terça-feira, 3 de janeiro de 2006

Pára e Medita, Homem

Nascer do Sol em Dili - Timor - 6 horas da manhã
(Foto do Prof. Almeida Serra - Set. 05)

Mais uma vez foi-me enviada, via email, uma animação em “pps” que faz, de novo, um apelo à PAZ.
O dia 1 de Janeiro é o Dia Internacional da Paz. Neste dia fazem-se muitas acções, desenvolvem-se campanhas, correm rios de tinta num apelo à Humanidade para alcançar o seu bem mais precioso: a PAZ!.
Palavras…
Apenas palavras…
Apelos que são feitos ano a ano, sem qualquer resultado prático.

Pára e medita, ó Homem

Pára, Homem, pára um minuto…
Porque corres, porque foges, de quem foges?!!!
Pára, Homem, pára! …

(Na África, na Palestina, um pouco por toda a Terra…
Uma criança entre mil, de olhos tristes fitando a fria objectiva da câmara de vídeo, com as moscas a passear-lhe pelos lábios secos de fome e de sede, deixa escapar o ténue fio que ainda a prendia à vida…
No lado de cá do televisor, olhando sem nada ver, despeja-se o que sobrou do jantar num saco preto, rumo às lixeiras que alimentarão as moscas que irão afagar os olhos frios de outros meninos do lado de lá do televisor…).

E tu, Homem, fechas os olhos e avanças!
A escuridão é a berma da estrada que calcorreias indiferente, a noite o descanso da tua consciência, as trevas o ignorar de tudo aquilo que te rodeia! …
Abre os olhos, Homem, e vê…
Há LUZ!

(Israel! Iraque! Palestina! Nepal! Espanha! E tantos outros países...
Numa manhã de um dia qualquer, numa hora de ponta ou numa qualquer hora de qualquer dia, um autocarro, um carro, um homem, uma criança brilha tanto como o Sol!...
No meio de gritos de dor, pedaços de ferro e carne em estilhaços, bocados coloridos de roupas e sapatos salpicados de sangue são atirados, de súbito, num turbilhão que rapidamente esconde o céu azul…
No lado de cá do televisor, dando uma dentada na torrada que espicha manteiga nos pelos hirtos do bigode recém aparado, o Homem fita e fecha os olhos, enquanto a poeira assenta, do lado de lá do televisor, amortalhando dezenas de inocentes vitimadas pela explosão…).

E avanças, com um encolher de ombros!
De olhos fechados, sempre, tropeçando a cada segundo no negrume da tua indecisão, na escuridão do teu desalento!
Abre os olhos, Homem, e vê…
Há LUZ!
Mas mesmo assim teimas caminhar às escuras, de braços estendidos, esmagando com as tuas mãos sedentas de glória e de poder, a massa ululante que te rodeia, espezinhada nas teias do teu egoísmo.

(Já pouco falta para ser em qualquer parte do mundo!...
O assobio das balas embaladas pelo sibilar dos jactos que deixam cair a sua carga de morte, nos locais previamente escolhidos, com precisão matemática. O “flock” seco das bombas atingem os edifícios que se esboroam em migalhas de pedras e pó, arrastando nos destroços os rostos expressivos das crianças, o cansaço dos velhos, o desalento das mulheres que beijam o chão, rolando em amálgamas de sangue, carne e retalhos de ossos…
Do lado de cá do televisor, o Homem aconchega-se no sofá, pega na cerveja loira, gelada, saborosa... Um ritual digital muda-o para o beijo longo duma novela, ou o golo que o faz esquecer que o dinheiro já se foi no mês passado e que o filho – que já não recebe há mais de três meses – encontrou hoje a porta da fábrica fechada, rodeada de feras vestidas de negro, escudos transparentes, mãos crispadas em bastões de dor, viseiras de acrílico que mal escondem os olhos desumanamente cintilantes de raiva!)

