sexta-feira, 19 de maio de 2006

TIMOR LOROSA'E - 4º aniversário

20 de Maio de 2006
(4º aniversário de Timor Lorosa’e)


Faz hoje, 20 de Maio de 2006, quatro anos que pelas 00 horas locais[1], em Tassitolo, Díli, 250.000 pessoas assistiram ao nascimento da mais jovem nação do terceiro milénio.

Foram precisos quase 25 anos de massacres, de destruição maciça e de uma grande tenacidade e coragem dum povo que sempre acreditou que a sua pátria livre e independente iria chegar… e chegou nesse 20 de Maio de 2002!

Em vez de tecer odes àqueles que com o seu sangue e a sua coragem contribuíram para o nascimento de Timor, vou lembrar a história desta ilha curiosa, em forma de crocodilo, situada lá para os lados onde o sol nasce primeiro...


A ilha de Timor está situada no sudeste asiático a 6o e 11o de latitude Sul e a 123o e 128o de longitude Este, a cerca de 500 km da Austrália.

Está dividida em duas partes:

Timor Oeste, território indonésio desde 1949, com uma área de cerca de 13.000 km2 e tem a cidade de Kupang como capital;

Timor Leste ou Timor Lorosa’e, território situado na parte oriental da ilha, com uma área de cerca de 19.000 km2 e que tem a cidade de Díli (situada na costa norte da ilha) como capital.
Faz ainda parte do território de Timor Leste o enclave de Okussi (Oe-Cusse), situado na parte noroeste da costa de Timor indonésio e a ilha de Ataúro, em frente a Díli, (uns escassos 23 km) e o ilhéu de Jaco, na ponta leste da ilha.

O clima é influenciado não só pela sua componente marítima como também pela cadeia de montanhas mais altas a oeste, o que torna as regiões centrais mais quentes, ameno e chuvoso nas montanhas. O ponto mais alto é o Monte Ramelau com pouco menos de 3.000 metros de altura.

Timor não teve praticamente contacto com o Islão ou outras religiões asiáticas mantendo uma tradição animista ancestral associada a uma cultura católica que lhes foi incutida desde o século XVI pelos missionários católicos, enraizando nos indígenas um forte sentimento religioso e patriótico que os ligou sempre a Portugal
[2], sendo o Tétum e o Português as línguas principais do território.

O café e o petróleo são as principais riquezas do país.

Na antiguidade o sândalo, o tamarindo, a borracha e as madeiras exóticas foram os pontos de cobiça de muitos aventureiros europeus e uma fonte de riqueza para os colonos que lá se estabeleceram.

Timor, colónia portuguesa desde o século XVI, foi ocupada pelos japoneses durante a II Guerra Mundial (Fevereiro de 1942 a Setembro de 1945), voltando a ser uma colónia administrada por Portugal até 1975. Em 28 de Novembro desse ano a Fretilin proclamou unilateralmente a sua independência.

Timor foi invadido e ocupado pela Indonésia (com a conivência tácita e a indiferença de várias países, entre eles os Estados Unidos da América e a Austrália) a 7 de Dezembro de 1975. Desde essa altura instalou-se um clima de terror e morte que dizimou milhares e milhares de timorenses.

Em 17 de Julho de 1976 Timor Leste foi declarado como a 27ª província da Indonésia (no entanto as Nações Unidas nunca reconheceram esta anexação, considerando Portugal como potência administrante).

Em 12 de Novembro de 1991 deu-se o massacre do cemitério de Santa Cruz. O exército indonésio abriu fogo indiscriminadamente sobre uma manifestação pacífica, causando centenas de mortes e feridos.

Esta carnificina foi amplamente divulgada a todo o mundo pelos jornalistas presentes, o que fez mexer a opinião pública internacional e chamou a atenção para as violações dos direitos humanos em Timor.

Depois de uma luta heróica de quase um quarto de século, onde morreram milhares e milhares de timorenses, Timor veio a ser reconhecido como país livre e independente pela comunidade internacional, graças a um referendo que fez inveja a muitas democracias ocidentais.

Foi o resultado do referendo de 30 de Agosto de 1999, em que a esmagadora maioria do povo timorense recusou a autonomia prometida pelo governo indonésio, que foi projectar a Nação rumo ao futuro, mesmo com um custo demasiado alto em vidas humanas e em destruições que teriam sido evitadas se os “senhores polícias do mundo” fossem tão céleres como o fazem hoje (quando lhes convém!...).

