quarta-feira, 2 de novembro de 2005

América... país de contrastes - Parte 6

VIII – O regresso

De manhã ainda dei umas voltas sozinho pelos quarteirões mais próximos do hotel, enquanto a Sónia se despediu do amigo.

Tentei uma vez mais (visitando avenidas diferentes) a marcação de uma raça definida no meio daquela amálgama de gente que só parava nos semáforos quando estes estavam vermelhos. Desisti, pois já estava debaixo do olho de alguns polícias, tal o número de vezes que nos cruzámos e decidi regressar ao hotel. Como já tinha dinheiro trocado, usei os computadores deste para ir à Net e ainda consegui matar a curiodidade dando uma vista de olhos pelo meu correio electrónico.

Sentei-me no sofá, no hall de entrada e enquanto esperava pela Sónia, falei com uma senhora que entretanto se sentara ao meu lado, uma brasileira com idade de ser minha tia e que barafustava bem alto por causa de um rato (sim, sim, aqueles bichinhos bonitos que causam grande impressão às senhoras...) que apareceu não se sabe lá muito bem de onde... e das baratas que circulavam pela sala do pequeno-almoço!

Consegui sossegá-la tanto a ela como à filha, que entretanto chegara. Cheguei à conclusão que estes nova-iorquinos não são nada simpáticos. Nem nas ruas e muito menos no hotel. As respostas que elas procuravam, tais como as nossas, ou eram ignoradas ou "já iam resolver o problema"... e nós já tinhamos tido a experiência como eles resolviam os problemas!

Fomos directamente do hotel para o aeroporto. Aqui fomos encaminhados para os preceitos alfandegários da praxe. Obrigaram-nos a tirar os sapatos (?!!!) e a colocá-los no tapete rolante, juntamente com a bagagem de mão. Uma simpática funcionária (de cor, claro!!!) implicou com a minha bolsa e tentou abri-la... lá a levou, sem a minha presença, pois um dos meus sapatos tinha encravado o tapete! Devia ser o cheiro a "sulfato de peúga" que empancou o tapete...

No avião foi mais que terrível!
Fomos logo avisados que iríamos ter turbulência durante toda a viagem e, por isso, aconselhados a viajar de cintos apertados. Ao meu lado esquerdo seguia uma chinesa (não é o que estão a pensar, poderia até ser a minha tia mais velha!) que, tal gato, demorou mais de três horas a encontrar o seu ponto ideal para adormecer, com as consequentes cotoveladas no meu braço a cada três minutos...A Sónia, bem protegida por mim, dormiu, leu ou ouviu música... eu é que não consegui pregar olho!!!

Quando começámos a sobrevoar Lisboa os meus olhos, teimosamente, começaram a piscar e um doce torpor a invadir o meu corpo!
A aterragem teve direito a uma salva de palmas... e bem merecida. Desta vez foi suave!

Antes de embarcar para o aeroporto de Pedra Rubras, um solícito funcionário obrigou-me a tirar tudo, inclusive o cinto... para passar no detector de metais, disse-me ele.

Enquanto esperávamos pelo voo de ligação, contactámos a Milú. Mãe e filha... aquilo é que foi matar saudades!... e logo pelo meu telemóvel!!! Vá, vá, a conta do telefone no fim do mês deve ser de gritos!!!

A chegada a Pedras Rubras foi normal, sem qualquer dado importante a registar...

No avião antes de partirmos para o aeroporto de Pedras Rubras, na Maia.

A não ser algumas fotos tiradas à socapa!...

A preparação da aterragem. Matosinhos.


A aterragem, também com direito a palmas!


Na saída um zeloso funcionário deu para implicar com o computador da Sónia que eu levava ao ombro... coisas!

A Milú e a Bogna (a amiga polaca da Sónia que, entretanto, chegara a nossa casa) já estavam à nossa espera no aeroporto. Com o Kique, claro, que ficou de olhos em bico!... fiquei por saber se era por não se lembrar de mim ou da Sónia!

Todos os mimos e lambidelas foram para ela!

Ufff! Finalmente cheguei! Mas... Nova Iorque (cidade) nunca mais!



FIM


*****************************
Notas finais:

Além dos comentários que escreveram no blog durante a descrição desta saga, recebi também emails e telefonemas aos quais vou dar as respostas que acho oportunas:

1 – Como disse no início destas crónicas, parti para os Estados Unidos de coração aberto, disposto a ver tudo: o bom, o mau e o assim assim;

2 – Não morro de amores pelos states por várias razões e mais uma;

3 – Pelos sítios que visitei (eu sei que estive no Estado de Nova Iorque muito poucos dias – embora para mim tenha parecido uma eternidade!) e pelas pessoas que contactei ou cruzei, não me pareceu nada daquilo que imaginei. As pessoas eram pessoas, as crianças riam e corriam, as casas eram casas, tinham jardins, tinham animais, tinham plantas que cuidavam com carinho, respeitavam a floresta, tinham um sol lindo, uma chuva que me fez inveja, lagos onde havia peixe, aves e as águas embora não límpidas, convidavam a passear nelas;

