sábado, 16 de dezembro de 2006

BOM NATAL...




Natal Branco
White Christmas
(música de Irving Berlin)

Lá, onde a neve cai
Sinos festejam a noite de Natal
Os pinheiros brancos de neve
São como torres de uma catedral

Lá, onde a neve cai sempre
Por sobre a lua tropical
O Natal é sempre oração
Oração de paz universal


DEJO A TODOS VÓS
(e também à vossa família)
UM FELIZ NATAL
E UM ANO NOVO
REPLETO DE PAZ E AMOR!

José Gomes
16 Dez. 06

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

Aqui planeta Terra...


E agora?!!! Que é que eu faço?



É um facto que o planeta Terra está em mau estado.
É um facto que o ser humano, predador por instinto e mameira de ser, adquiriu poderes tecnológicos que não consegue controlar (e nem está interessado, pois isso tirar-lhe-ia a sua força e a sua superioridade diante de uma Natureza, que mesmo doente, ainda o domina) e que faz correr o sério risco de se destruir não só a si, como espécie, mas também destruir o próprio planeta.

(
Reflexão à volta de um arrastão afundado nas águas sujas do Tejo...)

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

Grito de dor pelo Rio Leça...


O Rio Leça


O Rio Leça nasce no lugar de Redundo, freguesia de S. Salvador do Monte Córdova, em Santo Tirso, a uma altitude de 463 metros.


Lugar de Redundo

Próximo da nascente ficam as "Quedas de Fervença". Um lugar que eu conheci já com os meus 12/13 anos, um acidente natural e que na altura era de uma beleza deslumbrante, bucólica, com uma paisagem e uma mancha rara de florestação.



Quedas de Fervença


O Rio Leça passa pela Maia no seu curso inferior e pelo concelho de Matosinhos e vai desaguar no mar, no Porto Artificial de Leixões, depois de um percurso de 47 km.

Apesar de ser um rio pequeno, marcou todas estas terras, pela fertilidade agrícola que lhes proporcionou. Ao longo das suas margens estende-se um património rural, com predominância para os seus moinhos (construídos a maior parte deles durante os séculos XVIII e XIX), as suas pontes, e as suas noras.

As águas dos ribeiros e das chuvas escorrem para o Leça, levando consigo (ou despejando directamente neste) os resíduos de toda a actividade industrial desde a nascente até à foz, que polui as suas margens e as suas águas.

O Rio Leça desagua no Oceano Atlântico, em Matosinhos.

O seu estuário foi substituído pelo Porto de Leixões tendo-se sacrificado, em nome da civilização e do comércio, os dois braços do rio: o Rio Salgado, do lado de Matosinhos e o Rio Doce, do lado de Leça da Palmeira.


A sua praia fluvial foi um lugar bucólico de outros tempos, cantado por poetas:

“Ó Rio Doce! Túnel de água e arvoredo!”.
Por onde Anto vogava em vagão dum bote...
E, ao Sol do meio dia, os banhos em pelote
Quando íamos nadar, à Ponte de Tavares.“
[1]


Grito de dor...

Que saudades e que raiva sinto deste Rio que já foi Vida e que teve os seus sonhos; que teve peixes variados e gostosos e que apesar dos projectos elaborados, das promessas feitas já não sei bem há quantos anos, continua morto, transformado num esgoto...

Por isso sinto que é meu dever e minha obrigação dar voz ao Rio Leça...

Hoje — porque negro, sujo, triste e sem Vida!

Hoje e sempre — porque pede, assim como milhares de peixes que morreram envenenados nas suas águas, uma nova oportunidade de Vida!

Hoje e sempre — escrever sobre o Rio Leça é dar voz a um Rio de Vida que já deu pão a gerações inteiras!


Até quando?...

Já não há eleições que lhe valha, nem força política que tenha FORÇA suficiente para lhe dar o lugar que já foi seu, meio século atrás.

É preciso, é urgente passar-se do papel e criar as condições necessária para que sejam cumpridas as leis deste país, tornando-o de novo, num verdadeiro Rio de Vida, de margens verdes, de águas límpidas, verdadeira fonte de Saúde e de bem estar, senão para nós, para os nossos filhos!...


Imagens do Rio Leça, por trás da Escola E B 2,3 de Gueifães, Maia, colhidas em finais de Novembro de 2006.

Imagens sem comentários... dirigidas à consciência de quem de direito!










4 Dezembro 2006
José Gomes



[1] “Só” – António Nobre

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"Povo que lavas no rio"

Canta Dulce Pontes
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domingo, 26 de novembro de 2006

Pablo Neruda - Posso escrever...


Nesta tarde triste de inverno (perdão, Outono!!) perdi-me a ler Pablo Neruda...
E ficou-me no ouvido a voz do poeta...
E nos meu teclado os versos do poeta...

(Poema declamado por Juan José Torres)


Puedo escribir los versos más tristes esta noche.

Escribir, por ejemplo: "La noche está estrellada,
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos."

El viento de la noche gira en el cielo y canta.

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Yo la quise, y a veces ella también me quiso.

En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.
La besé tantas veces bajo el cielo infinito.

Ella me quiso, a veces yo también la quería.
¡Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos!

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido.

Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.
Y el verso cae al alma como al pasto el rocío.

¡Qué importa que mi amor no pudiera guardarla!
La noche está estrellada y ella no está conmigo.

Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.
Mi alma no se contenta con haberla perdido.

Como para acercarla mi mirada la busca.
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo.

La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos.

Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise...
Mi voz buscaba al viento para tocar su oído.

De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos.

Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido.

Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,
mi alma no se contenta con haberla perdido.

Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo
.

Pablo Neruda, poeta chileno (1904-1973)
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Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".

O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.

Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.

Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.

Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a e ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.

Já não a amo, é verdade, mas quanto a amei…
A minha voz que procurava o vento para lhe tocar o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A sua voz, o seu corpo claro. Os seus olhos infinitos.

Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se alegra por tê-la perdido.

Embora esta seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Pablo Neruda, poeta chileno (1904-1973)

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

O dia do Mar


Hoje, 16 de Novembro, celebra-se em Portugal o Dia Nacional do Mar.

Em 1994 entrou em vigor a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar (CNUDM) que estabeleceu um novo quadro jurídico para o direito do mar. Ao ratificar a CNUDM, a 14 de Outubro de 1997, Portugal assumiu responsabilidades numa das áreas marítimas mais extensas da Europa, e a maior da União Europeia, com uma dimensão 18 vezes superior ao território nacional.

Em 1998, o dia 16 de Novembro foi institucionalizado pela Resolução de Conselho de Ministros n.º 83/1998, de 10 de Julho, como o Dia Nacional do Mar e, desde então, tem vindo a ser evocado através de uma série de eventos e iniciativas.

Em 2006 as comemorações do Dia Nacional do Mar são subordinadas ao tema “O Mar e o desenvolvimento sustentável.

A comemoração deste dia engloba um vasto conjunto de iniciativas de âmbito nacional, regional e local, que incluem diversas actividades de natureza cultural, desportiva, cientifica, etc.

Estas actividades envolvem vários ministérios e outras entidades públicas e privadas ligadas ao mar.


Foz do Douro - Nov. 2006 (o mar como eu gosto...)


