domingo, 25 de junho de 2006

A GUERRA DOS MUNDOS - Parte I

(Análise às potencialidades da rádio)



A noite de 30 de Outubro de 1938 passou à história como a data do “primeiro encontro” com extraterrestres – e de que maneira!...

Nessa noite Orson Welles (à esquerda) e a “Rádio Mercury Theatre” emitiram a versão radiofónica de “A Guerra dos Mundos”, baseada no livro de Herbert George Wells (H. G. Wells) em que simularam a Terra a ser invadida por marcianos que semeou o pânico em toda a costa leste dos Estados Unidos.

O programa pareceu tão autêntico que a maioria dos ouvintes acreditou tratar-se de uma invasão a sério! Até a data foi bem escolhida: — 30 de Outubro (O Dia das Bruxas)!

Muito se tem especulado sobre o impacto deste radioteatro na população de Nova Iorque. Mais de um milhão de pessoas ficaram convencidas de que o que estavam a ouvir era real: o pânico instalou-se na população que julgou estar a ser invadida por forças marcianas!

Foi uma fuga desordenada à procura de refúgio nas caves, grutas e outras cidades.


Os telefones da polícia, bombeiros, hospitais e defesa do território ficaram bloqueados, tais foram os números de chamadas recebidas.


Até a central eléctrica que servia Nova Iorque foi bombardeada com telefonemas exigindo que as luzes da cidade fossem apagadas!!!!


O medo generalizado paralisou Nova Jersey (onde a CBS emitia e onde Welles localizou a acção do programa), Newark e Nova Iorque.

Nesta altura atrevo-me a fazer uma pergunta:

— Será que os ouvintes (seis milhões, segundo a CBS – Columbia Broadcastig System,) estavam realmente a acreditar naquilo que ouviam?

Consciente ou inconscientemente foi uma maneira hábil de alguém testar a melhor maneira de se manipular as massas... A rádio, pese ainda a sua “juventude”, podia irromper pela intimidade dos lares e apoderar-se dos ouvintes indefesos (e/ou pouco atentos), manipulando-os de uma forma irracional.

Nesta época já o regime nazista se aproveitava do poder da rádio para difundir a sua doutrina. Estava-se, então, nos preliminares da II Guerra Mundial, falava-se já nos ataques da Alemanha e o cheiro à guerra generalizada andava no ar.

Este foi o cenário idealizado por Orson Welles para a feitura do rádioteatro. Ao usar as técnicas de relatos sensacionalistas em directo, foi despertar os medos recalcados dos ouvintes, o que veio contribuir para a animação de um guião do qual, à partida, nem os próprios actores acreditavam.

Muitos habitantes de Nova Iorque afirmaram ter encontrado, naquela noite, ET’s! Outros dispararam contra depósitos de água que se semelhavam, no imaginário dos ouvintes, às famosas máquinas marcianas que volatilizavam os terrestres.

Foi assim que um fenómeno exclusivamente literário, uma simples peça de rádioteatro bem encenada, transformou-se em realidade aos ouvidos dos ouvintes e resultou numa manifestação de histeria e pânico popular.

A transmissão da peça radiofónica durou uma hora. Antes de início do programa foi feita uma introdução em que se chamaou a atenção dos ouvintes que iriam assistir a uma dramatização de “A Guerra dos Mundos”.

Passados os primeiros 40 minutos do programa foi feita uma pausa em que se avisou, novamente, os ouvintes que estavam a ouvir um programa de ficção científica –
mas já nada adiantava! Os ouvintes acreditavam piamente que os marcianos estavam a invadir a Terra!







Matos Maia (á esquerda), um conceituado homem da rádio portuguesa, depois de um trabalho árduo de onze meses (os efeitos especiais necessários ao programa tinham que ser “inventados” e gravados para serem usados na altura própria), no dia 25 de Junho de 1958, às 20,05 horas, aos microfones da Rádio Renascença, ele e a sua equipa emitiram a versão portuguesa de “A Guerra dos Mundos”, de H. G. Wells.

Pouco tempo depois de ter começado a emissão, começou a chegar à redacção pedidos de esclarecimento, relatos de pavorosos incêndios e batalhas sangrentas em Carcavelos e em Vila Nova de Gaia (lugares onde decorria a acção) e até as agências internacionais mandaram os seus repórteres fazerem a cobertura da invasão “in loco”!!!...

O pânico e a histeria instalaram-se, à boa maneira americana, nos ouvintes...