As milícias integracionistas – não contentes com os resultados do referendo – juntamente e em cumplicidade com os soldados indonésios estacionados no território mergulharam Timor, mais uma vez, na barbárie, espalhando o seu ódio, deixando atrás de si rastos de sangue, destruição e morte.

O povo indefeso procurou ajuda e protecção nos quartéis da Untaet, enquanto outros se refugiaram nas montanhas ao lado das Falintil (ali aquarteladas) que, com um espírito abnegado de disciplina e o coração destroçado por se sentirem de mãos atadas, lançaram apelos lancinantes a todo o mundo.

A partir de 8 de Setembro de 1999, com concentrações diárias e vigílias, Portugal demonstrou a sua indignação pelas imagens das chacinas que percorreram mais uma vez todo o mundo graças a um punhado de jornalistas que arriscaram e, alguns deles, deram as suas vidas.

Cordões humanos, uma paragem simbólica por 3 minutos em plena hora de ponta (15 horas), os fax enviados para os “polícias do mundo”, os e-mail que “entupiram “ os correios electrónicos de Kofi Annan (Nações Unicas), Habibie (Indonésia) e Bill Clinton (América), além de outras acções de massas levadas a cabo por todo o mundo, trouxeram o dia de glória porque todos os timorenses esperavam.

19 de Maio de 2002

Pelas 18 horas (10 horas da manhã em Portugal) iniciou-se uma grande Missa campal em Taci-Tolo, Dili.

Quando faltavam poucos minutos para as 00 horas, eis que chegou o momento solene da independência: a bandeira das Nações Unidas, ao som do “All Freddom”, foi arreada do mastro onde flutuou durante três anos, foi dobrada com toda a solenidade e entregue a Kofi Annan.

Seis membros das ex-Falintil, com toda a dignidade, passo bem firme, dirigiram-se para o palco e ali entregaram com toda a pompa e circunstância, a bandeira “preta, amarela e rubra” de Timor Leste aos seis membros das recém formadas Forças de Defesa de Timor Leste (FDTL) que, por sua vez, a entregaram a uma jovem – símbolo do Futuro que nascia – trajando o tradicional “Tais
[3]” colorido.

Esta preparou a bandeira que foi içada lentamente no mastro principal, marcando assim os primeiros minutos do dia 1 da primeira nação do século XXI.

Um enorme silêncio emotivo concentrou-se naquela terra mística. À volta da bandeira perfilaram-se as almas de todos aqueles que, abnegadamente, deram a sua vida para que Timor pudesse ser o País que todos tinham sonhado.

Os anos foram-se passando… das cinzas renasce Timor, aos poucos...

As pessoas já parecem outras, mais sorridentes e descontraídas; Díli já começa a mostrar uma certa organização, as ruas estão mais limpas e já se vêem polícias; já há sinaleiros nas principais esquinas a regular o trânsito; as Instituições já funcionam, o comércio tem crescido, as escolas abriram as suas portas e foram crescendo em número, as crianças sorriem e a justiça já está a funcionar...

Os telefones, telemóveis e outros meios de comunicação já estão a operar sem dependerem da Austrália ou da Indonésia.

A energia eléctrica, embora precária e dependente do diesel que vem do exterior, já é uma realidade.
Os hotéis recebem turistas.

Deu-se início ao combate à pobreza e à ignorância. As Faculdades (Engenharia Técnica, Economia, Agricultura, Ciências Sociais e Políticas e Ciências de Educação) estão a funcionar, investindo, assim, o governo no Futuro do seu Povo e do seu País.

Nas povoações do interior notam-se, ainda, imensas carências especialmente no campo alimentar, transportes e saúde que o governo vai atendendo na medida das suas possibilidades... a reconstrução dos edifícios, casas, escolas, estradas começa a tomar forma.

O Futuro vai-se construindo, passo a passo, com segurança e, principalmente, com abnegação e muita confiança.

Parabéns, Timor Leste, parabéns Timor Lorosa’e pelo teu quarto aniversário, por mais um ano em Liberdade a caminho do teu desenvolvimento.


