domingo, 29 de janeiro de 2006

Timor e o relatório da CAVR...

Antes de começar propriamente este "post" quero deixar a tradução daquele "palavrão" no título: CAVR - Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação.
Foi uma Comissão criada para investigar as atrocidades, violações aos direitos humanos e crimes contra a Humanidade acometidos em Timor durante os 24 anos de ocupação indonésia.

Monumento ao massacre de Setembro de 1999

Não resisto passar a notícia da Agência Lusa que me chegou às mãos no dia 25 de Janeiro, sobre o cancelamento da visita do presidente Xanana Gusmão à Indonésia para entregar às entidades governamentais daquele país o relatório das atrocidades cometidas em Timor-Leste durante a invasão e ocupação indonésia.
O cancelamento da visita era mais que lógico! Para complementar a notícia deixo-vos com o post de Manuel Leiria de Almeida, (
http://tatamailau.blogspot.com/) desse mesmo dia, que fez uma abordagem a essa visita e recordou pormenores que se vão esfumando no tempo… Para que a memória dos povos não esqueça nunca!
Amigo Manuel Almeida, não resisti a este “roubo”… mas é por uma boa causa!

“Díli, 25 Jan. (Lusa) - Jacarta cancelou a visita que o Presidente timorense, Xanana Gusmão, tinha prevista na sexta-feira para entregar ao homólogo, Susilo Bambang Yudhoyono, uma cópia de um relatório contendo as atrocidades cometidas em Timor-Leste durante a invasão e ocupação indonésia.
A notícia do cancelamento da visita foi divulgada hoje na edição electrónico do jornal Finantial Times.
O relatório, elaborado pela Comissão de Acolhimento, Verdade e Reconciliação (CAVR), passa em revista as violações aos direitos humanos e os crimes contra a Humanidade perpetrados em Timor-Leste entre 25 de Abril de 1974 e 25 de Outubro de 1999.
Ao longo de 2.500 páginas, o documento reporta em pormenor as atrocidades indonésias, entretanto desmentidas pelas autoridades de Jacarta, que nega que 183 mil pessoas tenham sido mortas durante os 24 anos de ocupação.
De acordo com o Finantial Times, o cancelamento da visita constitui uma retaliação à entrega de cópia do relatório da CAVR às Nações Unidas, pelo próprio Xanana Gusmão ao secretário-geral da ONU, Kofi Annan.
Um porta-voz da Presidência indonésia, Garibaldi Sujatmiko, salientou que o encontro - que chegou a ser anunciado em Díli -, "não figura na agenda" de Susilo Yudhoyono.
O embaixador de Timor-Leste em Jacarta, Arlindo Marçal, é citado na notícia do Finantial Times como tendo referido que Díli vai continuar a tentar manter abertos os canais de diálogo com a Indonésia, para discutir o relatório e o seu conteúdo.
De acordo com o relatório, a cujo Sumário Executivo a Agência Lusa teve acesso, pelo menos 183 mil pessoas terão sido mortas durante os 24 anos da ocupação indonésia de Timor-Leste.
O relatório, que na versão portuguesa tem cerca de 2.500 páginas, salienta que 70 por cento das mortes ocorreram às mãos das forças de segurança indonésias e de milícias timorenses treinadas e armadas por Jacarta.
A grande quantidade de pormenores sangrentos das violações aos direitos humanos, que segundo a CAVR envolveu as forças de segurança indonésias e as milícias timorenses e, nalguns casos, a própria FRETILIN, está na base da decisão dos líderes políticos timorenses em salvaguardar as conclusões e proceder de forma calculada à sua divulgação, o que deverá acontecer até Junho próximo.
Escrito a partir de 18 meses de trabalho no terreno, onde foram realizadas mais de 1.500 acções de reconciliação comunitária, com vítimas e violadores frente a frente, e identificadas mais de 8.000 vítimas, o relatório foi intitulado "Chega!", expressão que representa um alerta às consciências para que o que se passou nunca mais volte a repetir-se.
O rol de violações descrito varia entre execuções colectivas a deslocamentos forçados da população civil, passando por estupros, actos de tortura e abusos de crianças.
O documento assinala vários crimes, designadamente o massacre de 160 guerrilheiros da FRETILIN e familiares, perpetrado em Setembro de 1981 nas encostas do Monte Aitana, entre os distritos de Manatuto e Viqueque, a sudeste de Díli.
Esta acção foi definida pela CAVR como fazendo parte da chamada Operação Kikis, uma iniciativa levada a cabo pelos indonésios ao longo de dois meses naquela região.
Sobre os acontecimentos de 1999, designadamente em Agosto desse ano, quando se realizou a consulta popular patrocinada pelas Nações Unidas e em que a população timorense optou pela independência, o relatório considera que as acções de destruição encetadas por Jacarta corresponderam a uma estratégia definida gizada pelo comando militar indonésio, ao mais alto nível, não resultando de acções descontroladas ou actos individuais de militares indonésios.
"Membros da administração civil de Timor-Leste e funcionários governamentais, incluindo ministros, estavam a par da estratégia levada a cabo no terreno, e não tomaram nenhuma medida para a impedir de ser executada", destaca o documento.
Em cada caso de violação dos direitos humanos apenas são identificadas as unidades militares.
A identificação dos responsáveis individuais, cujo número não é revelado, está codificada e a lista secreta está em poder de Xanana Gusmão.
O relatório destaca que entre 1977 e 1979, pelo menos 84.200 pessoas morreram de fome e doença, em resultado das transferências forçadas de populações para campos fortemente controlados pelos militares indonésios.
Peça da história recente de Timor-Leste, o relatório é agora também motivo de disputa política, com as organizações de direitos humanos e a hierarquia católica timorense a pressionarem no sentido da divulgação, enquanto os órgãos de soberania de Timor-Leste insistem no controlo da difusão.
De uma forma ou de outra, o relatório da CAVR vai contribuir para que todos os que nele estão representados, vítimas e algozes, revivam os acontecimentos espoletados há 30 anos.
Lusa/Fim”