À boa maneira portuguesa, a polícia interrompeu o programa, levando para a esquadra Matos Maia, que ficou preso durante três longas horas.

Uma semana depois foi conduzido à Pide.

Depois de longas horas passadas naquele lúgubre edifício, foi ouvido por um inspector que, depois de miríades de perguntas feitas só para o aterrorizar, deixou-o sair em liberdade.

Mais tarde veio-se a saber que este “teatro” Polícia / Pide fora “encomendado” pelo próprio Dr. Oliveira Salazar que não deve ter gostado mesmo nada do programa, ainda por cima transmitido pela “emissora católica portuguesa”...

Anos mais tarde, em Coimbra (1998?), foram relembradas essas emissões radiofónicas.
Desta vez não houve pânico, nem histeria, mas sim um certo interesse pela transmissão. Houve um debate em que se falou de guerras, de ficção científica, de H. G. Wells e de Orson Welles.
Foi convidado de honra Matos Maia que contou de viva voz a sua versão, anos 60, de “A Guerra dos Mundos”.

Aqui os ouvintes estiveram mais interessados em conhecer / dialogar sobre ficção científica e a existência de Outros Mundos, outras Humanidades…

Este será o primeiro capítulo desta história.



Matos Maia partiu em 5 de Março de 2005, deixando-nos uma longa história na Rádio, em folhetins teatralizados entre os quais "A Queda de um Anjo", de Camilo Castelo Branco, "Quando os Lobos Uivam", de Aquilino Ribeiro, "As Cidades e as Serras", de Eça de Queirós, e "Mau Tempo no Canal", de Vitorino Nemésio.

Matos Maia foi autor, entre outros, do livro "Aqui, Emissora da Liberdade", no qual relatou a ocupação do antigo Rádio Clube Português na madrugada de 25 de Abril de 1974 e a sua transformação em posto de comando do Movimento das Forças Armadas, donde foram em emitidos comunicados e avisos que seriam importantes para o sucesso das operações e para o apoio da população ao golpe militar.

Dar uns apontamentos como nasceu, foi para o ar e as consequências da “A Invasão dos Marcianos” (versão Matos Maia) é uma forma de lembrar este grande Homem.





José Gomes
25 Junho. 06


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"No Trilho do Sol"
Quinta do Bil
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10 comentários:

  1. A versão do Matos Maia...
    não conhecia, nunca ouvi sequer qualquer menção, da adaptação da guerra dos mundos, à realidade portuguesa, feita pelo mesmo.

    Abraço Zé
    e boa semana
    Luís

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  2. Tem calma.
    Na próxima postagem vou escrever (não o programa todo que foi transmitido) mas as partes principais.
    Lá para quinta feira...
    Um abraço e obrigado pela visita.

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  3. Olá Zé, bom dia!
    Já falamos deste assunto, há muito tempo atrás, lembro-me de se ter falado há muitos anos, mas não creio ter assistido ao mesmo, caso contrário, de alguma cosa me lembraria.
    Um beijo e obrigada por lembrares e dividires connosco.
    Beijos

    Maria Mamede

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  4. querido josé,

    espero que esteja tudo bem consigo

    tenho pena de não ir a vermoim este sábado, mas com o jogo de portugal é impossível pensar noutra poesia, se é que me faço entender...

    um beijinho para si,

    alice

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  5. Desconhecia a existência de Matos Maia.
    Obrigada pelo post informativo e educativo:)
    beijos

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  6. Esta é para a Alice:
    Com que então trocas uns simples pontapés numa bola (quem coitada, não tem culpa de tanta agressividade!!!) pelos teus amigos.
    Boa!
    Um abraço

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  7. Mamede,
    Eu, por acaso, ouvi parte do programa, lembro-me de problemas na Afurada... mas a memória já não ajuda muito e tive que recorrer à investigação.
    Obrigado pelo comentário.

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  8. Para a Wind,
    Até me sinto envergonhado!
    Arranjas sempre tempo e qualquer coisa para escreveres...
    Com o passar dos anos sinto-me cada vez com menos inspiração de comentar... e comentar, por comentar, prefiro o silêncio do meu cantinho e deliciar-me com o que escreves e com as tuas fotos.
    Matos Maia foi um dos grandes homens da rádio.
    Um abraço

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  9. caro josé,

    fui aos seus outros blogues e não consigo comentar lá...

    eu não troco futebol por amigos, eu vou ver o jogo com eles ;)

    e depois jantar e farra se houver golos ou dieta e cama se não...

    tenho pena que termine o movimentum 2,

    beijinhos,

    alice

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