sábado, 12 de novembro de 2005

12 Novembro 1991 - TIMOR

Imagem tirada do vídeo do jornalista Max Stahl's e que retrata o início do Massacre no Cemitério de Santa Cruz,
em Díli - Timor Leste, transmitido pelo Canal 1, via eurovisão.

TIMOR - 12 Novembro 1991
Massacre no cemitério de Santa Cruz, em Díli


Desde a ocupação de Timor em Dezembro de 1975, uma onda de contestação ao regime de Jacarta não parou de crescer até atingir o seu ponto alto no ano de 1991. Por duas razões:

1 - A tão desejada e esperada visita dos deputados portugueses à capital timorense que tinha sido adiada;
2 - A repressão era cada vez mais intensa e os timorenses pagavam com a vida o seu desejo de liberdade.

Foi o que aconteceu ao jovem Sebastião Gomes que foi assassinado durante uma vigília, junto à igreja de Motael, pelas tropas indonésias nos últimos dias de Outubro de 1991.

A celebração da missa de 15.º dia serviu de pretexto aos indonésios para descarregarem a sua fúria assassina sobre os timorenses.

Naquele dia 12 de Novembro de 1991 muitos estudantes foram à missa por intenção de Sebastião Gomes. Finda a missa rumaram até à campa de Sebastião Gomes, no cemitério de Santa Cruz, em Díli. Depois tudo se precipitou.

Soldados indonésios dispararam sobre a multidão que se manifestava no cemitério. As imagens da tragédia deixaram o Mundo em estado de choque. Quem as viu - pouco passava das 14,00 horas - quando os nossos lares foram invadidos pelas imagens horrorosas, não tratadas, enviadas via Eurovisão e que tinham sido filmadas, na véspera, por Chris Wenner e Max Sthal's, jornalistas da Yorkshine Television. As imagens que desfilavam, os gritos, as sirenes, o metralhar não era ficção, mas sim a mais torpe realidade! Em vão, os timorenses tentaram com a fuga desordenada e com as suas orações travar as balas assassinas disparadas indiscriminadamente.

Hoje, para que nunca mais actos como este se repitam, relembro e denuncio aqui, aquela manhã de terça-feira, depois da missa do 15º dia celebrada em intenção do jovem Sebastião Gomes, varado pelas balas indonésias em 28 de Outubro, durante uma noite de vigília e de oração na igreja de Motael, em Dili;

Hoje, relembro o horror crispado nos rostos daqueles jovens indefesos que rolavam pelo pó e que se esvaíam em sangue, crivados de balas;

Hoje sinto, ouço e arrepio-me com o gemido lancinante das sirenes, o sibilar seco das balas que procuravam vítimas indefesas no meio daquela corrida desenfreada de jovens que corriam para lado nenhum, procurando o abraço da morte ou os braços impotentes do amigo que o apertava, incrédulo, com lágrimas de raiva no olhar...

Hoje relembro a lista oficial daquela tragédia:

- 271 mortos
- 103 feridos e hospitalizados
- 270 desaparecidos

Hoje rendo a minha homenagem a Timor que não cheguei a conhecer, mas que desde cedo ajudei a defender, pois sinto-o como uma pequena parte de mim. Esse Timor cheio de poesia, essa ilha de pouco mais de 20.000 km quadrados, situada no outro lado do mundo, em pleno Pacifico, com uma vegetação luxuriante, praias de areias acolhedoras, de águas quentes e cristalinas, onde os peixes mais exóticos, de cores garridas e belos olhos meigos saúdam, na sua candura, os pacatos mergulhadores.

Hoje
agradeço aos jornalistas nacionais e estrangeiros, às organizações nacionais e internacionais, aos jovens e a todos aqueles que, estoicamente, lutaram desde 1975 para que TIMOR sobrevivesse, com as suas tradições, com a sua identidade, com a sua liberdade e se tornasse na primeira Nação independente do século XXI.


