sexta-feira, 12 de maio de 2006

Recordando Timor...


Casas típicas em Lautém (Timor) antes de 1971



O Crocodilo Que Se Fez Timor

Disseram, e eu ouvi e acreditei, que há muitos séculos um crocodilo vivia num pântano. Este crocodilo sonhava crescer e ter mesmo um tamanho descomunal. Mas a verdade é que ele não só era pequeno, como vivia num espaço muito apertado. Tudo à sua volta era estreito, somente o seu sonho era grande.

Um pântano é o pior sítio para se morar... e, ainda por cima, sem alimentos em abundância, daqueles tão a gosto de um crocodilo!

Naturalmente que tudo tem um limite. Incluindo a resistência à fome. E o crocodilo começou a sentir a fraqueza que lhe quebrava o ânimo e o definhava. Os seus olhos iam-se amortecendo e já quase não podia levantar a cabeça e abrir a boca.

- Tenho de sair deste lugar e procurar caça mais além... - pensou.

Esforçou-se e penosamente galgou a margem, caminhando através do lodo e, depois, da areia. O sol estava a pino, aquecendo a areia e transformando o chão em brasa. O crocodilo começou a perder o resto das suas forças e sentiu que se parasse ali, iria morrer assado.

Foi nessa altura que passou um rapazinho a cantarolar e quando o viu, perguntou:

- Que tens Crocodilo?! Tens as pernas partidas ou caiu-te alguma coisa em cima?

- Não, não parti nada! - respondeu - Estou inteiro, mas, apesar de ser pequeno de corpo, há muito que não aguento com o meu próprio peso. Imagina que já nem tenho forças para sair deste braseiro.

- Se é só por isso, posso ajudar-te! - respondeu o rapazinho e logo de seguida, deu uns passos, carregou o crocodilo e foi pô-lo à beira do pântano.

Quando o rapaz o poisou no chão molhado, o crocodilo sorriu, dançou com os olhos, sacudiu a cauda e disse-lhe:

- Obrigado. És o primeiro amigo que encontro. Olha, não posso dar-te nada! Pouco mais conheco que este charco, aqui tão à nossa vista... mas se um dia quiseres passear por aí fora, atravessar o mar, vem ter comigo!

- Gostava mesmo, porque o meu grande sonho é ver que mais há por esse mar fora.

- Sonho?!!... falaste em sonho?!! Sabes, eu também tenho esse sonho! Se um dia quiseres viajar mar fora, vem ter comigo. – disse-lhe o crocodilo.

Passados uns tempos, o rapazinho apareceu ao crocodilo. Já quase o não reconhecia. Via-o já sem sinais das queimaduras, mais gordo, bem comido...

- Ouve, Crocodilo, o meu sonho não acabou e eu não o aguento mais cá dentro! Gostava de me meter ao mar...

- O prometido é prometido... Aquele meu sonho... mas com a caça que tenho arranjado, quase me esqueci dele. Fizeste bem em vir lembrar-mo, rapazinho. Queres ir, agora mesmo, por esse mar fora?

- Isso, isso, crocodilo...

- Pois, eu agora também quero ir. Vamos lá então!

O rapazinho acomodou-se no dorso do crocodilo, como se fosse numa canoa, e partiram para o alto mar.

Era tudo tão grande e tão lindo!

O que mais surpreendia os dois era o próprio espaço, o tamanho que se estendia à sua frente e para cima, uma coisa sem fim.

E navegaram dia e noite, noite e dia, nunca paravam. Viram ilhas de todos os tamanhos, de onde as árvores e as montanhas lhes acenavam. E as nuvens também. Não sabiam se era mais bonito os dias se as noites, se as ilhas, se as estrelas.

Navegaram, navegaram sempre voltados para o sol, até que um dia o crocodilo se cansou.

- Ouve-me rapazinho, já não posso mais! O meu sonho acaba mesmo aqui... - disse, com voz débil, o crocodilo.

- O meu não vai acabar, nunca! - respondeu, o rapaz, com voz firme.

Ainda este não tinha terminado de dizer a última palavra e o crocodilo começou a transformar-se. Aumentou, aumentou de tamanho, sem nunca perder a sua forma primitiva, transformando-se numa ilha carregada de montes, de florestas e de rios.

É por isso que Timor tem a forma do crocodilo.


(Baseado na “Cantolenda Maubere” de Fernando Sylvan. )


O mapa de Timor faz lembrar a forma de um crocodilo.


José Gomes

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"Em Português vos Amamos"
Vários artistas
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11 comentários:

  1. Esta é uma forma de lembrar Timor e os timorenses e que apesar das diversidades, hoje como ontem, estamos convosco.
    Um abraço amigo desde a Maia.

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  2. é muito bonita esta lenda. Apesar de já a conhecer leio-a smp com encantamento.
    E há mtuita sabedria nesta singela estória da criação.
    Bom f.s Bjs e ;)

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  3. Manuela F.12/5/06 17:26

    A delicadeza desta narrativa denuncia a alma simples de um povo em busca de paz! infelizmente continuamente assaltado pela crueldade da ambição! Que o mundo ajude depressa o "crocodilo" Timor Lorosa`e a alcançar o seu tão merecido sossego!

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  4. Estou bastante apreensivo com os últimos acontecimentos.

    Um @bração do
    Zeca da Nau

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  5. pergunto aos meus alunos o que foi abril?
    rsss
    ze... eu falo em tudo cruamente. eu falo no dia da liberdade e fazemos cravos. nao falo em otelo ou em salgueiro maia mas falo num regime que nao deixava as pessoas falarem. a seguir vem o dia da mae... e depois... e faz-se um ciclo ate ao ano seguinte.

    abraço da leonoreta

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  6. parece que tambem tens as tuas historias com os pombos, rss
    esta tudo bem? eu estou quase a ir para casa mas ainda falta um bocado.
    abraço da leonoreta

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  7. Muito giro Zé. Não conhecia. A música é linda também. Bjinhos

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  8. Acho que cada um tem a sua história...
    Não sei se te contei, mas uma bela tarde, em plena Lisboa, fui à procura de um arco íris. E sabes que o encontrei?
    Não sei o que aconteceu, a partir dessa altura tudo desapareceu à minha volta...
    Pensei, que com o decorrer do tempo, tudo ficasse como dantes...
    Apenas o dia segue ao dia, a semana à semana, o mês ao mês... e aquelas imagens lindas continuam bem presentes na retina e no coração.

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