terça-feira, 18 de outubro de 2005

América... país de contrastes - Parte 2

III – Até Camp Anne

Do aeroporto fomos de camioneta até à Estação Central (Grand Central) no centro de Nova Iorque. Aqui as pessoas pareciam eléctricas, a correrem em todas as direcções. Olhei a majestosa e bonita abóbada da estação e lamentei a enorme bandeira lá dependurada que me limitou a possibilidade de a fotografar em todo o seu esplendor.
Há medida que descíamos para a estação de comboios o calor tornava-se sufocante. Entramos num comboio confortável, com o ar condicionado a funcionar em pleno... e que fresquinho estava lá dentro!
Um simpático canzarrão deitou-se no chão dos bancos ao lado do meu, lambeu as mãos aos donos e olhou para mim com cara de poucos amigos mas ao encarar a Sónia foi todo meiguices!!!
Duas horas depois e mais uma mudança de comboio, paramos na estação mais próxima de Camp Anne.
Pouco depois chegava uma carrinha conduzida pelo Joe, um condutor todo sorridente que nos levou ao nosso destino. Durante a viagem foi um palrar constante entre ele e a Sónia na língua de “tio Sam” e como não compreendia nada, fui-me deleitando a observar o céu (a lua nesse dia estava enorme, particularmente bonita!), as casas, os campos, o cheiro das árvores, da própria relva, o cacarejar das aves, o grasnar das rãs e dos gansos que se banhavam nas águas do lago mesmo ali ao lado.
Meia hora depois chegávamos ao nosso destino.

(Camp Anne – Vista de um dos pavilhões)

IV – Camp Anne

"Se estás disposto/a a enfrentar um desafio da vida, envolvendo 24 horas por dia, 7 dias por semana, mudando fraldas, empurrando cadeiras de rodas, transferindo campistas com a tua força, dando todo o auxílio a pelo menos um campista do começo ao fim de uma sessão, não obstante as condições de tempo, comportamento ou inabilidade, espera campistas maus e bons. Sê independente e trabalha em equipas; conhece para cima de 30 nacionalidades, experimenta barreiras de linguagem e faz grandes amigos por todo o mundo, e ganha oportunidades de viajar. Vive longe de casa, desenvolve capacidades de liderança e adiciona uma experiência valiosa para o teu curriculum. Vive um verão de experiências boas, más e feias, espera apenas o pior e abraça o desafio do qual vais gostar. Aprecia e fica grato/a pela oportunidade que surge com a maior complexidade de experiências e realizações que alguma vez terás. No fim serás uma nova pessoa, possivelmente um campista no teu segundo ano". ~ Steve Pringle, July 2005

(tradução livre do texto em inglês, que faz parte da "Camp Anne - Introdução às Actividades para 2006")

“If you are willing to take up a challenge of a life time, involving 24 hours a day, 7 days a week, changing nappies, pushing wheelchairs, lifting campers, giving full assistance to at least one camper from the beginning to the end of a session, regardless of weather, behavior or disability, expect bad and good campers, be independent, work in teams, meet up to 30+ nationalities, experience language barriers, make great friends from all over the world, travel opportunity, live away from home, gain leadership skills, add a bold statement to your C.V., have a summer of experiences, good, bad and ugly, only expect the worst and accept a challenge and you will enjoy it, appreciate and be grateful for the opportunity with the biggest complexion of experiences and achievements you will have. You will leave like a new person, possibly a camper on your second year”.

~ Steve Pringle, July 2005


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Camp Anne é um campo de férias frequentado por adultos e crianças portadoras de grandes deficiências. Normalmente funciona de Junho a Agosto, embora no mês de Setembro receba ainda alguns "campers" (especialmente crianças). É um complexo autosuficiente, desde cozinha própria até cuidados médicos primários, com piscina, um lago, espaços verdes e amplas zonas de laser e convívio.


(Camp Anne – A piscina agora em momentos de descanso...)


Camp Anne é constituída por 8 cabanas, algumas apetrechadas de meios adequados às mais varidas deficiências, onde residem durante duas semanas 112 campers. São tratados, em cada cabana, por um staff de 8 a 15 membros, conforme o grau de deficiência demonstrado, que lhes dão todo o apoio e carinho, proporcionando-lhes umas férias agradáveis, divertidas e, sobretudo, felizes.
Durante o seu período de actividade Camp Anne recebe mais de meio milhar de pessoas com alta e médias deficiências, com idades dos 6 aos 80 anos, dividido em 4 sessões de duas semanas cada.
Os últimos 15 dias destinam-se especialmente a crianças dos 6 aos 12 anos.

Jovens dos mais variados continentes dão, nos seus tempos de férias, a sua contribuição e carinho para que estes deficientes tenham algumas semanas de férias diferentes, com carinho e assistência, no meio da natureza, onde o verde é uma constante, as árvores e as flores uma presença bem agradável, o ar limpo de poluição uma benesse e as águas cristalinas do lago ali perto uma bênção.

