quarta-feira, 31 de maio de 2006

Para onde caminhas, humanidade?...






A partir de hoje acabei com a "violência" de pedir que visitassem os meus blogues, sempre que os actualizava.
Eles irão aparecendo sempre que o "engenho e a arte" der sinal de vida!... A quem os visitar e/ou deixar qualquer comentário, agradeço e ficarei feliz!

Uma boa semana e... até sempre, meus amigos!





("Nascer do Sol" - foto de Maria de Lourdes Gomes)

Cada vez menos entendo a Humanidade.
Parece que se está a descer à barbárie mais primitiva: são mortes, são saques, são roubos, são incêndios, são actos de vandalismo, são pilhagens, são seres assustados a correr em debandada transidos de medo...
É a destruição um pouco por toda a parte!
Será que valerá a pena continuar a acreditar na Humanidade? Num projecto de vida mais justo, mais fraterno, sem ódios nem vinganças?
Lembrei-me de vos escrever este texto, do poema do António Gedeão e do "I have a dream", dos Abba...
Mas será que ainda valerá a pena sonhar?



TROVAS PARA SEREM VENDIDAS
NA TRAVESSA DE S. DOMINGOS


O repórter fotográfico
foi ver a fuzilaria.
Ganhou o prémio do ano
da melhor fotografia.

Notícias não confirmadas
informam, de origens várias,
que as tropas revolucionárias
recentemente cercadas
acabam de ser esmagadas
com perdas extraordinárias.

Na redacção do jornal
corre tudo em sobressalto.
A hora é sensacional.
Toda a gente dormiu mal,
gesticula e fala alto.


Passageiros recém-chegados
do lugar da revolução
viram dúzias de soldados
prontos a ser fuzilados
e muitos já arrumados
e amontoados no chão.


Agora que se anuncia
já estar regulado o tráfico,
inda mal rompera o dia
foi ver a fuzilaria
o repórter fotográfico.


Vá lá, vá lá, felizmente,
felizmente que ao chegar
inda havia muita gente
que estava por fuzilar.


Numa ridente campina
de papoilas salpicada,
um sol de lâmina fina
cortava a densa neblina
da metralha disparada.


Berrando como vitelos
a malta dos condenados
avançava aos atropelos
e arrepanhava os cabelos
com gestos alucinados.


O repórter já suava,
não tinha mãos a medir;
ora a máquina carregava,
apontava e disparava,
ora no chão se agachava,
pulava e gesticulava
com afanosa presteza.


Há empregos, com franqueza,
nem haviam de existir.
A um tipo de mãos nojentas
que aos berros sobressaía
gritando frases violentas,
focou-o mesmo nas ventas
no momento em que caía.


Mas o melhor não foi isso.
O melhor foi uma velhota
que pôs tudo em rebuliço.
Rápida como um rastilho,
em convulsivos soluços,
foi estatelar-se de bruços
sobre o corpo do seu filho.


«Meu menino, meu menino!
Valha-me a Virgem Maria!
Que vai ser o meu destino
sem a tua companhia?!

Mataram-me o meu menino!
Filho do meu coração!
Que vai ser o meu destino
sem a tua protecção?!»


Nunca uma cena de horror,
Uma tragédia tão viva,
tão grande e expressiva dor,
alguém teve ao seu dispor
defronte duma objectiva.
Era uma face crispada,
um olhar perdido e louco,
uma boca de xarroco
em lágrimas ensopada.


Foi uma sorte, realmente.
Um desses casos notáveis,
bestiais e formidáveis
que acontecem raramente.


Aquelas faces crispadas
correram pelo mundo inteiro
nas revistas ilustradas,
em tiragens esgotadas
que deram muito dinheiro.


Com aquele sentido humano
da justiça e da harmonia,
o repórter todo ufano,
ganhou o prémio do ano
da melhor fotografia.

António Gedeão


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"I have a dream" - ABBA

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domingo, 28 de maio de 2006

Ai Timor!...

"Quando é que elas vão poder voltar a rir assim?!..." - foto de Prof. A. Serra

Realmente cansei de ouvir, ler e ver tanta notícia sobre Timor-Leste que no fundo além de se contradizerem, deixam transparecer qualquer coisa que não está completamente correcta.
Não quer dizer que Timor-Leste não esteja a passar por um período mau, o primeiro grande choque dos seus quatro anos de Nação livre e independente.
Mas no meio deste choque de crescimento tenho a certeza que grandes interesses internacionais estarão a mexer os cordelinhos, não para pôr água na fervura, antes atiçando as brasas... ai petróleo, petróleo, a quanto obrigas!