4 – Não gostei de Nova Iorque (cidade). Pelo nervosismo das pessoas, pela corrida desenfreada, pelo gigantismo dos seus prédios, pela confusão das suas luzes, pelo policiamento em excesso (penso eu!), pelo movimento dos carros;

5 – Não gostei de Nova Iorque porque não senti a reciprocidade de comunicação e muito menos um esforço para tal. Talvez a culpa não seja só dos nova-iorquinos, talvez fosse minha, também! Pareceu-me que as pessoas desconfiam umas das outras e sentem-se pouco à vontade, especialmente quando as tentei examinar. Senti-me um estranho numa cidade estranha e nada nem ninguém moveu uma palha para fazer desfazer essa impressão;

6 – Mesmo em Camp Anne a barreira da língua foi uma muralha que só com a Sónia ao meu lado a pude quebrar. Mas eram mais simpáticos, mais comunicativos... talvez por terem a influência da miscelânea de raças e de línguas diferentes durante os meses em que este funcionou a 100 %. Mesmo na cidade, vila ou aldeia mais próxima (não sei como a classificar) essa influência fez-se sentir. E depois havia o contacto com a natureza, as cores do céu, da água e da terra, o cheiro das plantas, o cantar dos pássaros, o grasnar das rãs e dos sapos, até os cães que procuravam um afecto;

7 – Uma resposta directa ao email de um amigo: realmente não vi pobres na esquina das ruas, estendendo a mão à caridade, não vi o “negócio” das crianças ao colo de pedintes, não vi deficientes a mostrar as suas maleitas ao olhar da caridade. No metropolitano ouvi música arrancada a um acordeão, a um violino, a um órgão eléctrico, a uma viola... Ouvi as vozes de “cantores” que se faziam acompanhar pelas mais variadas aparelhagens. Eram jovens e pessoas de mais idade, aparentemente sem grandes recursos económicos e que deveriam estar ali à espera que lhes caísse alguns dólares de uma alma caridosa... mas, sinceramente, não vi nem a alma caridosa e muito menos o local onde os tais dólares pudessem cair! Não vi a exploração dos animais na arte da pedincha... ahh! No metro também havia muita, mas mesmo muita polícia e seguranças.

8 – Na continuação da resposta ao teu email, o “murcom não tirou fotografias de um só dos mais de 30 milhões de americanos que vivem abaixo do nível de subsistência” porque estes deveriam estar em locais que não visitei. Fui à América buscar a Sónia e sabes bem quanto isso me custou! Mas para ir lá em paz com a minha consciência tive que esquecer que os americanos, quem quer que eles sejam, brancos, pretos, castanhos, mestiços, são seres humanos como nós. Não poderia confundi-los com os governantes, os traficantes, os mafiosos, os exploradores... A riqueza via-a nas limousines de vidros fumados, estacionadas à porta de hoteis ou de grandes empresas, mas nunca cheguei a ver o ricaço! Apenas o motorista que dava dois dedos de conversa ou com um polícia ou com os seguranças que olhavam à sua volta, como se esperassem um ataque terrorista. E quando os nossos olhos se cruzaram até senti um arrepio...
Os trabalhadores esses estavam na sua lufa-lufa diária. Mesmo quando fui ao banco receberam-me com um sorriso e tentaram ajudar-me a fazer a operação que pretendi, pese a barreira linguística. Mas não foi um branco que me atendeu: foi uma mestiça, tipo africano, bem vestida e com um sorriso nos lábios e nos olhos.

9 – Não fiquei com vontade de voltar a Nova Iorque. Não gostei da cidade (do pouco que vi – e até aqui posso estar a ser injusto!), pela sua monstruosidade... mas gostei da calma e do bucolismo das terras mais a norte! Disseram-me que foram territórios dos índios... e gostei!
Por isso me lembrei e, tal como lá, deixo-vos com a filosofia dos “cheyennes”:

Os dramas humanos e as catástrofes ecológicas têm a mesma causa: o Homem afastou-se do coração da Natureza que é também o seu próprio Coração. Ao esquecer a vida sensível do mundo, acabou por se esquecer de si próprio. Os Cheyennes das planícies sabiam que a perda de respeito devida a todas as formas vivas, humanas, animais, vegetais, leva igualmente a deixar de respeitar o homem. Por isso mantinham os jovens sob a doce influência da natureza”.

Foi esta a reportagem possível à qual procurei dar um ar de isenção.

Espero que tenham gostado.



José Gomes
2 de Novembro 2005


-----------------
Foi com canções como esta mitiguei as saudades que tinha do meu País de sonho... e para terminar, nada melhor que a voz de Zeca Afonso.