Abre os olhos, Homem, e vê…
Há LUZ!
E continuas a avançar às escuras, calcando a massa ululante que exploras, sugando-lhe o sangue já seco, bebendo-lhe as lágrimas calejadas de pedra, masturbando-te no suor, na dor, na desilusão que provocas…

(Aldeia Global… Reunião dos senhores ditos “donos do mundo”…)
O Povo Anónimo mostra, desfilando ordeiramente, o seu descontentamento pelas medidas que estão a ser implementadas
De repente, nuvens de gás lacrimogéneo, seguidas de tiros, bastonadas, gritos de pavor, de dor e de raiva toldam o ar que mal se respira. A multidão dispersa, olhos tristes, gritando de pânico e de dor, acossados pela horda de negro e viseiras de plástico que desferem indiscriminadamente bastonadas e pontapés, irradiando a brutalidade em que foram gerados…
Do lado de cá do televisor, o Homem, insensível, sorri e goza o espectáculo, enquanto diz um piropo à namorada que o afaga ao seu lado.)

Abre os olhos, HOMEM, e vê…
Vê essa sombra esguia, repelente, informe…
Sentes um arrepio?! Estremeces?!!
Sim, HOMEM, é isso mesmo! Essa massa informe és tu! É um bocado de ti mesmo, és tu na tua essência, a tua parte integrante do TODO a que chamas HUMANIDADE.
Abre os olhos, Homem, e vê…
Há LUZ! Aproveita esse instante...
Olha à tua volta…
Sente, aspira, afaga…


Ano zero!!!


Trrr... estado crítico... tremores terra à escala mundial... trr... trrr... grau 10... trrr... destruídas... trr… cidades do globo... trr... não temos contacto com... trr... trrr... biiiimmmm…

(...)

Chove copiosamente.

O ribombar dos trovões, seguido dos zigzags luminosos dos relâmpagos, rasgam o céu toldado de nuvens.

As trevas dão lugar à luz!
Um Sol brilhante espreguiça-se no meio de farrapos escuros que se diluem no dia que nasce!
Um céu muito azul reflecte-se num mar verde onde, aqui e acolá, salta um peixe das águas calmas. Círculos concêntricos ondulam em todas as direcções dardejando as cores do arco íris.

No ar paira uma serena brisa perfumada...

Mais adiante, onde as ondas morrem em finos novelos de espuma branca, dois seres aquecem-se, ainda húmidos ou da chuva ou de um mergulho no mar.

Dois pares de olhos azuis fitam-se, num Mundo de mil promessas...


José Gomes
3 de Janeiro de 2006
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"Canto Libre"
Victor Jara
CD:
Homenaje A Victor Jara
Canciones Postumas/ Canto Libre
4,54"
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16 comentários:

  1. Espectacular post! Para mim, escreveste tudo! beijos

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  2. Sylvia Cohin4/1/06 20:53

    "Os pecados são os mesmos, desde que o mundo é mundo... só muda quem os pratica..."
    Que paradoxo, o mesmo homem que é capaz de se superar infinitamente, é o mesmo que não consegue se reinventar melhor......
    Um abraço, Sylvia

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  3. Zé, este texto não pode ser comentado. nada se lhe pode acrescentar, nem discordar....nem...
    Bjs solidários de luz e paz

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  4. Anónimo4/1/06 23:54

    Palavras para quê?
    Falamos e voltamos a falar mas,continuamos a ver e ouvir... os mesmos ataques aos seres nossos iguais e ao mundo à nossa volta...

    Vai sempre alertando hoje e amanhã e depois...
    Beijos
    Milú

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  5. Parabéns Zé, meu irmão!!!
    Na verdade, apesar de saber que escreves bem, de vez em quando, o que escreves tem o condão de me emocionar até às lágrimas...
    É claro que desta vez o sonho dum recomeço de Paz e Amor, um recomeço a sério, embalado pelo "Canto libre" do Vitor Jara, ajudou à emoção.
    Obrigada meu Irmão e um abraço imenso de Futuro, Perfeito Sonho
    da humana imperfeição!...