Pois ao ler hoje o blog "Do Alto do Tatamailau" (http://tatamailau.blogspot.com/) de um profundo conhecedor de Timor, de todas as crónicas que tenho lido e dos emails recebidos directamente de Timor, foi esta que - além do humor que consegue transmitir! - aponta de uma forma sintética a razão porque a GNR já lá deveria estar...

Depois de ter o seu consentimento, deixo-vos com a leitura do blog, com alghuns destaques da minha lavra... ah! E como não gosto de textos muito longos, resolvi fazer parágrafos.

Penso que será mais fácil assim obrigar-nos a pensar...

Obrigado, Manuel L. Almeida, pela seu amor e dedicação a Timor, pelo texto e pela foto - e até pela legenda que sugeriu.

"28 Maio 2006

À atenção do Sr. Engº, do Sr. Prof. e do Sr. Dr!...

O que está a acontecer e a relativa ineficácia (aparente?) da intervenção australiana até ao momento eram de esperar...

As forças armadas --- nenhumas FA em lado nenhum do mundo --- não estão preparadas para a "reposição da ordem pública"; isso É tarefa das polícias, nomeadamente das "polícias de choque".

Isto é: os australianos foram chamados para susterem determinado "inimigo", essencialmente militar (Reinaldos, Salsinhas FDTL contra PNTL, etc.), e afinal o inimigo com que se deparam é outro: as várias "turbas" que andam a pôr a cidade a ferro e, principalmente, fogo.

Moral da história, Sr. Eng.º, Sr. Prof. Doutor e Sr. Ministro Dr. António Costa: o que está em causa em Díli é trabalho para a GNR e não para um exército, que não está equipado nem preparado (não foi treinado) para este tipo de operações.

Por isso seria essencial --- E-S-S-E-N-C-I-A-L! --- que enviassem a GNR JÁ e não "às mijinhas"!... (desculpem o palavreado mas por vezes não há como falar português "vernáculo" para ver se a gente se entende!...)

Pelo menos envie 80 GNRs agora e 40 depois em vez de ao contrário!...


Não se preocupe com o facto de eles não poderem dispor dos GMCs para irem para o "trabalho"! Eles anteriormente "torravam" dentro daquilo e estou certo que meios de transporte em Díli não lhes vão faltar!


Os japoneses deixaram lá muitos camiões mas se esses não chegarem os nossos GNRs até de "mikrolete" vão!...


E não se esqueçam de levar muitas bandeiras de Portugal! O Jumbo está a vendê-las a 1€... :-)

Estes 80 mais o que resta da UIR treinada pela GNR serão muito úteis!

Porque é que temos de chegar sempre atrasados a todo o lado?!...

E não tenham medo porque eles não vão tomar partido por nenhuma das partes em confronto --- se é que há partes em confronto...


Eles vão simplesmente tomar partido... pelos timorenses! Pelo povo timorense que morre todos os dias na rua e em suas casas, queimadas pela "maltosa" que anda à solta. Garanto-vos que só o grito de "GNR!..." vai ser suficiente para a maior parte dar "às de vila diogo"!...


De tal forma que quando eles lá estiveram se brincava dizendo que a GNR tinha sempre que actuar com um "carro vassoura"... para apanhar as xanatas que a malta deixava pelo caminho quando fugia!...

PS:

- Os Srs. Ministros não sabem o que é uma mikrolete? Não se preocupem. Os GNR sabem... É assim uma coisa do tipo Toyota Hi-Ace mas que em vez de levar 6-9 passageiros leva 16-19...


Mais os sacos de arroz, os cachos de bananas…


Sem contar com as galinhas e o peixe penduradas por fora!


posted by Manuel Leiria de Almeida @
Domingo, Maio 28, 2006 "

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Foi com este apontamento que M.L.A., um homem que conhece bem a realidade de
Timor, tentou dar uma ajuda áquele Povo, num recado aos nossos governantes... e não só!
Espero que estas sugestões não caiam em saco roto.

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Carlos Paredes - "Asas sobre o Mundo"

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quarta-feira, 24 de maio de 2006

Até sempre, camarada!


Ao

Fernando Bizarro

(http://lusomerlin.blogspot.com)



O que é a vida?

É o clarão de um pirilampo na noite.
É o sopro de um bisonte no inverno.
É a pequena sombra que corre na erva e se perde no pôr do sol.

