sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

POEMA DE NATAL


Hoje lembrei-me que é Natal...

Nas casas, nas varandas, nas janelas, nas árvores, nas ruas mil luzes de todas as cores, brilhando, cintilando, tentam mascarar de luz os restantes dias do ano...
A azáfama das compras, as trocas de sorrisos, as trocas de presentes, a música de natal no ar apelando para a fraternidade, a amizade, a paz, faz-me lembrar que estamos noutra dimensão...


(...) é dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémere e tão séria.
(...)
António Gedeão - in Dia de Natal

Caí em mim a lembrar Vinícius de Moraes e o seu "Poema de Natal" enquanto escutava a voz doce e quente da Ellis interpretando "Fascinação".

Com Ellis Regina e a minha frustração por mas um natal igual a tantos outros Natais, deixo-vos, com o meu melhor abraço, com Vinícius...

Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados,
Para chorar e fazer chorar,
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses,
Mãos para colher o que foi dado,
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida;
Uma tarde sempre a esquecer,
Uma estrêla a se apagar na treva,
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar,
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.


Não há muito que dizer:
Uma canção sôbre um berço,
Um verso, talvez, de amor,
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E que por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.


Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre,
Para a participação da poesia,
Para ver a face da morte -
De repente, nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte apenas
Nascemos, imensamente.


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Hoje em Natal há Natal sem Natal
Hoje em Natal procura-se o Natal.
(Manuela Pimenta)
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José Gomes
24 Dez 05

quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

Menino Jesus da minha cor

Presépio
Dili, Dezembro 2003 - Tózé


MENINO JESUS DA MINHA COR

Meu Natal Timor,
Meu primeiro Natal.

Quantos anos tinha?
Nunca o soube ao certo.

Minha Mãe-Menina
Fez-me o seu presépio:
Uma encosta arrancada ao Ramelau
[1]
Com uma gruta ausente
Cheia de Maromak
[2]
E perfume de coco.
Um búfalo e um kuda
[3]
E o bafo quente dos seus pulmões.
E um menino sobre a palha de arroz
E folhas de cafeeiro.

Um menino branco
Igual aos que chegavam de longe.

- Ínan
[4], quem é?
- É o Maromak-Filho
[5] e teu irmão!

E eu recuei, porque via no berço
Um menino rosado,
Um menino branco
Igual aos que chegavam de longe.

- Ele é, mais do que todos, teu irmão...
- Mas como pode ser um meu irmão?
- É teu irmão: firma-lhe bem os teus olhos, meu amor!

E eu, obedecendo,
Firmei-me todo n’Ele.
E vejo-O desde então
Também da minha cor!



[1] - Monte Ramelau – a montanha mais alta de Timor
[2] - Maromak - Deus
[3] - Kuda - Cavalo
[4] - Ínan - Mãe
[5] - Maromak-Filho – Deus menino

Fernando Sylvan nasceu em Díli, Timor Leste, em 1917.
Pseudónimo de Abílio Leopoldo Motta Ferreira.
Foi presidente da Sociedade de Língua Portuguesa.
Participante activo da Resistência Maubere.
Foi poeta, prosador, dramaturgo e ensaísta.
Morreu em 1993, na cidade de Cascais, Portugal, onde morou grande parte da sua vida.

José Gomes
16 Dez 05

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terça-feira, 6 de dezembro de 2005

TIMOR LESTE - 7 Dezembro 1975

TIMOR LESTE
7 de Dezembro de 1975

Respondendo a algumas perguntas e a várias insinuações, quero aqui deixar bem claro que não sou historiador e nunca tive pretensões a sê-lo! Nem nunca estive em Timor…
A minha paixão por essa Terra é anterior aos caminhos do acaso que me vieram a ligaram-me a Timor por laços familiares.
Gosto muito de ouvir, mais que falar! Tudo aquilo que escrevo sobre Timor tem por base depoimentos que me foram transmitidos por pessoas que lá estiveram, por investigações que fiz e que continuo a fazer, por conversas tidas com familiares, amigos e conhecidos.
Tinha preparado um pequeno trabalho sobre este dia negro que marcou a longa odisseia do povo mártir Maubere até alcançarem a Independência. Mas como era enorme (é o costume, quando começo a escrever nunca mais paro!!!) e o seu conteúdo iria ferir muita gente à minha volta, pessoas que viveram o drama não só nesse dia mas também nos dias que se seguiram. E iria reavivar feridas que quero que cicatrizem naqueles que me estão mais próximos, resolvi fazer este apanhado daquilo que ainda me lembro.

Apesar de tudo o dia 7 de Dezembro de 1975 é uma data que não quero deixar cair no esquecimento. É uma data para meditar, para unir, para pensar na construção, na evolução, no desenvolvimento e na prosperidade da mais jovem Nação do século XXI.

Já relatei, embora sucintamente (ver artigo anterior), os factos que deram origem à guerra civil que terminou com a “Declaração Unilateral da Independência da República Democrática de Timor-Leste” lida pelo seu primeiro presidente da Republica, Francisco Xavier do Amaral, no dia 28 de Novembro de 1975.

A República Democrática de Timor-Leste foi reconhecida apenas por alguns países africanos de expressão lusófona.

Durante nove dias a FRETILIN foi conquistando e consolidando posições antes ocupadas pelas forças inimigas (MAC – Movimento Anti Comunista, formado pela Apodeti, Kota, Partido Trabalhista e UDT).

A 7 de Dezembro de 1975 a Indonésia, com o apoio tácito dos Estados Unidos (no dia anterior tinha havido um encontro entre o presidente dos E.U. América, Gerald Ford, o secretário de estado Henry Kissinger e o general Suharto, em que foi dada luz verde para esta operação), invadiu Timor por terra, mar e ar, bombardeando Díli com 16 vasos de guerra e ocupando a cidade com paraquedistas.

A FRETILIN retirou-se para as matas de Fatu-Beci e daqui organizou a resistência ao invasor.

- Nos primeiros dias da invasão, soldados indonésios massacraram mais de duas mil pessoas. Destruíram casas, pilharam tudo o que puderam e violaram mulheres e raparigas.

- Em 8 de Dezembro o governo de Timor (português), refugiado na ilha de Ataúro, partiu para a Austrália.

- Em 12 de Dezembro a Assembleia Geral da ONU aprovou, por maioria, a resolução 3485 que define o direito inalienável do povo de Timor à autodeterminação, liberdade e independência, lamenta a intervenção militar da Indonésia e apela à sua retirada.

- Em 25 de Dezembro o Conselho de Segurança da ONU adoptou por unanimidade a Resolução 384, em que apelou à Indonésia que retirasse de imediato as suas tropas de Timor e atribuiu poderes de verificação ao Secretário Geral.

- Dois meses depois o número de mortos ascende a mais de 60 mil.

- Em Agosto de 1985 já tinham morrido mais de 200 mil timorenses, numa população estimada em 600 mil.

A sangrenta ocupação militar indonésia durou até 1999 e da política de genocídio perpetrada, resultou milhares de mortos, centenas de aldeias arrasadas e a destruição da densa floresta onde a guerrilha se refugiava.

Com a saída dos indonésios, Timor foi administrado pelas Nações Unidas até 19 de Maio de 2002.

Em 20 de Maio de 2002, em Taci Tolo – a oito quilómetros de Díli - Timor Lorosae é reconhecido finalmente pela comunidade internacional como País livre e Independente.

José Gomes
7/12/2005


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Para que não se esqueça esta data escolhi:
TIMOR
Tuna Universitária do Porto
Concerto de Apresentação da Queima das Fitas 2000
5:29
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