Solidarizando-me com esta iniciativa, dedico ao MAR dois poemas de duas grandes senhoras da Poesia portuguesa: - Florbela Espanca e Sophia Mello Breyner Anderson:



VOZES DO MAR

Quando o sol vai caindo sobre as águas
Num nervoso delírio d'oiro intenso,
Donde vem essa voz cheia de mágoas
Com que falas à terra, ó mar imenso?...

Tu falas de festins, e cavalgadas
De cavaleiros errantes ao luar?
Falas de caravelas encantadas
Que dormem em teu seio a soluçar?

Tens cantos d'epopeias? Tens anseios
D'amarguras? Tu tens também receios,
Ó mar cheio de esperança e majestade?

Donde vem essa voz, ó mar amigo?...
... Talvez a voz do Portugal antigo,
Chamando por Camões numa saudade!

Florbela Espanca
Poesia Completa



MAR

Mar, metade da minha alma é feita de maresia
Pois é pela mesma inquietação e nostalgia,
Que há no vasto clamor da maré cheia,
Que nunca nenhum bem me satisfez.
E é porque as tuas ondas desfeitas pela areia
Mais fortes se levantam outra vez,
Que após cada queda caminho para a vida,
Por uma nova ilusão entontecida.

E se vou dizendo aos astros o meu mal
É porque também tu revoltado e teatral
Fazes soar a tua dor pelas alturas.
E se antes de tudo odeio e fujo
O que é impuro, profano e sujo,
É só porque as tuas ondas são puras.

Sophia Mello Breyner

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Como tema musical escolhi " La mer" na voz inesquecível de Charles Trénet.

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José Gomes
16 Nov. 06

terça-feira, 14 de novembro de 2006

ATÉ QUE ENFIM!!!


Pois foi, meus amigos.
O computador resolveu pregar-me a partida... foi tudo ao ar!
Mas o que mais falta me faz são os "Meus Favoritos" pois lá residiam muitas direcções que ainda não tinha passado para os meus "Links"... e essas perdias todas!!!

Vou começar tudo a partir do zero.

É como se começasse uma vida nova...


O "nascer" da Lua nas trazeiras da minha casa (Gueifães, Nov. 06)


Ficamos com António Variações - "É p'ra amanhã"


Até à proxima postagem...

José Gomes

sexta-feira, 3 de novembro de 2006

20 Poemas de Amor

O mar na Foz do Douro, revolto como este tempo outonal...



Corpo de Mulher

Corpo de mulher, brancas colinas, coxas brancas,
assemelhas-te ao mundo na tua atitude de entrega.
O meu corpo selvagem de camponês te escava
e faz saltar o filho do mais fundo da terra.

Fui só como um túnel. De mim fugiam os pássaros,
e em mim a noite forçava a sua invasão poderosa.
Para sobreviver forjei-te como uma arma,
como uma flecha no meu arco, como uma pedra na minha funda.

Mas desce a hora da vingança, e eu amo-te.
Corpo de pele, de musgo, de leite ávido e firme.
Ah, os copos do peito! Ah os olhos de ausência!
Ah as rosas do púbis! Ah a tua voz lenta e triste!

Corpo de mulher minha, persistirei na tua graça.
Minha sede, minha ânsia sem limites, meu caminho indeciso!
Escuros regos onde a sede eterna continua,
e a fadiga continua, e a dor infinita.


Pablo Neruda

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

Reportagem da Júlia...

Vasco Gonçalves e as Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA





Passados seis meses do 25 de Abril de 1974, na vigência do III Governo Provisório chefiado por Vasco Gonçalves, é apresentado no Palácio Foz em Lisboa o Programa de Dinamização Cultural que iria ser coordenado pela Comissão Dinamizadora Central (CODICE), estrutura da 5ª Divisão do Estado-Maior General das Forças Armadas, em colaboração com a Direcção-Geral da Cultura e Espectáculos.

Para o então Primeiro-Ministro, um dos principais objectivos desta iniciativa
«era levar os militares, o MFA, às populações e apoiá-las no desenvolvimento, na tomadas de consciência dos problemas que elas tinham. [...] Pretendíamos, sobretudo, transformar as ideias de fundo dessas populações. Não pretendíamos transformar essas populações em socialistas ou em comunistas. Queríamos transformá-las em gente democrática, gente aberta a analisar as situações e arrancá-las de toda aquela carga de fascismo que durante 48 anos tinha pesado sobre elas».

A par destes objectivos, Vasco Gonçalves defendia, também, que as Campanhas tiveram um importante papel na democratização e dinamização das Forças Armadas, sublinhando o facto de os militares que as protagonizaram regressarem «mais politizados» devido ao contacto com as diferentes realidades que procuravam transformar. Nesse sentido, e numa perspectiva cara à Primeira República, Vasco Gonçalves evocou, numa sessão de esclarecimento realizada no Sabugo (Sintra) em Fevereiro de 1975, a figura do «militar-educador». Este deveria aprender com aqueles que procurava educar, com aqueles que procurava ensinar, com aqueles que procurava ajudar. Na sua óptica, a expressão que melhor caracterizava a Dinamização Cultural era o «trabalho quotidiano» porque as Campanhas constituíam uma aprendizagem mútua, um processo de conhecimento do país que a revolução surpreendeu.

Para Vasco Gonçalves o grande impulsionador das Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA fora Ramiro Correia, o «comandante-médico que até fazia versos [...] um idealista no bom sentido do termo». Na génese desta iniciativa, salientava a importância da Acção Psico-social utilizada na guerra colonial, assegurando que «muitos militares vieram influenciados com isso e consideravam-se em condições de desenvolver uma acção desse nível dentro do nosso proprio país, com os seus compatriotas».

[...] a relação entre os militares e a população adquiriu novos contornos com a transição democrática e, para Vasco Gonçalves, as Campanhas de Dinamização Cultural e Acção Cívica do MFA seriam uma ferramenta axial no fortalecimento desta relação, eternizada na expressão aliança Povo-MFA a qual condensava os ideais da facção progressista do MFA «que eram sobretudo os da libertação da nossa pátria, do nosso povo, da realização das aspirações básicas». Utilizava o termo «missão» para aludir às Campanhas, afirmando serem estas «um trabalho gigantesco para as nossas possibilidades», referindo-se à insuficiência de meios técnicos e humanos que dispuseram para a concretização desta proposta da agenda revolucionária. «Foi uma das nossas debilidades fundamentais» - afirmava.

Num dos muitos cartazes que desenhou [...] João Abel Manta pareceu representar a «esperança e a confiança» que Vasco Gonçalves depositava nesta iniciativa ao atribuir-lhe uma centralidade no célebre cartaz MFA-Vasco-Povo. Povo-Vasco-MFA (1975), onde surge ladeado por duas figuras híbridas meio soldado, meio povo, reforçadas pela frase «Força, Força Companheiro Vasco / Nós Seremos a Muralha de Aço».

E foi da seguinte forma que Vasco Gonçalves se referiu a este cartaz: «O cartaz é muito terno, eu era o companheiro Vasco, mas para certo sector da população, não para o país».


(Texto de Sónia Vespeira de Almeida, com base em entrevista a Vasco Gonçalves (2002) no âmbito da sua tese de doutoramento em Antropologia.
Inserido no folheto comemorativo da homenagem a Vasco Gonçalves, realizada na Aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, em 21 de Outubro de 2006).