25 Janeiro 2006

11º Mandamento: não cutucar a onça com vara curta!...

"Jacarta cancela encontro de Xanana Gusmão com homólogo indonésioJacarta cancelou a visita que o Presidente timorense, Xanana Gusmão, tinha prevista na sexta-feira para entregar ao homólogo, Susilo Bambang Yudhoyono, uma cópia de um relatório contendo as atrocidades cometidas em Timor-Leste durante a invasão e ocupação indonésia" (notícia da LUSA)Pois é: quem anda à chuva molha-se...O que é que, raio, "lhe" --- a ele... --- terá passado pela cabeça para querer ir a Jakarta entregar o relatório? Estava à espera que o Presidente indonésio sorrisse e agradecesse muito tanto incómodo e terminasse dizendo "desculpe qualquer coisinha!"?!...

Manatuto
(Esta não é a Ribanceira de Ainaro, mas a única foto que tinha que permite ver as escarpas em Timor...)


E já agora, para que a "prenda" fique completa...

... podia entregar, além do relatório, uma caixinha com ossos dos que morreram e uma saca das que eram usadas pelos indonésios para meter dentro timorenses e depois atirá-los vivos da ribanceira de Ainaro que ficou conhecida por "Jacarta" por os indonésios atirarem dela abaixo (cerca de 70 metros de altura!...) os timorenses e lhes gritarem: "agora voa para Jacarta!..."E não se esqueça de colocar um lacinho cor-de-rosa!...

(Manuel Leiria de Almeida)

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Nada melhor que terminar este trabalho com uma canção emblemática interpretada pelos Xutos e Pontapés: TIMOR
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José Gomes



sábado, 21 de janeiro de 2006

ORION - 19 Janeiro 1964

PARA QUEM NÃO SABE NEM SE LEMBROU DE "ESCAVAR" ESSE DADO DO TEXTO... UM DOS "CIENTISTAS LOUCOS" DO FOGUETÃO DE DOIS ANDARES, É O MEU PAI!!! O ZÉ GOMES!!! SIM, ESTE MESMO DO BLOGUE :o) O MESMO QUE ME VAI MATAR ASSIM QUE VIR ISTO, MAS EU NÃO ME IMPORTO PORQUE NÃO ACHO CORRECTO OCULTAR PARTE DA VERDADE... BIBA ESTE HOMEM CARAGÚ!!!
- zia

ORION
19 Janeiro 1964
O início de um sonho...