Descansa em Paz, camarada.

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Para ti, Fernando, a "Balada de Outono" do Zeca, no seu último concerto...

José Gomes

sexta-feira, 19 de maio de 2006

TIMOR LOROSA'E - 4º aniversário

20 de Maio de 2006
(4º aniversário de Timor Lorosa’e)


Faz hoje, 20 de Maio de 2006, quatro anos que pelas 00 horas locais[1], em Tassitolo, Díli, 250.000 pessoas assistiram ao nascimento da mais jovem nação do terceiro milénio.

Foram precisos quase 25 anos de massacres, de destruição maciça e de uma grande tenacidade e coragem dum povo que sempre acreditou que a sua pátria livre e independente iria chegar… e chegou nesse 20 de Maio de 2002!

Em vez de tecer odes àqueles que com o seu sangue e a sua coragem contribuíram para o nascimento de Timor, vou lembrar a história desta ilha curiosa, em forma de crocodilo, situada lá para os lados onde o sol nasce primeiro...


A ilha de Timor está situada no sudeste asiático a 6o e 11o de latitude Sul e a 123o e 128o de longitude Este, a cerca de 500 km da Austrália.

Está dividida em duas partes:

Timor Oeste, território indonésio desde 1949, com uma área de cerca de 13.000 km2 e tem a cidade de Kupang como capital;

Timor Leste ou Timor Lorosa’e, território situado na parte oriental da ilha, com uma área de cerca de 19.000 km2 e que tem a cidade de Díli (situada na costa norte da ilha) como capital.
Faz ainda parte do território de Timor Leste o enclave de Okussi (Oe-Cusse), situado na parte noroeste da costa de Timor indonésio e a ilha de Ataúro, em frente a Díli, (uns escassos 23 km) e o ilhéu de Jaco, na ponta leste da ilha.

O clima é influenciado não só pela sua componente marítima como também pela cadeia de montanhas mais altas a oeste, o que torna as regiões centrais mais quentes, ameno e chuvoso nas montanhas. O ponto mais alto é o Monte Ramelau com pouco menos de 3.000 metros de altura.

Timor não teve praticamente contacto com o Islão ou outras religiões asiáticas mantendo uma tradição animista ancestral associada a uma cultura católica que lhes foi incutida desde o século XVI pelos missionários católicos, enraizando nos indígenas um forte sentimento religioso e patriótico que os ligou sempre a Portugal
[2], sendo o Tétum e o Português as línguas principais do território.

O café e o petróleo são as principais riquezas do país.

Na antiguidade o sândalo, o tamarindo, a borracha e as madeiras exóticas foram os pontos de cobiça de muitos aventureiros europeus e uma fonte de riqueza para os colonos que lá se estabeleceram.

Timor, colónia portuguesa desde o século XVI, foi ocupada pelos japoneses durante a II Guerra Mundial (Fevereiro de 1942 a Setembro de 1945), voltando a ser uma colónia administrada por Portugal até 1975. Em 28 de Novembro desse ano a Fretilin proclamou unilateralmente a sua independência.

Timor foi invadido e ocupado pela Indonésia (com a conivência tácita e a indiferença de várias países, entre eles os Estados Unidos da América e a Austrália) a 7 de Dezembro de 1975. Desde essa altura instalou-se um clima de terror e morte que dizimou milhares e milhares de timorenses.

Em 17 de Julho de 1976 Timor Leste foi declarado como a 27ª província da Indonésia (no entanto as Nações Unidas nunca reconheceram esta anexação, considerando Portugal como potência administrante).

Em 12 de Novembro de 1991 deu-se o massacre do cemitério de Santa Cruz. O exército indonésio abriu fogo indiscriminadamente sobre uma manifestação pacífica, causando centenas de mortes e feridos.

Esta carnificina foi amplamente divulgada a todo o mundo pelos jornalistas presentes, o que fez mexer a opinião pública internacional e chamou a atenção para as violações dos direitos humanos em Timor.

Depois de uma luta heróica de quase um quarto de século, onde morreram milhares e milhares de timorenses, Timor veio a ser reconhecido como país livre e independente pela comunidade internacional, graças a um referendo que fez inveja a muitas democracias ocidentais.

Foi o resultado do referendo de 30 de Agosto de 1999, em que a esmagadora maioria do povo timorense recusou a autonomia prometida pelo governo indonésio, que foi projectar a Nação rumo ao futuro, mesmo com um custo demasiado alto em vidas humanas e em destruições que teriam sido evitadas se os “senhores polícias do mundo” fossem tão céleres como o fazem hoje (quando lhes convém!...).