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Foi esta a reportagem que a Júlia inseriu no seu blog e, uma vez que eu tinha alertado os meus amigos para a homenagem a Vasco Gonçalves, pensei que deveria publicar esta reportagem nos Chuviscos.

Para quem quiser deliciar-se com o original visitem, por favor,
http://ascausasdajulia.blogspot.com/ .

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Como tema musical escolhi "Força, Força, Companheiro Vasco" interpretado por Carlos Alberto Moniz e Maria do Amparo.

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José Gomes
26 Out. 06


sexta-feira, 20 de outubro de 2006

ATÉ BREVE...

Por motivos óbvios, vou ter que interromper por uns tempos os blogs em que tenho participado.

Peço desculpa.

Um abraço e um beijo para todos.


No entanto, não queria despedir-me sem vos sugerir uma visita ao blog abaixo:


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Meus amigos,

Acabo de actualizar o meu blog:

http://ascausasdajulia.blogspot.com/

Um abraço

Julia Coutinho
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Até um dia destes ou até sempre.

Um abraço,

José Gomes

terça-feira, 10 de outubro de 2006

A Pablo Neruda

1904 - 1973


Quem morre?



Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajectos,
quem não muda de marca, não arrisca vestir uma cor nova
e não fala com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o escuro ao invés do claro
e os pingos nos “ís” a um redemoinho de emoções,
exactamente as que resgatam o brilho nos olhos,
o sorriso nos lábios e coração aos tropeços.
Morre lentamente quem não vira a mesa
quando está infeliz no trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto, para ir atrás de um sonho.
Morre lentamente quem não se permite,
pelo menos uma vez na vida, ouvir conselhos sensatos.
Morre lentamente quem não viaja, não lê,
quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da sua má sorte,
ou da chuva incessante.
Morre lentamente quem destrói seu amor próprio,
quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem abandona um projecto antes de iniciá-lo,
nunca pergunta sobre um assunto que desconhece
e nem responde quando lhe perguntam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em suaves porções,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior
que o simples ar que respiramos.
Somente com infinita paciência conseguiremos a verdadeira felicidade!

Pablo Neruda

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A música é para ouvir baixinho e compenetrarmo-nos no poema de Pablo Neruda...
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segunda-feira, 2 de outubro de 2006

Feliz Aniversário, Sónia....

Papá, já viste quão belas são as estrelas que brilham no céu?


Há uma boa meia dúzia de anos que não tinhamos o prazer de passar juntos o teu dia de aniversário e muito menos irmos almoçar os três (porque não deixaram entrar o Kique!!!...) ao teu restaurante chinês favorito, dar o nosso passeio pela Foz, ouvir os teus projectos em termos de Futuro.

Já não nos lembravamos do teu sorriso, do teu rir franco e aberto, da tua alegria... e como foi tão bom passar aquela terça feira juntos!!!

Quero agradecer o teu pedido para almoçar e lanchar ontem (dominngo) - em nossa casa - com os mais velhos (o avô adorou, sabes isso muito bem!) e alguns dos nossos amigos.




O bolo foi uma surpresa que te encantou... mas cortares o Rei Leão foi um pouco difícil para ti, pois estes são os dois personagens da peça que mais gostas.

Foi um dia agradável em que nos fizeste ficar felizes.

Parabéns do Avô, da Céu, da D. Margarida, da Jó (que não pôde estar presente, como gostaria), da D. Rosete, do Kique, da Mamã e do Papá.


Filha, já reparaste que os teus olhos são um pedaço do brilho,
da força e da beleza dos milhões de estrelas que pulsam em ti?

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Escolhi "Busa", uma canção do filme "The Lion King" - espero que gostes...
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José Gomes
2 Outubro 06

sábado, 23 de setembro de 2006

O Outono na alma

" Outono" (foto de Milú Coelho Gomes)


Hoje, sábado, começa o Outono…



O Outono na alma

Chegou o Outono. Há muito que nas folhas mortas dos carvalhos se fazia anunciar.
Chegou agora, acabado o Estio, a toda a paisagem.
A natureza mostra-se amarelecida e doente, produzindo um cenário clorótico, neutralizado e triste que nos deprime e nos amarelece também um pouco por dentro.


É inevitável esta sensação. Foi sempre assim!
Cumpre-se um ciclo biológico e não há nada a fazer. Faz parte da nossa natureza. É normal.


O que não é normal, e contraria a própria natureza, é este quase crónico estado de alma outoniça em que há muito mergulhamos: um estado de alma anémico, sem força, sem vontade e sem revolta que não tem nada a ver com a cíclica sensação outonal.

Não! Este estado de alma é um fenómeno civilizacional. Chamemos-lhe civilizacional ou chamemos-lhe neoliberalismo, capitalismo… pouco importa o que se lhe queira chamar. O processo tem sido contínuo! Uma bem ministrada cultura de resignação amareleceu-nos a mente e faz com que nos comprazemos, silenciados, neste inanismo mental.

Aceitamos tudo desde que não nos exijam nada.

Cortam a reforma... — não dizemos nada!
Fecham as empresas... — calamo-nos!
Reduzem os cuidados de saúde... — não dizemos nada!

Pobres de nós! Sem coragem nem lucidez crítica aceitamos tudo.

Habituaram-nos a dizer que sim — e nós dizemos!
Revemo-nos na "escol" política abstendo-nos de agir e de pensar. E é de nós mesmos que nos abstemos…

Decaímos. Amarelecemos por dentro, como se vivêssemos num Outono continuado. Só que o Outono nem é continuado, nem é abdicação! É húmus donde vai surgir vida, flor e fruto.

Nós, ao contrário, parece que escolhemos a abdicação como modo de vida para viver... — até quando?

José Silva

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Este texto foi-me enviado por este amigo e tenho muito prazer em transcrevê-lo no blogue, apesar da sua expressão: “Ó pá isto serve-te para alguma coisa?

Zé Silva, penso que não só serve para mim mas também para muita mais gente que, como tu, vive e sente os problemas que nos rodeiam.

Obrigado, Zé Silva.

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Como acompanhamento musical escolhi um cantor que tu e eu admiramos muito: ZECA AFONSO.

A sua "Balada de Outono" dá o tom a este teu artigo.

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segunda-feira, 18 de setembro de 2006

PLANETA OU ESTRELA FALHADA?

Por dificuldades várias aparecidas há dias neste blog não consigo inserir fotografias.
Desta vez vou recorrer a um email enviado pelo Observatório Astronómico de Lisboa (Centro de Astronomia e Astrofísica) que achei muito interessante.

Os links levá-los-ão às fotos que não consigo inserir:



PLANETA OU ESTRELA FALHADA?

Com o auxílio do Telescópio Espacial Hubble foi obtida uma imagem de um dos objectos mais pequenos alguma vez visto em torno de uma estrela normal para além do Sol.
Com cerca de 12 vezes a massa de Júpiter, este objecto é suficientemente pequeno para ser um planeta mas também suficientemente grande para ser uma anã castanha, uma estrela falhada.