Esse dia 19 de Janeiro de 1964 foi um domingo soalheiro de inverno, com um céu muito azul e sem nuvens, vento quase nulo, um mar muito calmo e que verdejava lá em baixo, arrancando reflexos dourados às águas que vinham beijar as areias, nessa altura ainda limpas, deixando a flutuar uma suave e irregular franja de espuma...
— Faltam 60 minutos! – disse eu, tirando o relógio do pulso e colocando-o no peitoril da janela, ao lado do caderno que nos servia de “check in” e dando baixa neste.
Virei-me para o Daniel e disse-lhe:
— Verifica o ângulo de inclinação da rampa e a temperatura exterior do Orion.
— OK! Vou também verificar as ligações eléctricas e o sistema de ignição... com tanta gente à volta do foguete, não me espanta nada que lhe tenham dado um encontrão e que se tenha desligado qualquer coisa – sugeriu Jaime, pegando nos materiais necessários.
Enquanto estes se afastavam, com as batas brancas a flutuar ao sabor da leve brisa, subi a pequena ravina na base da qual se encontravam os restos do que fora um abrigo – que chamávamos casamata! - e que nos servia de base de lançamento.
Espraiei os olhos à minha volta: estava rodeado de um grande número de curiosos que procuravam o melhor local para assistirem ao lançamento do Orion. Lá no fundo, para os lados da Casa de Chá e do Farol da Boa Nova, uma multidão de pessoas apressadas aproximava-se do local do lançamento, desafiando os esforços dos nossos jovens “seguranças” que tentavam que essa “mole humana” se dirigisse para o perímetro de segurança que fixáramos previamente.
Olhei o corpo majestoso do foguetão, bem apontado para o céu e que cintilava beijado pelos raios de sol.
O Eduardo, um dos responsáveis pela segurança do Projecto, juntamente com outros jovens amigos, empurravam a custo o batalhão de fotógrafos, operadores de cinema e de TV para uma duna situada a cerca de 100 metros do local de lançamento. Mas mal estes viravam as costas, os jornalistas regressavam ao ponto inicial, ávidos dos melhores ângulos para as suas fotografias...
Desci a ravina e regressei à casamata.
Dei uma vista de olhos no “check in” à minha frente, piquei as tarefas já executadas e disse maquinalmente:
— 30 minutos para a Hora Zero!
O Jaime e o Daniel que acabavam de chegar olharam o relógio que, inexoravelmente, se aproximava das 13 horas.
O lançamento do Orion esteve inicialmente marcado para as 12 horas mas, devido ao grande número de visitantes, tivemos de adiá-lo uma hora.
— Hora zero menos vinte minutos!
O Gaspar acabava de entrar na casamata, furioso e a barafustar:
— Não entendo estes jornalistas! Voltaram a romper o cordão de segurança e por mais que faça não me obedecem! Já não sei mais que fazer!!
Olhei os jornalistas que, pouco a pouco, se aproximavam (e logo se instalavam!) cada vez mais da zona perigosa. Olhei o relógio e perdi a calma:
— Se esses gajos não recuam para as dunas, desta vez aborto mesmo o lançamento! Gaspar leva contigo o Eduardo e todo o pessoal disponível e façam recuar os jornalistas para as zonas de segurança. E digam-lhes mesmo ou eles recuam para as dunas ou abortamos o lançamento! Se há um azar e esta coisa explode, ficam que nem picado e quem se lixa depois somos nós!
Continuei com o “check in”, enquanto observava as negociações com os jornalistas. O Gaspar esbracejava e passeava de um lado para o outro. Não consegui ouvir o que dizia. De repente correu na nossa direcção e disse, com um amplo sorriso espalhado no rosto:
— Pronto, pronto, não se preocupem! Vão pôr toda a maquinaria fora das dunas e apontadas para o Orion e vão-se abrigar dentro do perímetro de segurança. Se houver qualquer “chatice“ assumem toda e qualquer responsabilidade. Vão-se as máquinas e ficam eles e ficamos nós sem as fotos do lançamento!
— Gostava de ver tudo isso passado a escrito! – resmungou o Jaime, encolhendo os ombros.
— Hora Zero menos dez minutos! — disse eu, olhando os jornalistas que se instalavam na zona negociada.
Um razoável perímetro de segurança estabeleceu-se, finalmente, junto do Orion.
De repente, um silêncio sepulcral invadiu toda a região. Parecia que toda aquela multidão, ululante até aí, tivesse deixado de respirar, ficando suspensa no que iria suceder no minuto seguinte.
Só o suave murmurar do mar, alguns metros lá em baixo, se associava à ligeira brisa que soprava...
— Hora zero menos...
— Porra, porra, pára-me essa contagem, Zé ! – gritou o Gaspar completamente fora de si! — Pára, pára tudo!!! A merda daquela avioneta está a aproximar-se. Rápido, os gajos da rádio, que lancem um aviso…
Algum dos repórteres ao meu lado – não me lembro bem quem – que faziam a cobertura em directo do lançamento (ou alguém no aeroporto que os estava a ouvir), comunicaram com a avioneta que acabou por dar meia volta, deixando livre o nosso espaço aéreo.
Depois desta ter saído do nosso campo visual e de se ter feito os acertos nas rotinas de segurança, recomecei a contagem decrescente, atrasada agora 15 minutos:
— Hora Zero menos quinze minutos!
Encostei-me ao beiral da janela (ao que restava dela!) e respirei fundo. Olhei à minha volta e vi o Jaime, bem ao meu lado, a verificar com uma das mãos as ligações do cabo de ignição e a roer as unhas da outra, com um ar muito compenetrado.
Daniel – apesar de todas as normas de segurança e dos avisos em contrário - acendeu mais um cigarro que juntou ao outro que ainda mantinha aceso nos lábios, ajustou a braçadeira na sua bata branca e fez-me um sinal com a mão dizendo, ao meu olhar reprovador, que tudo estava bem.
Olhei para cima, para o que fora o telhado da casamata e vi dezenas de caras que nos observavam, as câmaras de TV que nos seguiam, os “flashes” que aumentavam ainda mais a minha dor de cabeça...
De repente apercebi-me que até eu estava a roer as unhas! Olhei, automaticamente, para o Jaime que me sussurrou entre um sorriso breve:
— Também tu, meu filho bruto!!!
Encolhi os ombros e limitei-me a dizer:
— Hora Zero menos dois minutos!
Olhei o céu que se mantinha limpo, as várias equipas nos seus postos, os jornalistas atrás das dunas. Cocei a cabeça...
— Hora Zero menos um minuto!... – Foi então que senti como se me tivessem dado um soco no estômago e senti um calafrio a subir-me pela espinha. Estremeci e encostei-me, ainda mais, ao parapeito da janela...
— ... 30 segundos!...
— Tudo OK! – disse Jaime, enquanto pousava o dedo no interruptor da ignição.
Olhei para o meu Pai que espreitava lá de cima. Acenou-me; sorri-lhe e pensei que há dois dias me criticava e que não acreditava no nosso Projecto!
Continuei a contagem:
— ... 20 segundos!...
— Ignição preparada! – disse Jaime com voz calma e bem segura.
Daniel aproximou-se ainda mais da janela e assestou os binóculos no Orion.
Limitei-me a prosseguir a contagem:
— ... 10!...
O suor, em camarinhas, começou a escorrer-me pela cara e a camisa, já completamente encharcada, estava colada às costas. As minhas pernas pareciam feitas de manteiga…! Sentia-me a cair... Lá, muito ao longe, ouvia a minha voz a bater dentro da minha cabeça...
— ... 7... 6... 5...
— É agora ou nunca! – sussurrou-me Jaime.
— Faz figas, Zé! – disse-me Daniel, como que numa prece.
Os meus olhos, muito abertos, estavam fixos no foguetão:
— ... 4... 3... 2... 1 ... IGNIÇÃO!!!