As milícias integracionistas – não contentes com os resultados do referendo – juntamente e em cumplicidade com os soldados indonésios estacionados no território mergulharam Timor, mais uma vez, na barbárie, espalhando o seu ódio, deixando atrás de si rastos de sangue, destruição e morte.

O povo indefeso procurou ajuda e protecção nos quartéis da Untaet, enquanto outros se refugiaram nas montanhas ao lado das Falintil (ali aquarteladas) que, com um espírito abnegado de disciplina e o coração destroçado por se sentirem de mãos atadas, lançaram apelos lancinantes a todo o mundo.

A partir de 8 de Setembro de 1999, com concentrações diárias e vigílias, Portugal demonstrou a sua indignação pelas imagens das chacinas que percorreram mais uma vez todo o mundo graças a um punhado de jornalistas que arriscaram e, alguns deles, deram as suas vidas.

Cordões humanos, uma paragem simbólica por 3 minutos em plena hora de ponta (15 horas), os fax enviados para os “polícias do mundo”, os e-mail que “entupiram “ os correios electrónicos de Kofi Annan (Nações Unicas), Habibie (Indonésia) e Bill Clinton (América), além de outras acções de massas levadas a cabo por todo o mundo, trouxeram o dia de glória porque todos os timorenses esperavam.

19 de Maio de 2002

Pelas 18 horas (10 horas da manhã em Portugal) iniciou-se uma grande Missa campal em Taci-Tolo, Dili.

Quando faltavam poucos minutos para as 00 horas, eis que chegou o momento solene da independência: a bandeira das Nações Unidas, ao som do “All Freddom”, foi arreada do mastro onde flutuou durante três anos, foi dobrada com toda a solenidade e entregue a Kofi Annan.

Seis membros das ex-Falintil, com toda a dignidade, passo bem firme, dirigiram-se para o palco e ali entregaram com toda a pompa e circunstância, a bandeira “preta, amarela e rubra” de Timor Leste aos seis membros das recém formadas Forças de Defesa de Timor Leste (FDTL) que, por sua vez, a entregaram a uma jovem – símbolo do Futuro que nascia – trajando o tradicional “Tais
[3]” colorido.

Esta preparou a bandeira que foi içada lentamente no mastro principal, marcando assim os primeiros minutos do dia 1 da primeira nação do século XXI.

Um enorme silêncio emotivo concentrou-se naquela terra mística. À volta da bandeira perfilaram-se as almas de todos aqueles que, abnegadamente, deram a sua vida para que Timor pudesse ser o País que todos tinham sonhado.

Os anos foram-se passando… das cinzas renasce Timor, aos poucos...

As pessoas já parecem outras, mais sorridentes e descontraídas; Díli já começa a mostrar uma certa organização, as ruas estão mais limpas e já se vêem polícias; já há sinaleiros nas principais esquinas a regular o trânsito; as Instituições já funcionam, o comércio tem crescido, as escolas abriram as suas portas e foram crescendo em número, as crianças sorriem e a justiça já está a funcionar...

Os telefones, telemóveis e outros meios de comunicação já estão a operar sem dependerem da Austrália ou da Indonésia.

A energia eléctrica, embora precária e dependente do diesel que vem do exterior, já é uma realidade.
Os hotéis recebem turistas.

Deu-se início ao combate à pobreza e à ignorância. As Faculdades (Engenharia Técnica, Economia, Agricultura, Ciências Sociais e Políticas e Ciências de Educação) estão a funcionar, investindo, assim, o governo no Futuro do seu Povo e do seu País.

Nas povoações do interior notam-se, ainda, imensas carências especialmente no campo alimentar, transportes e saúde que o governo vai atendendo na medida das suas possibilidades... a reconstrução dos edifícios, casas, escolas, estradas começa a tomar forma.

O Futuro vai-se construindo, passo a passo, com segurança e, principalmente, com abnegação e muita confiança.

Parabéns, Timor Leste, parabéns Timor Lorosa’e pelo teu quarto aniversário, por mais um ano em Liberdade a caminho do teu desenvolvimento.


[1] - 16,00 horas do dia 19 de Maio de 2002, em Portugal.
[2] - Saliento a veneração e o respeito que o indígena timorense dedicava à bandeira portuguesa, passando ao largo da sua sombra, para a não pisar.
[3] -Panos festivos, multicolores, tradicionais, fabricados artesanalmente em Timor Leste, que os homens enrolam à cintura e que as mulheres colocam à volta do corpo, abaixo das axilas.