José Afonso
Cantigas Do Maio
Álbum: “Cantigas Do Maio”
5:49 '
--------------------------------------------------------

20 comentários:

  1. Foi muito bom ler esta tua reportagem:) beijos

    ResponderEliminar
  2. Sylvia Cohin2/11/05 15:44

    Caro amigo,
    Muito bom teu relato e todas as sensações que experimentou numa viagem que poderia ser bem menos rica. Foi bom "viajar" junto. Creio que este último capítulo foi de todos o de conteúdo mais real.
    "...o Homem afastou-se do coração da Natureza que é também o seu próprio Coração. Ao esquecer a vida sensível do mundo, acabou por se esquecer de si próprio."
    Pensamento que vale para qualquer povo e define não a tua ou a minha verdade mas a de todo ser humano sem distinção de nacionalidade...
    Parabéns, um abraço, Sylvia Cohin

    ResponderEliminar
  3. Mais uma vez ri com as tuas descrições e pormenores. Mas foste bem revistado, caramba! Até os sapatos! Isso até parece coisa de apanhados!
    Este ano, quando fui a Paris, no nosso aeroporto ficaram-me com uma lima de unhas que devia de ter mais uns míseros milímetros além do estipulado por lei. Em contrapartida deixaram passar uma tesourinha daquelas pequenas para as unhas... Só te digo que com aqueles biquinhos podia ter tirado meia duzia de olhos!... Coitada da lima... para lá ficou.
    Nova Iorque também não me seduz embora tenha ovido contar maravilhas.

    Enfim, estás na nossa santa terra!

    Um abraço para os protagonistas desta aventura!

    ResponderEliminar
  4. ma sabes que as baratas dao muito jeito nos hoteis? nao pagas a conta...

    abraço da leonor

    ResponderEliminar
  5. Isso era bom, Leonor.
    O hotel foi pago antecipadamente...
    Nem as baratas, nem as mudanças de quartos tiveram qualquer influência no preço já pago.
    Obrigado por teres aparecido.

    ResponderEliminar
  6. Já li a tua viagem para aí umas 3 vezes! Até já fui ao PC da minha filha para poder comentar-te e não conseguia. Perdi tantos comentários, como as tentativas que fiz. Vou mais uma vez repetir, mas não vai sair igual.

    Adorei a tua narrativa! És um escritor nato! Fizeste-me sentir vários sentimentos e trouxeste-me várias recordações da memória.

    Adorei as fotografias, especialmente aquela onde está a Sónia nas Cataratas com o arco-íris mesmo por detrás dela! Espantosa essa foto!!

    Vou remeter o comentário, não vá falhar novamente! Voltarei noutro dia para fazer mais uma tentativa!

    Um abraço saudoso a todos. Gostei muito de ler-te ;)

    ResponderEliminar
  7. Não conheço os states nem quero conhecer!!! Bastou-me a descrição pormenorizada da visita. Obrigado, gostei muito de ler, conseguir viajar até lá sentir os salpicos das cataratas, a beleza da natureza e pasme-se...! até ouvi o riso da Sónia!
    Ah...! Parabens Sónia pelo pai que tens.
    "A Sónia, bem protegida por mim, dormiu, leu ou ouviu música..."
    Parabens tambem amigo por ser um pai assim.
    Quando é a próxima viagem?
    Abraço,
    AAS

    ResponderEliminar
  8. Especialmente para a Sonhadora:
    Não me respondeste à pergunta que fiz. És ou não a pessoa que penso?
    Um abraço.

    ResponderEliminar
  9. Uma viagem, extremamente bem descrita. Beijos

    ResponderEliminar
  10. Prezado Amigo,

    Embora com uns dias de atraso li o ultimo capitulo da tua visita aos USA. Tal como nos outros capítulos, demonstras-te a tua Arte de grande Repórter.

    Um Abraço,

    ResponderEliminar
  11. nós temos a ideia que a américa é o que aparece nos filmes e depois a realidade não é bem assim. Eu não conheço, gostava de conhecer mas não está na minha lista de preferidos. A europa é e será sempre o continente das "luzes"!

    ResponderEliminar
  12. ola ze.
    nao gostei nada do comentario que fizeste la no Ex. que conversa e essa, prenuncio do fim?

    ResponderEliminar
  13. Olá Frog amigo,
    Soube da tua situação, bem queremos fazer-te uma visita mas dizem que ainda não é oportuno.
    Fiquei contente por teres comentado.
    Vamos , amigo, para cima!
    Um abraço.

    ResponderEliminar
  14. Para ti, Leonor, é mesmo aquilo que leste...
    José Gomes

    ResponderEliminar
  15. Este comentário foi removido por um administrador do blogue.

    ResponderEliminar
  16. Olá. Só para dizer que estou de malas feitas para partir para o "Palavrejando" ... :) **
    http://palavrejando.blogspot.com

    ResponderEliminar
  17. Sim, sou eu. Já tinha respondido para o seu email!
    Abraço,
    AAS

    ResponderEliminar
  18. obrigado pela tua visita e pelas palavras de seguir em frente. gostei muito.

    abraço da leonoreta

    ResponderEliminar
  19. Anónimo4/2/08 04:55

    Ótimo blog não tive tempo de ler ele completamente mas adorei os comentarios pricipalmente o lembrete posto lhe agraço desde já pois tal lembrete pode acabar sendo muito importante não apenas para mim mas tabém para todos que o lerem obrigado.

    ResponderEliminar