Senti, mais do que vi, Jaime a apertar o botão! O berro com que concluí a contagem foi abafado pelo roncar dos gases expelidos pela tubeira do Orion, enquanto este se erguia majestosamente nos céus da Boa Nova, largando um elegante novelo de fumo branco que o acompanhou na subida, seguido por uma estrondosa salva de palmas da multidão ululante que assistia ao lançamento do primeiro foguetão português.


Mal gritei “IGNIÇÃO” saí da casamata a correr em direcção à rampa de lançamento ainda envolta em fumo. Lembro-me de ver o corpo cilíndrico do foguetão subir no céu. Não me lembro da separação do 2º andar.
Corri, depois, em direcção ao mar, com toda aquela multidão atrás de mim.
(…)


Em 19 de Janeiro de 1964 três jovens “cientistas” fizeram subir nos céus da Praia da Boa Nova, em Matosinhos, o primeiro foguetão português. Este “conto” retirado dos apontamentos feitos na altura, tenta relatar o acontecimento que atraiu milhares e milhares de pessoas para assistirem a uma experiência científica e como isso entusiasmou os meios de informação deste país.
No local do lançamento começou, mais tarde, a ser construída uma Refinaria de Petróleo... Ainda hoje existe!

José Gomes

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"Unchained Melody"
Pan Pipe Moods - Vol. 2
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domingo, 15 de janeiro de 2006

A COMPANHEIRA ESCONDIDA DA ESTRELA POLAR

Desta vez resolvi virar-me para o céu coisa que já não fazia há muitos, muitos anos. E começar por pegar num artigo do Observatóris Astronómico de Lisboa, sobre a companheira da Estrela Polar.
Espero que gostem.