A descoberta deste pequeno objecto, cuja estrela anfitriã é uma anã vermelha designada por CHRX 73, veio relembrar uma questão sobre a qual não existe consenso entre os astrónomos: o que define um planeta em torno de uma estrela que não o Sol - embora tenha sido criada recentemente uma definição de planeta para os objectos no Sistema Solar.

O responsável pela equipa internacional de astrónomos que descobriu o pequeno objecto, designado de CHRX 73 B, acredita que este seja uma anã castanha.

Com o auxílio de novos telescópios, são descobertos cada vez maior número de objectos de pequenas dimensões, com massas planetárias, o que leva os astrónomos a perguntarem se os objectos de massa planetária em torno de outra estrela serão sempre planetas.

Para ver uma imagem no infravermelho próximo da estrela CHRX 73 e do objecto
CHRX 73 B, consulte:


http://www.oal.ul.pt/astronovas/planetas/quesera1.jpg

Alguns astrónomos sugerem que a massa de um objecto extra-solar determina a sua natureza - se é um planeta ou não. No entanto, alguns astrónomos acreditam que um objecto só é um planeta se tiver sido formado a partir do disco de poeira e gás que geralmente se encontra em torno de uma estrela recém-nascida. Este é o caso dos planetas do Sistema Solar, formados há 4,6 mil milhões de anos.

Em contraste com os planetas, as anãs castanhas formam-se como as estrelas, a partir do colapso gravitacional de grandes nuvens de hidrogénio. Ao contrário das estrelas, as anãs castanhas não possuem massa suficiente para dar início às reacções de fusão do hidrogénio nos seus núcleos.

O CHXR 73 B encontra-se a 31.2 mil milhões de quilómetros da sua estrela anfitriã, que possui aproximadamente dois milhões de anos - muito nova comparada com o Sol, que tem 4,6 mil milhões de anos. O objecto encontra-se tão distante da estrela que é pouco provável que se tenha formado num disco em torno desta. Para estrelas de pouca massa, como é o caso da CHXR 73, os discos possuem entre 8 e 16 mil milhões de quilómetros de diâmetro. À distância a que o objecto se encontra da estrela, não existe material suficiente para formar um planeta. Os modelos teóricos mostram que planetas gigantes como Júpiter são formados a distâncias não maiores que 5 mil milhões de quilómetros das suas estrelas.

Para ver uma ilustração artística do objecto e da sua estrela anfitriã consulte:


http://www.oal.ul.pt/astronovas/planetas/quesera2.jpg

Desde que as anãs castanhas foram descobertas, há cerca de uma década atrás, que os astrónomos têm vindo a descobrir centenas destes objectos na nossa galáxia. A maioria destes não se encontra em órbita de uma estrela, mas sim a flutuar pelo espaço. O estudo de objectos sub-estelares em órbita de outras estrelas, permite-nos determinar a idade e massa destes objectos.

Estes estudos ajudam-nos a melhorar a nossa compreensão acerca da formação e estrutura interna das anãs castanhas e dos planetas.

Uma das formas de se esclarecer a dúvida que permanece acerca da natureza do objecto descoberto, seria observar um disco de poeira em torno do mesmo. Tal como as estrelas, as anãs castanhas possuem discos em torno delas, com um diâmetro máximo de 4 mil milhões de quilómetros.

O Telescópio Espacial Spitzer detectou discos em torno de várias anãs castanhas a vaguear pelo espaço, mas o CHRX 73 B encontra-se demasiado próximo da sua estrela para o Spitzer conseguir detectar algum disco. A esperança para se confirmar se realmente existe um disco em torno do CHRX 73 B reside no Telescópio Espacial James Webb que combinará a sensibilidade no infravermelho do Spitzer com a visão aguçada do Hubble.

Informação do:

Observatório Astronómico de Lisboa
Centro de Astronomia e Astrofísica da Universidade de Lisboa



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Este som dos "Shadows" faz-me lembrar tempos que já se foram!...
"Apache"------- "The Shadows"
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José Gomes

domingo, 10 de setembro de 2006

Chile, 11 Setembro de 1973

Salvador Allende - 11 Set. 1973
Pablo Neruda - 23 Set. 1973
Victor Jara - 17 Set. 1973

No dia 11 de Setembro de 1973 um golpe de estado sangrento, comandado pelo general Augusto Pinochet, derrubou o Presidente da República, Salvador Allende, democraticamente eleito três anos antes.

Durante os 17 anos que durou a ditadura de Pinochet foram brutalmente assassinadas 3.197 pessoas (este número inclui 49 crianças de 2 a 16 anos e 126 mulheres, algumas delas grávidas).


Um olhar para o Futuro... que não chegou a acontecer...!


“Pagarei com a minha vida a lealdade do povo"

Última mensagem difundida ao povo chileno, por Salvador Allende, através da Rádio Magallanes, de Santiago, na manhã de 11 de Setembro de 1973:


- 9:10


"Certamente, esta será a ultima oportunidade em que poderei dirigir-me a vocês. A Força Aérea bombardeou as antenas da Rádio Magallanes.

As minhas palavras não têm amargura, mas sim, decepção. Que sejam elas um castigo moral para quem traiu o seu juramento (…)

Colocado num transe histórico, pagarei com a minha vida a lealdade do povo. E digo-lhes que tenham a certeza de que a semente que entregamos à consciência digna de milhares de chilenos, não poderá ser ceifada em definitivo.

Eles têm a força, poderão subjugar-nos. Porém, os processos sociais não se detêm nem com crimes nem com a força. A história é nossa e é feita pelo povo.

Trabalhadores da minha Pátria: quero agradecer-lhes a lealdade que sempre tiveram, a confiança que depositaram num homem que foi apenas intérprete de grandes anseios de justiça, que empenhou a sua palavra no respeito à Constituição e à Lei, e assim o fez.

Neste momento definitivo, o último em que posso dirigir-me a vocês, quero que aproveitem a lição: o capital estrangeiro, o imperialismo, unidos à reacção criaram o clima para que as Forças Armadas rompessem a sua tradição, que lhes fora ensinada pelo general Schneider e reafirmada pelo comandante Araya, vítima do mesmo sector social que hoje estará à espera, com mão alheia, de reconquistar o poder para continuar a defender as suas mordomias e os seus privilégios.

Dirijo-me a vocês, sobretudo à mulher modesta da nossa terra, à camponesa que acreditou em nós, à mãe que soube da nossa preocupação pelas crianças. Dirijo-me aos profissionais patriotas que continuaram a trabalhar contra o levantamento popular estimulado pelas associações de profissionais, associações classicistas que também defenderam as vantagens de uma sociedade capitalista.

Dirijo-me à juventude, àqueles que cantaram e doaram a sua alegria e o seu espírito de luta. Dirijo-me ao homem do Chile, ao operário, ao camponês, ao intelectual, àqueles que serão perseguidos, pois no nosso País o fascismo já esteve presente várias vezes: nos atentados terroristas, explodindo pontes, cortando linhas ferroviárias, destruindo oleodutos e gasodutos, perante o silêncio daqueles que tinham a obrigação de tomar providências.

Eles estavam comprometidos. A história irá julgá-los


Certamente, a Rádio Magallanes será calada e o metal tranquilo de minha voz já não chegará até vocês. Mas isso não é importante. Vocês continuarão a ouvi-la. Ela estará sempre junto de vós. Pelo menos a minha lembrança será a de um homem digno que foi leal com a Pátria.