[1] - 16,00 horas do dia 19 de Maio de 2002, em Portugal.
[2] - Saliento a veneração e o respeito que o indígena timorense dedicava à bandeira portuguesa, passando ao largo da sua sombra, para a não pisar.
[3] -Panos festivos, multicolores, tradicionais, fabricados artesanalmente em Timor Leste, que os homens enrolam à cintura e que as mulheres colocam à volta do corpo, abaixo das axilas.

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Interpretação da bandeira:

Branco – a paz
Estrela – a luz que guia
Preto – o obscurantismo que é preciso vencer
Amarelo – os rastos do colonialismo
Vermelho – a luta pela libertação nacional

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Hino nacional de Timor-Leste

Pátria é o hino nacional da República Democrática de Timor Leste. Com letra de Francisco Borja Costa e música de Afonso Araújo, foi composto em 1975 e usado pela primeira vez no dia 28 de Dezembro do mesmo ano, quando Timor-Leste se declarou unilateralmente independente de Portugal. O país foi invadido pela Indonésia em 7 de Dezembro e Francisco Borja da Costa foi morto no mesmo dia. Foi declarado hino nacional no dia independência da Indonésia (20 de Maio de 2002).

Pátria

Pátria, Pátria, Timor-Leste, nossa Nação.
Glória ao povo e aos heróis da nossa libertação.
Pátria, Pátria, Timor-Leste, nossa Nação.
Glória ao povo e aos heróis da nossa libertação.
Vencemos o colonialismo, gritamos:
Abaixo o imperialismo.
Terra livre, povo livre,
Não, não, não à exploração.
Avante unidos firmes e decididos.
Na luta contra o imperialismo
O inimigo dos povos, até à vitória final.
Pelo caminho da revolução.

José Gomes
20 Maio 06




11 comentários:

  1. Obrigada pela lembrança e mais do k merecida homenagem a um ppovo k durante décadas resisitiu duramente, em nome da sus dignidade enquanto povo e venceu dando-nos, a todos, uma bela lição. Longa e próspera vida a este país de lutadoras e lutadores.
    Bem hajas Zé Gomes. Bom f.s

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  2. Querido Camarada,

    Saúdo a bela homenagem que fizeste ao Povo de Timor-Leste.

    Nunca é demais lembrar a luta heróica dos Povos quebrando as grilhetas impostas pelos seus opressores.

    Estamos na mesma luta Camarada!

    Um Abraço

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  3. Deixo em ti um Grande abraço a esse Povo Heróico, que com tanto esforço e sofrimento, soube conquistar a sua Liberdade. Nunca será demais recordar os dias difíceis porque passaram tantos Homens e Mulheres e por aqueles que deram a Vida pela conquista da Liberdade.

    Bem hajas por o recordares aqui!

    Um abraço carinhoso e os meus sinceros Parabéns por este grande Dia.

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  4. Faço minhas as palavras da menina marota, deixando um grande Abraço a todos vós...

    Bjs ;)

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  5. Olá José,

    estou há vários minutos a tentar publicar um comentário no seu movimentum, mas não consigo.

    Gostei muito de conhecer os seus blogs e a Rosa tinha toda a razão, o José é um historiador fabuloso.

    Desejo-lhe a continuação de um bom fim de semana e despeço-me até breve.

    Um grande beijinho,

    alice

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  6. Olá Papá... sim senhor! É assim mm... toca a relembrar um dia memorioso (se é k a palavra existe) para Timor Lorosa'e. Parabén Mamã pelo 4º ano de independência do teu belo país que espero conhecer em breve! Agora apenas uma indiscriçãozita... este hino do século passado é um bocado chatinho... bem k podiam ter escolhido melhor... ponham lá o Xanana a fazer uma melhor escolha que este hino parece k estamos na Igreja...
    Beijinho mto gd!!!

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  7. Caro José,

    muito obrigada pelas suas palavras

    não lhe agradeço de ânimo leve

    penso que foi a única pessoa que me "viu"

    bem haja

    um grande beijinho,

    alice

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  8. pena a instabilidade crescente. Oxalá a paz regreese para ficar.
    Bom resto de dia, amigo Zé.

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  9. Manuela F.25/5/06 16:13

    Caro José,
    É pena que muitos entendam a paz só vivendo a guerra!
    O ser humano continua mesquinho e insatisfeito! Inadaptado ao bem.
    Bem hajam os esperançosos como o José, para se manter viva a fé!

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