"Observatório Astronómico de Lisboa
Centro de Astronomia e Astrofísica da Universidade de Lisboa


A COMPANHEIRA ESCONDIDA DA ESTRELA POLAR

Temos a tendência para pensar na estrela Polar (ou Polaris) como um ponto de luz solitário e fixo que guiava os marinheiros na antiguidade.
Existe, porém, muito mais que se diga à cerca da estrela Polar. Esta é na verdade um sistema estelar triplo.
Enquanto que um dos companheiros desta estrela pode ser facilmente observado com o auxílio de pequenos telescópios, o outro encontra-se tão próximo dela que nunca foi possível ser observado até agora.
Devido ao facto de a estrela observada se encontrar muito próxima da estrela Polar, foi necessário puxar ao limite as capacidades de resolução do telescópio espacial Hubble. Assim sendo, uma equipa de astrónomos obteve pela primeira vez uma imagem da companheira "invisível" da Polaris.
Chegou-se à conclusão que esta estrela vizinha encontra-se a menos de dois décimos de segundo-de-arco da estrela Polar. Embora este ângulo seja incrivelmente pequeno, equivalente ao diâmetro aparente de uma moeda de um euro localizada a 28 km de distância, como o sistema estelar encontra-se à distância de 430 anos-luz, a distância entre ambas as estrelas é de 3 mil milhões de quilómetros.
Para ver uma imagem que mostra pela primeira vez a estrela companheira da Polaris, consulte:
http://www.oal.ul.pt/astronovas/estrelas/polaris1.jpg


Podemos observar na imagem da esquerda, a constelação da Ursa Maior e Menor assim como a localização da estrela Polar. Podemos ver na imagem do canto superior direito, a estrela Polaris (Polaris A) e a sua companheira facilmente observável (Polaris B). Em baixo, temos a imagem da Polaris juntamente com a primeira imagem da sua "pequena" companheira (Polaris Ab).
A Polaris é uma estrela super gigante com um brilho duas mil vezes maior que o do Sol, enquanto que a sua companheira é uma estrela com um brilho não muito diferente do do Sol. Esta diferença de brilho entre as duas estrelas tornou a tarefa de observação ainda mais difícil.
Para ver uma ilustração artística do sistema triplo da Polaris, consulte:
http://www.oal.ul.pt/astronovas/estrelas/polaris2.jpg


A equipa espera aprender algo acerca das órbitas destas estrelas assim como das suas massas, observando o movimento da estrela companheira.Medir a massa de uma estrela é a uma das tarefas mais difíceis com que um astrónomo se pode deparar.
Os astrónomos querem determinar com precisão a massa da estrela Polar, visto que esta é a estrela Cefeida variável mais próxima da Terra. As variações de brilho das Cefeidas são utilizadas para medir as distâncias das galáxias e a taxa de expansão do universo, logo é essencial compreender a sua evolução e os processos físicos que as envolvem. O conhecimento da massa destas estrelas é o ingrediente mais importante nesta compreensão.
O estudo de estrelas binárias é o melhor método disponível para se medir a massa de uma estrela.
Com os melhores instrumentos em astronomia, tal como o Hubble, os cientistas podem vasculhar mais profundamente no espaço e estudar mais sistemas destes e em maior detalhe.
A equipa tenciona continuar a observar o sistema da Polaris por vários anos. Durante este tempo, o movimento da pequena companheira em torno da Polaris poderá ser detectado, visto que a companheira da estrela Polar orbita-a num período de 30 anos."
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(Agradeço a colaboração da prof. Maria Natália e do Observatório Astronómico de Lisboa;
Não deixem de visitar os sítios assinalados).

José Gomes
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"Perfídea"
The Shadows
CD: The Shadows Hits
2,13''
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quarta-feira, 11 de janeiro de 2006

Diário de um Cão

Kique, na noite de Natal, levando a sua prenda que estava colocada, como as demais, na base do pinheiro


Apresento-vos o Kique, o caniche que vive connosco e vai fazer agora 15 anos. Ele seria o meu entrevistado no “post” que estava a preparar para editar ainda hoje.

Kique, na noite de Natal, mostrando a sua prenda...

Sucede que acabo de receber este e-mail com a nota de “leiam e passem!” e resolvi, mantendo a foto do Kique, transformar o texto que se segue numa homenagem a todos os cães do planeta que não tiveram a sorte de terem encontrado a família que mereciam…


DIÁRIO DE UM CÃO


1ª Semana
Hoje completei uma semana de vida. Que alegria ter chegado a este mundo!