O povo deve defender-se, mas não se sacrificar. O povo não pode deixar-se arrasar nem se deixar balear, mas tampouco pode humilhar-se.

Trabalhadores de minha Pátria, tenho fé no Chile e no seu destino. Outros homens hão-de superar este momento cinza e amargo em que a tradição pretende impor-se. Prossigam vocês, sabendo que, bem antes que o previsto, de novo se abrirão as grandes alamedas por onde passará o homem livre, para construir uma sociedade melhor.

Viva o Chile! Viva o Povo! Viva os Trabalhadores!

Estas são minhas últimas palavras e tenho a certeza de que o meu sacrifício não será em vão. Tenho a certeza de que, pelo menos, será uma lição moral que castigará a deslealdade, a covardia e a traição."

Salvador Allende
Santiago do Chile,
Manhã do dia 11 de Setembro de 1973.
Pouco minutos passavam das 9 horas...






Morrem os heróis... o FUTURO, esse, nunca poderá morrer!

Esta é a minha homenagem a Salvador Allende, aos mártires dos anos de terror e a todo o Povo do Chile.


11 Setembro 2006
José Gomes


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Victor Jara foi barbaramente torturado e mais tarde, depois de lhe terem decepado as mãos, foi cravado de balas...

Em sua homenagem deixo-vos com uma bela canção interprtada por Victor Jara em que fala na Indochina e no Vietname (hoje poderíamos substituir por Afeganistão, Iraque, Líbano, Palestina...!) e o direito de viver em Paz...

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domingo, 27 de agosto de 2006

Pensamentos dispersos...

" Gilreu" - Penedo enfrente à Praia de Gondarém, na Foz do Douro



Nesta tarde quente de verão, salpicado pelo fresco vento que soprava do Norte, sentado no que resta do areal do que um dia foi a minha praia de Gondarém, dei por mim a fitar, melancolicamente, aquela massa de rocha que me transportou à minha juventude, aos grupos de praia, aos amigos de Agosto/Setembro, às competições a nado desde a praia até ao rochedo, sempre acompanhado pelo banheiro Joaquim, remando o seu barco para ir recolhendo aqueles que se ficavam pelo caminho...


Lembrei-me de Cesário Verde, poeta do século XIX e, apesar de o poema que me veio à cabeça nada ter a ver com o mar, sussurro-o em voz baixa:

De Tarde

Naquele piquenique de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o Sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas!

(Cesário Verde - 1875)





A maré fustigava o rochedo, o vento assobiava aos meus ouvidos, enquanto flocos de espuma voavam pelo ar.
Sorri, sentindo-me ser transportado aos tempos em que os risos do nosso grupo era a alegria daquela praia, a amizade que se cimentava até ao fim do mês era uma promessa de um mês fantástico...

Mas a separação do grupo (que se foi esboroando em poucos anos!) estava bem patente naquela canção dos Les Chats Sauvages, com que nos despedíamo-nos até...

E a letra e a melodia, voltou aos meus ouvidos, acompanhada pelo zunir do vento e o bater das ondas no Gilreu, fazendo-me marejarar os olhos:



Quand vient la fin de l'été sur la plage
Il faut alors se quitter peut-être pour toujours
Oublier cette plage et nos baisers
Quand vient la fin de l'été sur la plage
L'amour va se terminer comme il a commencé
Doucement sur la plage par un baiser


Le soleil est plus pale mais nos deux corps sont bronzés
Crois-tu qu'après un long hiver notre amour aura changé ?
Quand vient la fin de l'été sur la plage
Il faut alors se quitter les vacances ont duré
Lorsque vient septembre et nos baisers


Quand vient la fin de l'été sur la plage
Il faut alors se quitter peut-être pour toujours
Oublier cette plage et nos baisers, et nos baisers
Et nos baisers !


Levantei-me.
Sorri ao Gilreu, às ondas, às areias, às recordações...

"Quand vient la fin de l'été sur la plage"

Regressei ao meu "rame-rame"!

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José Gomes
26 Agosto 06
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Charles Aznavour - "La Boheme"

domingo, 20 de agosto de 2006

Que fazer, a partir daqui?




Hoje deve ser um dia "não" nos meus artigos.
Por muitas razões:


- No dia 19 de Agosto do ano passado partiu José Machado, o Pantanero, um Amigo que tinha o condão de fazer amigos...

- No dia 19 deste ano (ONTEM) - E porque tudo tem um fim... - uma Amiga fechou definitivamente o seu blogue que nos acompanhou durante anos;

- E porque já não sei o que dizer ou o que fazer, deixo-vos com um poema de António Nobre, normalmente teatrializado por mim (Coveiro) e pela JÓ (Anto):


MALES DE ANTO

(Meses depois, num cemitério)



ANTO:

Olá, bom velho! É aqui o Hotel da Cova,
Tens algum quarto ainda para alugar?
Simples que seja, basta-me uma alcova…
(Como eu estou molhado! É do luar…)

Vamos! depressa! Vem, faze-me a cama,
Que eu tenho sono, quero-me deitar!
Ó velha Morte, minha outra ama!
Para eu dormir, vem dar-me de mamar…


O Coveiro:

Os quartos, meu Senhor, estão tomados,
Mas se quiser na vala (que é de graça…)
Dormem, ali, somente os desgraçados,
Tem bom dormir… bom sítio… ninguém passa…

Ainda lá, ontem, hospedei um moço
E não se queixa… E há-de poupá-lo a traça,
Porque esses hóspedes só trazem osso,
E a carne em si, valha a verdade, é escassa.


ANTO:

Escassa, sim! Mas tenho ossada ainda,
Enquanto que a Alma, ai de mim! Nada tem…
Guia-me ao quarto… (a Lua vai tão linda!)
Dize-me: quantos anos me dás? Cem?

Oh cem! E os que eu não mostro e o peito guarda…
Os teus mortinhos, sim! Dormem tão bem:
«Dormi, dormi! Que a vossa Mãe não tarda,
Foi lavar à Fontinha de Belém…»


O Coveiro:

Aqui. Fica melhor do que em 1.ª:
Colchão assim não acha em parte alguma!
Os outros são de chumbo, de madeira,
Mas este, veja bem, é sumaúma…

«Colchão de raízes e de folhas, liso,
Lençóis de terra brandos como espuma,
Dá-los-ei ao rol, no Dia do Juízo…»
Pronto. Quer mais alguma coisa? Fuma?

ANTO:

Mais nada. Boas noites. Fecha a porta.
(Que linda noite! Os cravos vão abrir…
Faz tanto frio!) Apaga a luz! (Que importa?)
A roupa chega para me cobrir…

Toma lá para ti, guarda. E ouve: na hora
Final, quando a Trombeta além se ouvir,
Tu não me venhas acordar, embora
Chamem… Ah deixa-me dormir, dormir!


(António Nobre)

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Para essa Amiga que ontem nos deixou mais sós nesta encruzilhada da blogesfera, dedico:
Lira na voz de Adriano Correia de Oliveira
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José Gomes
20 Agosto 06


terça-feira, 15 de agosto de 2006

Amizade? Ai que saudades...