    Maria Mamede

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  6. Anónimo5/1/06 17:03

    O amigo Zé Silva queixa-se (como vários) que não consegue aceder aos comentários.
    E pelo meu email enviou-me "isto" com o pedido de publicar em seu nome:

    "Como não consigo entrar nos comentários venho por aqui. Podes colocar lá.


    A paz? Qual paz? A paz pequenina de cada um ou a paz no mundo?
    Se é a paz pequenina de cada um basta continuarmos, por exemplo,
    entretidos em grupinhos de poesia a alimentar uma cultura de " bibelot" muito satisfeitos com nós mesmos.
    Se é a paz no mundo, ousemos dar o nome às coisas e dizer alto e bom som em toda a parte que a condição primeira para se alcançar a paz é:
    1º - Os EUA retiram-se do Iraque e devolvem ao México o Texas, a
    California e o Arizona. Devolvem Porto Rico aos porto - riquenhos.
    Suspendem o bloqueio a Cuba e restituem aos cubanos a base naval
    de Guantánamo.
    2º - A França e a Espanha devolvem aos bascos o seu território; a
    Turquia, o Irão e o Iraque admitem o direito dos Curdos a uma pátria;
    a Rússia liberta a Chechênia; a China desocupa o Tibete; as Coreias
    do Norte e do Sul chegam a um acordo de reunificação; o Estado
    Palestino é imediatamente criado e reconhecido pela ONU, Israel
    devolve os territórios ocupados e Jerusalém é declarada cidade
    internacionalmente independente, administrada pela ONU.
    3º - O FMI e o Banco Mundial cancelam as dívidas dos países pobres.
    4º - Decreta-se a pobreza como crime hediondo e os países mais
    ricos aliam-se, não para bombardear um povo miserável como o do Afeganistão ou do Iraque, mas para fazer cumprir este decreto.
    Depois ...
    Bem, depois, ainda há muito a fazer até se alcançar a paz ...
    a paz alcança-se quando cada um de nós, individualmente, for a paz.
    Comecemos agora.

    José Silva

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  7. Zé, penso que era esta a tua ideia ao me enviares o mail.
    Desculpa se com o itálico alterei alguma coisa.
    Um abraço.

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  8. Olá Zé. Fiquei sem palavras pela intensidade deste apelo que todos os homens conscientes sabem e levianamente olvidam. A humanidade padece de uma cegueira e surdez voluntária e há tão pouco tempo, Zé, tão pouco para ainda se poder alterar este estado degradante e de destruição absoluta. Se estes gritos chegassem à mente de quem pode, de quem consente, a esperança renasceria. Haja fé, e que essas vozes nunca se calem.
    Um bjinhopara ti e para as tuas lindas meninas

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  9. Apelo pungente, Zé! Infelizmente, infelizmente o Homem, nós, não aprendemos NUNCA! **

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  10. ola ze. ainda se notam vestigios de mau tratamento ao planeta. mas eu acredito naquelas pessoas que passam cinco horas por dia comigo. juntos estamos a descobrir como salvar o que falta.

    abraço da leonoreta

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  11. Leonor,
    Prazer em te "ver" comentar o chuviscos... os outros blogs já deves ter esquecido os links...
    Agora só actualizas o ex-improviso quando vais a casa?
    Dá notícias.
    Tem uma boa semana.
    Abraço.

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  12. Ó vizinho Zé, vocemecê escreve tão bem que é um gosto ler as suas histórias!
    Temos de continuar a acreditar!

    Um abraço.

    Vai um cafezinho?...

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  13. Obrigado vizinha, pela visita.
    Tenho andado mais despistado que uma lebre em tempo de caça e não tenho visitado/comentado os blogs daqueles amigos que me dizem alguma coisa.
    E tu és uma delas.
    Tem um bom ano.
    Um abraço

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