1 Mês
A minha mãe cuida muito bem de mim. É uma mãe exemplar!

2 Meses
Hoje separaram-me da minha mãe. Ela estava muito irrequieta e, com seu olhar, disse-me adeus. Espero que a minha nova "família humana" cuide tão bem de mim como ela o fez.

4 Meses
Cresci rápido, tudo me chama a atenção. Há várias crianças na casa e para mim são como "irmãozinhos". Somos muito brincalhões, eles puxam-me o rabo e eu mordo-os na brincadeira.

5 Meses
Hoje deram-me uma bronca. A minha dona ficou incomodada porque fiz xixi dentro de casa. Mas nunca me haviam ensinado onde deveria fazê-lo. Para mais, durmo no hall de entrada. Não deu para aguentar.

8 Meses
Sou um cão feliz! Tenho o calor de um lar; sinto-me tão seguro, tão protegido... Acho que a minha família humana me ama e me dá muitas coisas. O pátio é todinho para mim e, às vezes, excedo-me, cavando na terra como os meus antepassados, os lobos, quando escondiam a comida. Nunca me educam... Deve ser correcto tudo o que faço.

12 Meses
Hoje completo um ano. Sou um cão adulto. Os meus donos dizem que cresci mais do que eles esperavam. Que orgulho devem ter de mim.

13 Meses
Hoje acorrentaram-me e fico quase sem poder movimentar-me para onde tem um raio de sol ou quando quero alguma sombra. Dizem que vão-me observar e que sou um ingrato. Não compreendo nada do que está a acontecer.

15 Meses
Já nada é igual... moro na varanda. Sinto-me muito só. A minha família já não me quer! Às vezes esquecem-se que tenho fome e sede. Quando chove, não tenho tecto que me abrigue...

16 Meses
Hoje tiraram-me da varanda. Estou certo de que a minha família me perdoou. Eu fiquei tão contente que pulava com gosto. O meu rabo parecia um ventilador. Além disso, vão levar-me a passear! Dirigimo-nos para a estrada e, de repente, pararam o automóvel. Abriram a porta e eu desci feliz, pensando que passaríamos o nosso dia no campo. Não compreendo porque fecharam a porta e se foram.
"Ouçam, esperem!" – Ladrei!... Esqueceram-se de mim... Corri atrás do carro com todas as minhas forças. A minha angústia crescia ao perceber que quase perdia o fôlego. Eles não paravam. Haviam-me esquecido!

17 Meses
Procurei em vão achar o caminho de volta ao lar. Estou só e sinto-me perdido! No meu caminho existem pessoas de bom coração que me olham com tristeza e me dão algum alimento. Eu agradeço-lhes com o meu olhar, desde o fundo da minha alma. Eu gostaria que me adoptassem: seria leal como ninguém!
Mas apenas dizem: "pobre cãozinho, deve ter-se perdido."

18 Meses
Um dia destes, passei perto de uma escola e vi muitas crianças e jovens como os meus "irmãozinhos" aproximei-me de um grupo e um deles, rindo, atirou-me uma chuva de pedras "para ver quem tinha melhor pontaria". Uma dessas pedras feriu-me o olho e então, não vejo com ele.

19 Meses
Parece mentira. Quando estava mais bonito, tinham compaixão de mim. Já estou muito fraco; meu aspecto mudou. Perdi o meu olho e as pessoas mostram-me a vassoura quando pretendo deitar-me numa pequena sombra.

20 Meses
Quase não posso mexer-me! Hoje, ao tentar atravessar a rua por onde passam os carros, um acertou-me! Eu estava no lugar seguro chamado "calçada", mas nunca esquecerei o olhar de satisfação do condutor, que até se vangloriou por me acertar. Oxalá me tivesse matado! Mas só me deslocou as patas traseiras! A dor é terrível! As minhas patas traseiras não me obedecem e com dificuldade arrastei-me até à relva, na beira do caminho. Faz dez dias que estou debaixo do sol, da chuva, do frio, sem comer. Já não posso mexer-me! A dor é insuportável! Sinto-me muito mal, fiquei num lugar húmido e parece que até o meu pêlo está a cair. Algumas pessoas passam e nem me vêem; outras dizem: "não te chegues perto!" Já estou quase inconsciente; mas alguma força estranha me faz abrir os olhos. A doçura de sua voz fez-me reagir. "Pobre cãozinho, olha como te deixaram", dizia... com ela estava um senhor de avental branco. Começou a tocar-me e disse: "Sinto muito senhora, mas este cão já não tem remédio. É melhor que pare de sofrer".
A gentil senhora, com as lágrimas rolando pelo rosto, concordou. Como pude, mexi o rabo e olhei-a, agradecendo-lhe que me ajudasse a descansar. Somente senti a picada da injecção e dormi para sempre, pensando em porque tive que nascer se ninguém me queria.