"Foz do Douro, ao anoitecer" - José Gomes - Agosto 06



A Amizade...

não é receber, é dar;
não é magoar, é incentivar;
não é descrer, é crer;
não é criticar, é apoiar;
não é ofender, é compreender;
não é humilhar, é defender;
não é julgar, é perdoar.


Amigo é aquele pedacinho de chão quando precisamos pisar firme e um pedacinho do céu quando precisamos sonhar.


Amigo é a luz que não deixa a vida escurecer.


O amigo não é aquele que nos faz algum bem , mas aquele que está sempre e em toda a parte ao nosso lado.


O verdadeiro amigo não é aquele que só apoia sem discordar mas sim aquele que aconselha mas que nem sempre concorda.


Amigo não é aquele que chora na despedida mas sim aquele que nunca diz adeus.


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Para complementar um dia em que a inspiração não ajuda, deixo-vos com "Samba da benção", numa homenagem a Vinícius de Morais, acompanhado por Toquinho.

Saravah!

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José Gomes
15 Agosto 06


quinta-feira, 10 de agosto de 2006

Agora compreendo a guerra toda à nossa volta


Não quero acreditar!

Mas só assim compreendo porque nos estamos a matar uns aos outros... como se tudo não passasse de um mero filme de acção!

"Aprende a respeitar os teus irmãos de outros reinos, os animais e vegetais, porque são seres vivos e pertencem à mesma Criação".

(Sabedoria Ameríndia)

quarta-feira, 2 de agosto de 2006

Nostalgia numa tarde de Verão...

Quando a última árvore tiver caído...
Quando o último rio tiver secado...
Quando o último peixe for pescado...
Vocês vão entender que o dinheiro não se come!

(Greenpeace)
Apenas junto mais uma linha a este grito de alerta:

Estamos diante de um momento crítico na história da Terra, numa época em que a Humanidade deverá escolher o seu Futuro.

Mais nada!...

José Gomes
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Fundo musical:
"A Apocalipse dos Animais"
Vangelis
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terça-feira, 25 de julho de 2006

Manhã de terça feira...

Pois!
Hoje lembrei-me deste patinho que fez as delícias da minha juventude... será que algum dia eu tive a sorte de ter sido jovem?
Estou sentado ao computador, a olhar para as teclas que há muito nada me dizem.
Tento escrever ... mas nada sai!
Espelhado pelas teclas apenas vejo fome, fumo, destruição, dor, gritos e morte nesta aldeia global.
E gritos, muitos gritos!...
Apetece-me agarrar numa mochila e ir para um sítio onde não haja nada... nem ar, nem céu, nem luz, nem fogo...
Um local onde haja só - e apenas - silêncio.
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Em ocasiões como estas nada melhor que recordar
"Hasta Siempre"
Victor Jara

E dedicar esta canção a todos que partiram sem verem concretizado o seu sonho de um mundo mais justo, mais fraterno, mais igualitário.
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terça-feira, 18 de julho de 2006

Eu tenho um sonho...

Tem sido um dia para pensar...

Este calor infernal (apesar das pinguinhas que caem e secam logo!) não convida a sair de casa. E sair para ir onde: para a praia? - A água deve estar tão fria que não compensa o sacrifício de pegar no carro e ir arrostar as queimaduras do Sol e os malefícios dos ultravioletas e infravermelhos.

Sentei-me ao computador, sem qualquer vontade de escrever... e ligada a televisão, estou a ouvir, nas minhas costas mais uma frente de guerra que foi aberta no médio oriente!!!

Neste mundo globalizado o panorama continua a ser o mesmo: a paz é substituída pela guerra; a amizade é substituída pelo ódio; o poder do mais forte espezinha o mais fraco; ao diálogo responde-se com as ameaças…

Já repararam que o esforço de guerra só causa destruição, morte e mutilações de toda a espécie?…O dinheiro gasto neste esforço poderia ser aplicado noutros esforços mais humanitários: construir mais Hospitais, mais Escolas, mais e melhor ambiente

Combater – isso sim! – a fome e as várias formas de doença que há por todo o mundo.


Aos senhores da guerra, aos que se dizem defensores da Vida, deixo esta mensagem de Luther King, na esperança que ela toque o que ainda resta dos seus corações e das suas consciências.


Martin Luther King a discursar na escadaria do «Monumento a Lincoln»



Martin Luther King
(1929-1968)

Foi um líder negro pacifista e pastor da Igreja Baptista norte-americana.

Nasceu em Atlanta, na Georgia e formou-se em Teologia na Universidade de Boston.

Em 1963, M. L. King e outros líderes negros organizaram a “Marcha para Washington”, que foi um protesto que contou com a participação de mais de 200.000 pessoas que se manifestaram em prol dos direitos civis de todos os cidadãos dos Estados Unidos.

Nesta marcha fez seu mais famoso discurso “Eu Tenho Um Sonho”. O discurso que expressava o seu sonho – e o sonho de todos os negros e de outras minorias nos Estados Unidos – de viver numa sociedade igualitária e justa.

Em 1965 liderou um boicote contra a discriminação racial que durou 381 dias.

A sua filosofia de não-violência era baseada na vida de Ghandi e nos princípios cristãos.

A maior parte dos direitos reivindicados foram incluídos na Lei Geral dos Estados Unidos com a aprovação da Lei de Direitos Civis (1964) e da Lei de Direitos Eleitorais (1965).

Em 1964 ganhou o Prémio Nobel da Paz.

Em 4 de Abril 1968 foi assassinado em Memphis, Tennessee, Estados Unidos da América, por um branco.


O seu discurso mais famoso "Eu Tenho Um Sonho (I Have A Dream)" ainda hoje é lembrado:


Eu tenho um sonho que um dia esta nação se erguerá e viverá o verdadeiro significado de seus princípios: - Nós acreditamos que esta verdade seja evidente, que todos os homens foram criados iguais.

(...)

Eu tenho um sonho que um dia os meus quatro filhos viverão numa nação onde não serão julgadas pela cor de sua pele, mas sim pelo conteúdo de seu carácter.



“I have a dream that one day this nation will rise up and live out the true meaning of its creed: - We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal.

(…)

I have a dream that my four little children will one day live in a nation where they will not be judged by the color of their skin but by the content of their character.”


José Gomes
18 Julho 2006

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Para completar este texto nada melhor que ouvir
John Lennon em "Imagine"
E sonhar com esta utopia...
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domingo, 16 de julho de 2006

Entrada dos "Chuviscos" em manutenção


Devido a problemas surgidos neste blog e que ainda não encontrei solução, a partir desta data ficará em manutenção.

Problemas:

  • Desapareceu o título do artigo, logo a seguir à data de postagem (e esta está quase ilegível!);
  • Desapareceu o calendário;
  • Não consigo arranjar o cabeçalho do blog;
  • Desapareceu o "About me": - "Boneco"; Nome; Localidade;
  • Desapareceu "View my complete profile";
  • Não consigo "postar" imagens....
  • O tom azulado da coluna da direita dá uma ideia de uma cor manchada...
  • ... enfim!

Bom fim de semana.

Até uma próxima oportunidade.

Um dia destes a gente vê-se, tá?!

domingo, 9 de julho de 2006

Recordações de um tempo já passado...

Imagem roubada à Lique (http://mulher50a60.weblog.com.pt/)

– mas é por uma boa causa!