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Interpretação da bandeira:

Branco – a paz
Estrela – a luz que guia
Preto – o obscurantismo que é preciso vencer
Amarelo – os rastos do colonialismo
Vermelho – a luta pela libertação nacional

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Hino nacional de Timor-Leste

Pátria é o hino nacional da República Democrática de Timor Leste. Com letra de Francisco Borja Costa e música de Afonso Araújo, foi composto em 1975 e usado pela primeira vez no dia 28 de Dezembro do mesmo ano, quando Timor-Leste se declarou unilateralmente independente de Portugal. O país foi invadido pela Indonésia em 7 de Dezembro e Francisco Borja da Costa foi morto no mesmo dia. Foi declarado hino nacional no dia independência da Indonésia (20 de Maio de 2002).

Pátria

Pátria, Pátria, Timor-Leste, nossa Nação.
Glória ao povo e aos heróis da nossa libertação.
Pátria, Pátria, Timor-Leste, nossa Nação.
Glória ao povo e aos heróis da nossa libertação.
Vencemos o colonialismo, gritamos:
Abaixo o imperialismo.
Terra livre, povo livre,
Não, não, não à exploração.
Avante unidos firmes e decididos.
Na luta contra o imperialismo
O inimigo dos povos, até à vitória final.
Pelo caminho da revolução.

José Gomes
20 Maio 06




sexta-feira, 12 de maio de 2006

Recordando Timor...


Casas típicas em Lautém (Timor) antes de 1971



O Crocodilo Que Se Fez Timor

Disseram, e eu ouvi e acreditei, que há muitos séculos um crocodilo vivia num pântano. Este crocodilo sonhava crescer e ter mesmo um tamanho descomunal. Mas a verdade é que ele não só era pequeno, como vivia num espaço muito apertado. Tudo à sua volta era estreito, somente o seu sonho era grande.

Um pântano é o pior sítio para se morar... e, ainda por cima, sem alimentos em abundância, daqueles tão a gosto de um crocodilo!

Naturalmente que tudo tem um limite. Incluindo a resistência à fome. E o crocodilo começou a sentir a fraqueza que lhe quebrava o ânimo e o definhava. Os seus olhos iam-se amortecendo e já quase não podia levantar a cabeça e abrir a boca.

- Tenho de sair deste lugar e procurar caça mais além... - pensou.

Esforçou-se e penosamente galgou a margem, caminhando através do lodo e, depois, da areia. O sol estava a pino, aquecendo a areia e transformando o chão em brasa. O crocodilo começou a perder o resto das suas forças e sentiu que se parasse ali, iria morrer assado.

Foi nessa altura que passou um rapazinho a cantarolar e quando o viu, perguntou:

- Que tens Crocodilo?! Tens as pernas partidas ou caiu-te alguma coisa em cima?

- Não, não parti nada! - respondeu - Estou inteiro, mas, apesar de ser pequeno de corpo, há muito que não aguento com o meu próprio peso. Imagina que já nem tenho forças para sair deste braseiro.

- Se é só por isso, posso ajudar-te! - respondeu o rapazinho e logo de seguida, deu uns passos, carregou o crocodilo e foi pô-lo à beira do pântano.

Quando o rapaz o poisou no chão molhado, o crocodilo sorriu, dançou com os olhos, sacudiu a cauda e disse-lhe:

- Obrigado. És o primeiro amigo que encontro. Olha, não posso dar-te nada! Pouco mais conheco que este charco, aqui tão à nossa vista... mas se um dia quiseres passear por aí fora, atravessar o mar, vem ter comigo!

- Gostava mesmo, porque o meu grande sonho é ver que mais há por esse mar fora.

- Sonho?!!... falaste em sonho?!! Sabes, eu também tenho esse sonho! Se um dia quiseres viajar mar fora, vem ter comigo. – disse-lhe o crocodilo.

Passados uns tempos, o rapazinho apareceu ao crocodilo. Já quase o não reconhecia. Via-o já sem sinais das queimaduras, mais gordo, bem comido...

- Ouve, Crocodilo, o meu sonho não acabou e eu não o aguento mais cá dentro! Gostava de me meter ao mar...

- O prometido é prometido... Aquele meu sonho... mas com a caça que tenho arranjado, quase me esqueci dele. Fizeste bem em vir lembrar-mo, rapazinho. Queres ir, agora mesmo, por esse mar fora?