*****

Amigo Kique,
esta não foi a entrevista que pensei fazer-te. Estás aqui deitado ao meu lado e quando olho para ti abanas o rabo.
Agora dormes mais do que brincas, mas não podemos esquecer a tua idade. Os teus ossos já não têm a dureza de quando eras mais novo. A tua paciência não é a mesma, nem estás sempre disposto a alinhar nas brincadeiras…
Mas ainda gostas das festas na tua cabeça, do esfregar o teu focinho nas nossas mãos, de pedir um petisco que não deveríamos dar.
Mas continuas pronto para ir buscar a tua “família humana” ou a pé ou sentado/deitado no carro, no teu lugar favorito.
Este e-mail mexeu muito comigo, sabes?
Não sei quem escreveu este “diário” mas sei que compreenderá o uso que lhe estou a dar…

Continuo a não compreender o Homem!
Mas sinto um aperto no coração quando vejo as barbaridades que ele comete não só com os animais mas também com esta Terra, que nos serve de fonte de alimentação, de tecto, de bem-estar e de última morada.


José Gomes
11 de Novembro 2006

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Século XVI… dos quatro cantos da Europa partiram gigantescos veleiros à conquista do Novo Mundo. A bordo seguiam homens ávidos de Sonhos, Aventuras e de Espaço… Quem nunca sonhou com os Mundos Subterrâneos? Com estes mares cheios de Lendas? Com a riqueza na esquina de qualquer caminho na Cordilheira dos Andes? Ou nunca sonhou ver o Sol soberano guiar os seus passos em pleno país dos Incas, até à riqueza e à história das Misteriosas Cidades d’Ouro?
Era assim que começava nos anos 80 (penso que por volta de 1984/5) uma das melhores séries de animação passada na TV portuguesa.
Lembro-me de Esteban, Zia, Tao, Pichu (o papagaio), além de outros personagens, que partiram de Espanha até ao Novo Mundo, para descobrir um tesouro deixado pelos habitantes do Império de Mú, um velho continente engolido pelas águas do oceano Pacífico há muitos séculos atrás.

Para os interessados, consultem o site http://www.citesdor.com/

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Da banda sonora musical escolhi:
Adieu Mon Père
1’30’’
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terça-feira, 3 de janeiro de 2006

Pára e Medita, Homem

Nascer do Sol em Dili - Timor - 6 horas da manhã
(Foto do Prof. Almeida Serra - Set. 05)

Mais uma vez foi-me enviada, via email, uma animação em “pps” que faz, de novo, um apelo à PAZ.
O dia 1 de Janeiro é o Dia Internacional da Paz. Neste dia fazem-se muitas acções, desenvolvem-se campanhas, correm rios de tinta num apelo à Humanidade para alcançar o seu bem mais precioso: a PAZ!.
Palavras…
Apenas palavras…
Apelos que são feitos ano a ano, sem qualquer resultado prático.

Pára e medita, ó Homem

Pára, Homem, pára um minuto…
Porque corres, porque foges, de quem foges?!!!
Pára, Homem, pára! …

(Na África, na Palestina, um pouco por toda a Terra…
Uma criança entre mil, de olhos tristes fitando a fria objectiva da câmara de vídeo, com as moscas a passear-lhe pelos lábios secos de fome e de sede, deixa escapar o ténue fio que ainda a prendia à vida…
No lado de cá do televisor, olhando sem nada ver, despeja-se o que sobrou do jantar num saco preto, rumo às lixeiras que alimentarão as moscas que irão afagar os olhos frios de outros meninos do lado de lá do televisor…).

E tu, Homem, fechas os olhos e avanças!
A escuridão é a berma da estrada que calcorreias indiferente, a noite o descanso da tua consciência, as trevas o ignorar de tudo aquilo que te rodeia! …
Abre os olhos, Homem, e vê…
Há LUZ!

(Israel! Iraque! Palestina! Nepal! Espanha! E tantos outros países...
Numa manhã de um dia qualquer, numa hora de ponta ou numa qualquer hora de qualquer dia, um autocarro, um carro, um homem, uma criança brilha tanto como o Sol!...
No meio de gritos de dor, pedaços de ferro e carne em estilhaços, bocados coloridos de roupas e sapatos salpicados de sangue são atirados, de súbito, num turbilhão que rapidamente esconde o céu azul…
No lado de cá do televisor, dando uma dentada na torrada que espicha manteiga nos pelos hirtos do bigode recém aparado, o Homem fita e fecha os olhos, enquanto a poeira assenta, do lado de lá do televisor, amortalhando dezenas de inocentes vitimadas pela explosão…).

