa provocara nos Estados Unidos em 1938 .


O inspector fez “render” o interrogatório o tempo necessário de maneira a meter um susto de truz ao autor da “brincadeira”. O interrogatório terminou mais ou menos com estas palavras:
"Por agora tudo bem. Mas não se meta mais nessas coisas. Um dia faz qualquer programa sobre a Lua e, então, volta para cá e daqui nunca mais sai!


Hoje sabe-se que foi o prof. Oliveira Salazar que telefonou ao comandante geral da PSP para cortarem o programa e prenderem por umas horas o responsável. O director-geral da PIDE deveria chamar o responsável do programa, uns dias depois, para "darem um puxão de orelhas ao rapazinho"...[3]

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[1] No regime anterior ao 25 de Abril qualquer informação ou qualquer programa, além da censura para a imprensa propriamente dita havia ainda, um censor residente em cada estação de Rádio.

[2] O ruído da multidão assustada e os gritos que se ouviam no programa foram gravados num baile de Fim de Ano, na Casa do Algarve, junto dos estúdios da Rádio Renascença. A cena do combate em Vila Nova de Gaia foi gravada, em Lisboa, numa noite, em Monsanto, perto do emissor da R.R. Ali gritaram à vontade a palavra "Fogo", bem como todas as ordens dadas em voz alta.

[3] Versão livre de uma reportagem dada por Matos Maia para “Clássicos da Rádio”.

José Gomes
3 Julho 2006

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Continuamos com:

Os Quinta do Bill
"No Trilho do Sol"

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7 comentários:

  1. Só para deixar o meu @braço no regresso a estas lides após uma breve ausência.

    Zeca da Nau

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  2. olá josé ;)

    como está?

    agradeço a sua visita, não sabia que só havia encontros em vermoim em setembro, fico triste por ter de esperar tanto tempo, mas vai passar num instante e podemos sempre encontrar-nos antes disso, tenho aliás muito gosto, agora em julho num sábado por exemplo, o que é que acha? e podemos sempre perguntar a outras pessoas...

    beijinhos,

    alice

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  3. Eu ainda era pequenita, nesta altura. Não me lembro, mas já ouvi várias vezes falar deste episódio. Tu continuas a despertar a nosso memória colectiva. Haja quem o faça!
    Beijos

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  4. Very cool design! Useful information. Go on! film editing schools

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  5. Enjoyed a lot! » » »

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  6. Lo que es el prejucio no?, de todaslas verciones, solo la ecuatoriana con un 90% de indigenas no creyo la veracidad de los hechos.

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