- Isso, isso, crocodilo...

- Pois, eu agora também quero ir. Vamos lá então!

O rapazinho acomodou-se no dorso do crocodilo, como se fosse numa canoa, e partiram para o alto mar.

Era tudo tão grande e tão lindo!

O que mais surpreendia os dois era o próprio espaço, o tamanho que se estendia à sua frente e para cima, uma coisa sem fim.

E navegaram dia e noite, noite e dia, nunca paravam. Viram ilhas de todos os tamanhos, de onde as árvores e as montanhas lhes acenavam. E as nuvens também. Não sabiam se era mais bonito os dias se as noites, se as ilhas, se as estrelas.

Navegaram, navegaram sempre voltados para o sol, até que um dia o crocodilo se cansou.

- Ouve-me rapazinho, já não posso mais! O meu sonho acaba mesmo aqui... - disse, com voz débil, o crocodilo.

- O meu não vai acabar, nunca! - respondeu, o rapaz, com voz firme.

Ainda este não tinha terminado de dizer a última palavra e o crocodilo começou a transformar-se. Aumentou, aumentou de tamanho, sem nunca perder a sua forma primitiva, transformando-se numa ilha carregada de montes, de florestas e de rios.

É por isso que Timor tem a forma do crocodilo.


(Baseado na “Cantolenda Maubere” de Fernando Sylvan. )


O mapa de Timor faz lembrar a forma de um crocodilo.


José Gomes

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"Em Português vos Amamos"
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terça-feira, 2 de maio de 2006

Vasco Gonçalves - o general do povo

Vasco Gonçalves


O General Vasco Gonçalves nasceu a 3 de Maio de 1921, em Lisboa, e faleceu no Algarve, a 11 de Junho de 2005.
Foi um dos elementos do Movimento dos Capitães desde a reunião da Comissão Coordenadora que se efectuou na Costa da Caparica. Integrou a Comissão de Redacção do Programa do Movimento das Forças Armadas e foi o elemento de ligação com o General Costa Gomes.
Foi membro da Comissão Coordenadora do MFA e mais tarde primeiro-ministro dos II, III, IV e V governos provisórios.
Durante o seu governo iniciou-se a reforma agrária, criaram-se as condições para as nacionalizações dos principais meios de produção privados (bancos, seguros, transportes públicos…), foi estabelecido o salário mínimo, o subsídio de férias e o subsídio de Natal.

Vasco Gonçalves tinha 52 anos quando a Revolução aconteceu. Por ela havia esperado e para ela se havia preparado. Foi a maior alegria da sua vida «participar no 25 de Abril e viver aqueles momentos como primeiro-ministro» - disse.

(…)

Mas a História não se desenvolve às avessas, como se o passado pudesse ser determinado a partir do futuro. A inviabilidade da Revolução Portuguesa numa Europa da qual a URSS desapareceu não pode servir de justificação política à contra-revolução.

Para quantos se situam na perspectiva de Vasco Gonçalves — entre eles me incluo — a Revolução Portuguesa foi uma revolução assassinada. Assim a devemos tentar compreender, contemplada deste início do século XXI, quando alguns dos principais responsáveis civis pela contra-revolução, pequenos políticos caricaturais, se pavoneiam pelo mundo mascarados de campeões da democracia.

No inverno da vida, Vasco Gonçalves está consciente de que «as maiores conquistas que o povo português alcançou ao longo dos seus oito séculos de história, se verificaram em 74-75 e nelas desempenharam um papel fundamental os militares do MFA».

O projecto revolucionário, como o concebera, não se concretizou. Mas não há calúnia nem agressão à história que possa apagar o significado da participação decisiva na Revolução de Vasco Gonçalves, cidadão, soldado e patriota. Ele foi com Álvaro Cunhal um dos grandes portugueses do século XX.”

(última parte do artigo “Vasco Gonçalves – O general do povo que fez história”, autoria de Miguel Urbano Rodrigues, sobre o livro “Vasco Gonçalves – Um General na revolução”, entrevista de Maria Manuela Cruzeiro).

Deste modo saudo esse grande Homem que um dia acreditou na aliança POVO-MFA e na construção de um País onde não houvesse opressores nem oprimidos, nem exploradores nem explorados, onde houvesse para todos Saúde, Paz, Habitação, Pão e Emprego...


Eu te saudo, Companheiro Vasco.



José Gomes


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"Companheiro Vasco"
Cantam: - Carlos A. Monis e Maria do Amparo
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