E avanças, com um encolher de ombros!
De olhos fechados, sempre, tropeçando a cada segundo no negrume da tua indecisão, na escuridão do teu desalento!
Abre os olhos, Homem, e vê…
Há LUZ!
Mas mesmo assim teimas caminhar às escuras, de braços estendidos, esmagando com as tuas mãos sedentas de glória e de poder, a massa ululante que te rodeia, espezinhada nas teias do teu egoísmo.

(Já pouco falta para ser em qualquer parte do mundo!...
O assobio das balas embaladas pelo sibilar dos jactos que deixam cair a sua carga de morte, nos locais previamente escolhidos, com precisão matemática. O “flock” seco das bombas atingem os edifícios que se esboroam em migalhas de pedras e pó, arrastando nos destroços os rostos expressivos das crianças, o cansaço dos velhos, o desalento das mulheres que beijam o chão, rolando em amálgamas de sangue, carne e retalhos de ossos…
Do lado de cá do televisor, o Homem aconchega-se no sofá, pega na cerveja loira, gelada, saborosa... Um ritual digital muda-o para o beijo longo duma novela, ou o golo que o faz esquecer que o dinheiro já se foi no mês passado e que o filho – que já não recebe há mais de três meses – encontrou hoje a porta da fábrica fechada, rodeada de feras vestidas de negro, escudos transparentes, mãos crispadas em bastões de dor, viseiras de acrílico que mal escondem os olhos desumanamente cintilantes de raiva!)

Abre os olhos, Homem, e vê…
Há LUZ!
E continuas a avançar às escuras, calcando a massa ululante que exploras, sugando-lhe o sangue já seco, bebendo-lhe as lágrimas calejadas de pedra, masturbando-te no suor, na dor, na desilusão que provocas…

(Aldeia Global… Reunião dos senhores ditos “donos do mundo”…)
O Povo Anónimo mostra, desfilando ordeiramente, o seu descontentamento pelas medidas que estão a ser implementadas
De repente, nuvens de gás lacrimogéneo, seguidas de tiros, bastonadas, gritos de pavor, de dor e de raiva toldam o ar que mal se respira. A multidão dispersa, olhos tristes, gritando de pânico e de dor, acossados pela horda de negro e viseiras de plástico que desferem indiscriminadamente bastonadas e pontapés, irradiando a brutalidade em que foram gerados…
Do lado de cá do televisor, o Homem, insensível, sorri e goza o espectáculo, enquanto diz um piropo à namorada que o afaga ao seu lado.)

Abre os olhos, HOMEM, e vê…
Vê essa sombra esguia, repelente, informe…
Sentes um arrepio?! Estremeces?!!
Sim, HOMEM, é isso mesmo! Essa massa informe és tu! É um bocado de ti mesmo, és tu na tua essência, a tua parte integrante do TODO a que chamas HUMANIDADE.
Abre os olhos, Homem, e vê…
Há LUZ! Aproveita esse instante...
Olha à tua volta…
Sente, aspira, afaga…


Ano zero!!!


Trrr... estado crítico... tremores terra à escala mundial... trr... trrr... grau 10... trrr... destruídas... trr… cidades do globo... trr... não temos contacto com... trr... trrr... biiiimmmm…

(...)

Chove copiosamente.

O ribombar dos trovões, seguido dos zigzags luminosos dos relâmpagos, rasgam o céu toldado de nuvens.

As trevas dão lugar à luz!
Um Sol brilhante espreguiça-se no meio de farrapos escuros que se diluem no dia que nasce!
Um céu muito azul reflecte-se num mar verde onde, aqui e acolá, salta um peixe das águas calmas. Círculos concêntricos ondulam em todas as direcções dardejando as cores do arco íris.

No ar paira uma serena brisa perfumada...

Mais adiante, onde as ondas morrem em finos novelos de espuma branca, dois seres aquecem-se, ainda húmidos ou da chuva ou de um mergulho no mar.

Dois pares de olhos azuis fitam-se, num Mundo de mil promessas...


José Gomes
3 de Janeiro de 2006
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"Canto Libre"
Victor Jara
CD:
Homenaje A Victor Jara
Canciones Postumas/ Canto Libre
4,54"
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