12 de Novembro de 2005
José Gomes

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Canção--------- Timor
Interpretação-- Tuna Universitáris do Porto
Álbum---------- Concerto de apresentação da queima das fitas 200

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12 comentários:

  1. Somos, pela aplicação fiel e leal da nossa consciência, o depósito de todas as memórias que pairam no nosso íntimo. Podem ser de natureza variada... mas todas elas ostentam o selo da dignidade humana, sobretudo se no coração do homem que se rege pelo certo e pela verdade, zelarem as mesmas pela sua eternidade.
    Lembrar o massacre de Santa Cruz é avivar o homem para a senda da paz e da liberdade dos povos sem palavra e sem liberdade. Força Timor-Leste... estamos sempre contigo!

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  2. Maria Mamede12/11/05 20:43

    Olá Zé! Então mal chegas e logo
    nos brindas com esta emoção!
    Ainda bem que chegaste, Zé e obrigada por não deixares esquecer!
    Beijos para todos da

    Maria Mamede

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  3. Acredita que vi isso na televisão e ainda hoje como tu tenho as imagens na cabeça. Lembro-me perfeitamente de um jovem caído e ferido, com o amigo a ampará-lo. Muito bom este post, cheio de emoção como já nos habituaste.beijos

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  4. Obrigada por não deixares cair no esquecimento os dias chave da história de um povo mártir como é o de Timor.
    Que os jóvens de hoje honrem o sacrifício dos que lutaram pela independência de Timor, recusem a violência e participem activamente na construção do seu País.
    Milú

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  5. Bom demais este post.
    Obrigado por não esquecer Timor como tantos outros que um dia, eu vi, choraram por nós.
    Estive hoje presente na inauguração de uma exposição de fotografia, no Espaço por Timor, em Lisboa. Curiosamente as fotos são da autoria de Pauliana valente Pimentel e esta senhora esteve de férias em Timor em 2002. Nenhum outro laço a liga a Timor.
    O Presidente Xanana teceu hoje considerações sobre esta data, que é feriado em Timor, e apelou aos jovens que celebrem este dia não com velas e missas mas sim com momentos de reflexão profunda sobre o contributo indispensável que eles podem dar ao país.
    Foi o que um pequeno grupo de jovens (e menos jovens), reunido em Lisboa, fez hoje. Porque o peso da responsabilidade nos ombros se faz sentir, entre lágrimas, revolta e palavras em tetun e em português, falamos sobre a contribuição que cada um de nós pode dar.
    Hoje, dirijo as minhas orações para os familiares, amigos e anónimos que há 14 anos atrás deram o bem mais precioso que possuíam (a vida) pela libertação da pátria Timor.
    Para si, o meu forte abraço de amizade.
    AAS

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  6. Lembro-me muito bem deste dia.
    Do horror que foi ver estas imagens na TV.
    De acompanhar a Luta de um Povo, para manter o seu Orgulho, a sua Dignidade, a sua Fé.

    Esta música comove-me, pelo seu tão grande significado.

    Associo-me a ti, nesta Homenagem a um Povo ao Povo de Timor.

    Um abraço carinhoso a todos

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  7. belíssima memória/homenagem k não pode fenecer. Obrigada por me lembrares. Boa semana. bjs de luz e paz :))

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  8. boa homenagem Zé. foi algo que ficou marcado em todos nós. abraço

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  9. Olá, Zé!
    Até que enfim que venho por aqui! Primeiro foram as dificuldades em entrar nos teus comentários depois o estar mesmo virada para mim mesmo e, apesar de vir aqui, não deixei comentário!
    O teu "post" sobre Timor é da qualidade a que nos habituaste. Uma lembrança dolorosamente rica em factos que foram decisivos na viragem de Timor para o que é agora: a Nação mais recente do Planeta! Um abraço e beijos para a Milú e Sónia!

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  10. Muito emocionante a sua homenagem ao jovens timorenses que foram mortos pela violência dos indonesios. Muito obrigada pela sua solidariedade. Sabia! Quando lembro esta data, tenho uma emoção tão lamentável dentro de mim. Porque um fenomeno muito marcante que ainda não cicatrizou.
    José, muito obrigada e fico muito grato.

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