Há um ano para cá a nostalgia e um certo tipo de revivalismo me vem assaltando com demasiada frequência…
Hoje deu-me para ouvir Patxi Andión… a voz e a poesia que num tempo já passado onde ainda se acreditava na esperança, num mundo melhor, numa terra sem guerras, sem dores, sem gritos, sem fome…

Quem quiser seguir o poema e a música, façam o favor!


Palabras

20 años de estar juntos
esta tarde se han cumplido
para ti flores, perfumes
para mi, algunos libros.
No te he dicho grandes cosas
porque no me habrian salido
ya sabes cosas de viejos
requemor de no haber sido.

Hace tiempo que intentamos
abonar nuestro destino
tu bajabas la persiana
yo apuraba mi ultimo vino.
Hoy en esta noche fria
casi como ignorando el sabor
del la soledad compartida
quise hacerte una cancion
para cantar despacito
como se duerme a los niños
y ya ves,
solo palabras
sobre notas me han salido
que al igual que tu y que yo
ni se importan ni se estorban
se soportan amistosas.
mas no son una cancion
que helada esta casa !
sera que esta cerca el rio
o es que estamos en invierno
y estan llegando,
estan llegando...
los frios.


Patxi Andión

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segunda-feira, 3 de julho de 2006

A GUERRA DOS MUNDOS - Parte II

A Invasão dos Marcianos
(Versão livre do rádio-teatro transmitido pela Rádio Renascença
em 25 de Junho de 1958, às 20,45 horas)


Em continuação do artigo que iniciei no “post” anterior, vou hoje falar-vos sobre “A Guerra dos Mundos” (“A Invasão dos Marcianos”, na versão portuguesa) e que teve o condão de assustar não só os ouvintes mas também os governantes de então… talvez fosse por isso que Salazar deu ordem à Pide para dar a Matos Maia (o realizador, o intérprete, o homem dos efeitos especiais…) um “puxão de orelhas”!


Mas vamos lá à história…


Por acaso, no dia em que a RR transmitiu o rádio-teatro “A Invasão dos Marcianos”, talvez por conhecer a história e ter ouvido os avisos que antecederam o programa não entrei na histeria colectiva que acabou por se instalar nos ouvintes.


Como é que nasceu "A Invasão dos Marcianos"?


Matos Maia, um homem da Rádio, influenciado pelo livro de H. Wells “A Guerra dos Mundos” e pelo programa radiofónico inspirado nesta obra (que foi para o ar, nos Estados Unidos, em 30 de Outubro de 1938, conduzido pela mão do actor G. Wells e que bateu todos os recordes de audiência dessa noite), resolveu fazer um programa semelhante… mas à maneira portuguesa!!!


Depois de ter elaborado o resumo do rádio-teatro, Matos Maia, contactou a Direcção da Rádio Renascença que o leu e achou curioso. Endossou o assunto para a censura interna que, também, não viu qualquer inconveniente em ser transmitido, mas não fosse o diabo tecê-las consultaram, ainda, o delegado do Governo.
[1]


Este não encontrou qualquer razão para proibir o projecto de Matos Maia.


Depois da luz verde dada por todos, Matos Maia passou à fase seguinte: escrever o guião e escolher os intervenientes que iriam participar na "A Invasão dos Marcianos".


O papel do repórter da Rádio Renascença no rádio-teatro seria desempenhado por Henrique Mendes mas este, à última hora, pediu para que fosse substituído porque estava a prestar provas para entrar na RTP.


Para que a história tivesse o mínimo de credibilidade foram escolhidos quase a dedo os intérpretes entre os colegas de Matos Maia.


Os efeitos especiais estavam a dar os primeiros passos. Foi precisa muita imaginação para se criar ruídos e certos sons para determinadas situações.


O trabalho de criação desenvolvido por toda a equipa interveniente durou cerca de onze meses.
[2]


Durante a transmissão da “A Invasão dos Marcianos” começaram a "cair" os telefonemas mais variados nos estúdios da RR: desde angustiantes, curiosos, até aos insultuosos!
Até a agência noticiosa "France Press" quiz saber o que se estava a passar em Carcavelos (lugar da acção) e onde ficava a "Quinta das Conchas" pois tinham já mandado repórteres para o local"...


Por duas vezes, pelo telefone, o comandante de piquete da PSP, irritado e em tom ameaçador, ordenou a interrupção do programa ou, caso contrário, o responsável pela transmissão seria preso.


Os telefonemas, as ameaças e o nervosismo que se apoderou dos “actores” levaram-nos a ignorar a ameaça do comandante da polícia e tentaram, primeiro, tranquilizar os ouvintes, dizendo que o que estavam a ouvir era pura ficção…


O comandante da polícia enviou, mais tarde, um subchefe e três guardas devidamente armados que prenderam, nos estúdios da R.R., o responsável pela emissão.
A partir daí a emissão foi definitivamente interrompida e passou a a ser transmitida música gravada e os anúncios.


No Governo Civil, Matos Maia compreendeu a histeria que se instalara: um PBX com 20 linhas estava totalmente bloqueado por pessoas que queriam saber o que se estava a passar... até havia relatos de incêndios em Carcavelos, guerra em Vila Nova de Gaia, milhares e milhares de mortos, etc...


Matos Maia ficou preso numa cela do Governo Civil durante cerca de 3 horas, como se fosse um vulgar meliante.


No dia seguinte todos os jornais tinham manchetes sobre o assunto, uns criticando e pouquíssimos aplaudindo. Chegou-se a pedir ao Governo "uma censura mais apertada para a Rádio".


"Diário Poular"



"O Primeiro de Janeiro"



Durante vários dias as chamadas telefónicas continuaram a cair na redacção da Rádio Renascença. Sócios da R. R. marcaram a sua indignação deixando de ser sócios. Outros, talvez de espírito mais aberto, frisando que não eram católicos, inscreveram-se como sócios da “Liga dos Amigos da Rádio Renascença”.


Uma semana após esta emissão Matos Maia foi, sobre prisão, conduzido à PIDE para ser interrogado!


Depois de deambular por corredores, pátios, de subir e descer escadas, de “visitar” gabinetes acompanhado por agentes "mudos" finalmente chegou ao gabinete do inspector que o interrogou.


Este estava profusamente documentado sobre o livro de H. Wells, a dramatização de G. Wells e o efeito que o programa provocara nos Estados Unidos em 1938 .


O inspector fez “render” o interrogatório o tempo necessário de maneira a meter um susto de truz ao autor da “brincadeira”. O interrogatório terminou mais ou menos com estas palavras:
"Por agora tudo bem. Mas não se meta mais nessas coisas. Um dia faz qualquer programa sobre a Lua e, então, volta para cá e daqui nunca mais sai!


Hoje sabe-se que foi o prof. Oliveira Salazar que telefonou ao comandante geral da PSP para cortarem o programa e prenderem por umas horas o responsável. O director-geral da PIDE deveria chamar o responsável do programa, uns dias depois, para "darem um puxão de orelhas ao rapazinho"...[3]

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[1] No regime anterior ao 25 de Abril qualquer informação ou qualquer programa, além da censura para a imprensa propriamente dita havia ainda, um censor residente em cada estação de Rádio.

[2] O ruído da multidão assustada e os gritos que se ouviam no programa foram gravados num baile de Fim de Ano, na Casa do Algarve, junto dos estúdios da Rádio Renascença. A cena do combate em Vila Nova de Gaia foi gravada, em Lisboa, numa noite, em Monsanto, perto do emissor da R.R. Ali gritaram à vontade a palavra "Fogo", bem como todas as ordens dadas em voz alta.

[3] Versão livre de uma reportagem dada por Matos Maia para “Clássicos da Rádio”.

José Gomes
3 Julho 2006

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Continuamos com:

Os Quinta do Bill
"No Trilho do Sol"

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domingo, 25 de junho de 2006

A GUERRA DOS MUNDOS - Parte I

(Análise às potencialidades da rádio)



A noite de 30 de Outubro de 1938 passou à história como a data do “primeiro encontro” com extraterrestres – e de que maneira!...

Nessa noite Orson Welles (à esquerda) e a “Rádio Mercury Theatre” emitiram a versão radiofónica de “A Guerra dos Mundos”, baseada no livro de Herbert George Wells (H. G. Wells) em que simularam a Terra a ser invadida por marcianos que semeou o pânico em toda a costa leste dos Estados Unidos.

O programa pareceu tão autêntico que a maioria dos ouvintes acreditou tratar-se de uma invasão a sério! Até a data foi bem escolhida: — 30 de Outubro (O Dia das Bruxas)!

Muito se tem especulado sobre o impacto deste radioteatro na população de Nova Iorque. Mais de um milhão de pessoas ficaram convencidas de que o que estavam a ouvir era real: o pânico instalou-se na população que julgou estar a ser invadida por forças marcianas!

Foi uma fuga desordenada à procura de refúgio nas caves, grutas e outras cidades.


Os telefones da polícia, bombeiros, hospitais e defesa do território ficaram bloqueados, tais foram os números de chamadas recebidas.


Até a central eléctrica que servia Nova Iorque foi bombardeada com telefonemas exigindo que as luzes da cidade fossem apagadas!!!!


O medo generalizado paralisou Nova Jersey (onde a CBS emitia e onde Welles localizou a acção do programa), Newark e Nova Iorque.

Nesta altura atrevo-me a fazer uma pergunta:

— Será que os ouvintes (seis milhões, segundo a CBS – Columbia Broadcastig System,) estavam realmente a acreditar naquilo que ouviam?

Consciente ou inconscientemente foi uma maneira hábil de alguém testar a melhor maneira de se manipular as massas... A rádio, pese ainda a sua “juventude”, podia irromper pela intimidade dos lares e apoderar-se dos ouvintes indefesos (e/ou pouco atentos), manipulando-os de uma forma irracional.

Nesta época já o regime nazista se aproveitava do poder da rádio para difundir a sua doutrina. Estava-se, então, nos preliminares da II Guerra Mundial, falava-se já nos ataques da Alemanha e o cheiro à guerra generalizada andava no ar.

Este foi o cenário idealizado por Orson Welles para a feitura do rádioteatro. Ao usar as técnicas de relatos sensacionalistas em directo, foi despertar os medos recalcados dos ouvintes, o que veio contribuir para a animação de um guião do qual, à partida, nem os próprios actores acreditavam.

Muitos habitantes de Nova Iorque afirmaram ter encontrado, naquela noite, ET’s! Outros dispararam contra depósitos de água que se semelhavam, no imaginário dos ouvintes, às famosas máquinas marcianas que volatilizavam os terrestres.

Foi assim que um fenómeno exclusivamente literário, uma simples peça de rádioteatro bem encenada, transformou-se em realidade aos ouvidos dos ouvintes e resultou numa manifestação de histeria e pânico popular.

A transmissão da peça radiofónica durou uma hora. Antes de início do programa foi feita uma introdução em que se chamaou a atenção dos ouvintes que iriam assistir a uma dramatização de “A Guerra dos Mundos”.

Passados os primeiros 40 minutos do programa foi feita uma pausa em que se avisou, novamente, os ouvintes que estavam a ouvir um programa de ficção científica –
mas já nada adiantava! Os ouvintes acreditavam piamente que os marcianos estavam a invadir a Terra!







Matos Maia (á esquerda), um conceituado homem da rádio portuguesa, depois de um trabalho árduo de onze meses (os efeitos especiais necessários ao programa tinham que ser “inventados” e gravados para serem usados na altura própria), no dia 25 de Junho de 1958, às 20,05 horas, aos microfones da Rádio Renascença, ele e a sua equipa emitiram a versão portuguesa de “A Guerra dos Mundos”, de H. G. Wells.

Pouco tempo depois de ter começado a emissão, começou a chegar à redacção pedidos de esclarecimento, relatos de pavorosos incêndios e batalhas sangrentas em Carcavelos e em Vila Nova de Gaia (lugares onde decorria a acção) e até as agências internacionais mandaram os seus repórteres fazerem a cobertura da invasão “in loco”!!!...

O pânico e a histeria instalaram-se, à boa maneira americana, nos ouvintes...

À boa maneira portuguesa, a polícia interrompeu o programa, levando para a esquadra Matos Maia, que ficou preso durante três longas horas.

Uma semana depois foi conduzido à Pide.

Depois de longas horas passadas naquele lúgubre edifício, foi ouvido por um inspector que, depois de miríades de perguntas feitas só para o aterrorizar, deixou-o sair em liberdade.

Mais tarde veio-se a saber que este “teatro” Polícia / Pide fora “encomendado” pelo próprio Dr. Oliveira Salazar que não deve ter gostado mesmo nada do programa, ainda por cima transmitido pela “emissora católica portuguesa”...

Anos mais tarde, em Coimbra (1998?), foram relembradas essas emissões radiofónicas.
Desta vez não houve pânico, nem histeria, mas sim um certo interesse pela transmissão. Houve um debate em que se falou de guerras, de ficção científica, de H. G. Wells e de Orson Welles.
Foi convidado de honra Matos Maia que contou de viva voz a sua versão, anos 60, de “A Guerra dos Mundos”.

Aqui os ouvintes estiveram mais interessados em conhecer / dialogar sobre ficção científica e a existência de Outros Mundos, outras Humanidades…

Este será o primeiro capítulo desta história.



Matos Maia partiu em 5 de Março de 2005, deixando-nos uma longa história na Rádio, em folhetins teatralizados entre os quais "A Queda de um Anjo", de Camilo Castelo Branco, "Quando os Lobos Uivam", de Aquilino Ribeiro, "As Cidades e as Serras", de Eça de Queirós, e "Mau Tempo no Canal", de Vitorino Nemésio.

Matos Maia foi autor, entre outros, do livro "Aqui, Emissora da Liberdade", no qual relatou a ocupação do antigo Rádio Clube Português na madrugada de 25 de Abril de 1974 e a sua transformação em posto de comando do Movimento das Forças Armadas, donde foram em emitidos comunicados e avisos que seriam importantes para o sucesso das operações e para o apoio da população ao golpe militar.

Dar uns apontamentos como nasceu, foi para o ar e as consequências da “A Invasão dos Marcianos” (versão Matos Maia) é uma forma de lembrar este grande Homem.





José Gomes
25 Junho. 06


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"No Trilho do Sol"
Quinta do Bil
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