(Camp Anne – numa das viagens pelo Lago)

Longe do bulício das grandes cidades em que o betão é a matéria-prima e a altura uma constante, neste local as casas são térreas e a madeira é o elemento de construção por excelência.
Fui apresentado ao que restava do “staff” que ainda não tinha regressado aos seus países e à directora – uma senhora sem idade, sorriso franco e olhar penetrante que transmitia calma mas ao mesmo tempo uma firmeza que eu diria doce!
A azáfama era muita. Estavam nos últimos dias e era necessário arrumar todo o material usado nos meses em que o Campo funcionou em pleno e ao mesmo tempo tratar das três famílias que tinham vindo passar aquele fim-de-semana.

Fiquei aqui só dois dias.

(Camp Anne – Lago; eu a “fingir” que conduzia o barco que leva os “campers” a conhecer os lagos)

A Sónia foi para as suas actividades e eu sentei-me ou a vê-la fazer as suas tarefas (até adormeci no escritório!!!) ou na sala de estar a ver televisão. Quando me senti mais integrado naquele ambiente percorri o Campo sozinho, a pé, de máquina fotográfica na mão, registando imagens que me sensibilizavam e que me interrogavam se, realmente, “aquilo ali” também era a América...

(Camp Anne – o cuidado com as flores e as plantas era mais que evidente)


(...)

Nunca tinha convivido tão de perto com crianças deficientes.
Recordo James, um autista de 8 anos, de olhar doce mas sempre distante, que me chamou a atenção desde o primeiro dia, não só pelo carinho com que todo o pessoal o tratava mas pela forma como ele se desligara do mundo que o rodeava.
Nesse dia resolveu – sem olhar para mim! – agarrar a minha mão e guiar-me, ele próprio, feliz, pelo Campo até que parou junto ao carro que levava os “campers” a passear. Ali tentou, em vão, abrir a porta. Pegou na minha mão e pousou-a no fecho e quase que adivinhei o seu desejo: “abre-me essa porta, quero ir passear!”. Perante a minha passividade e já descontrolado, enfiou as mãos nos bolsos das minhas calças à procura da desejada chave...
Ai! Nunca tinha ouvido um autista chorar e gritar ao mesmo tempo! É de arrepiar o corpo todo! Fui acometido por uma sensação de frustração, de desespero e impotência por não o poder ajudar. Uma criança de 8 anos que nunca me olhou nos olhos! Mas que senti bem o calor da sua mão e a esperança latente no seu coração...
A Sónia, com um sorriso, acudiu em meu auxílio, levou-o pela mão e não sei o que lhe disse, mas conseguiu serená-lo!
Eu fiquei especado no mesmo lugar, sem saber o que fazer, com suores frios a correr-me por todo o corpo, desesperado pela minha impotência. A partir deste momento todo o conceito de mundo, humanidade, sofrimento e do meu poder para enfrentar estas situações sofreu um forte abanão. Senti-me uma rodilha, um zero, uma frustração que doía!
Para meu consolo tenho que acreditar que aquelas crianças trocariam de bom grado a sua cruz por um pouco daquilo que me tornara!

Nessa tarde a directora do Campo levou-nos a visitar uma cidade próxima (Great Barrington), no Estado de Massachussets, onde poderia ter saciado a minha sede de conhecimentos sobre os Índios Americanos. Felizmente as lojas estavam fechadas senão teria sido um desastre para a minha bolsa!
Ofereceu-nos o jantar, num restaurante tailandês e que me soube muito bem... menos a sopa! Mas aí a culpa já foi minha…


(continua)


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Com canções como esta mitiguei saudades que tinha do meu País de sonho...

Zéca Afonso
Vejam Bem
Álbum: “Cantares de Andarilho”
4:07 '
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14 comentários:

  1. É excepcional como contas tudo ao mais ínfimo pormenor. Dá para sentir e visualizar as situações e como te envolveste nelas. Beijos
    P.S.: Noutros países também deviam haver campos desses.

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  2. Conheci o teu blog há algum tempoe só hoje resolvi comentar.
    Tens um dom natural para relatar os acontecimentos vividos que faz com que desejemos que chegue rápido o próximo episódio. Voltarei para saber o resto da viagem.
    Parabéns pelo blog. Com ele já aprendi algumas coisas que desconhecia por completo.
    Um abraço.

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  3. Estou emocionada.
    Obrigado pelo relato pormenorizado.
    A música! Linda demais!
    AAS

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  4. Tenho que vir até cá no fim de semana para ler isto tudo com calma. Tenho andado sem tempo nenhum e vontade de escrever igual a zero. Mas isto melhora. Tem que ser... :) Beijos

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  5. Sylvia Cohin19/10/05 20:37

    Tua viagem tem sido também uma "viagem" para nós, e em certos momentos nos leva bem perto do real através das percepções que transmites com perfeição!
    Um abraço, Sylvia

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  6. Está linda a tua narrativa. Tudo me sensibilizou : não só o local que descreves, como a maneira em que o fazes! Beijos

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  7. Agradeço os vossos comentários e agradeço um salto ao meu primeiro blog:

    http://movimentum.blogs.sapo.pt/

    Gostava da vossa opinião.

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  8. formidavel o post, ze. gostei de ir ate camp anne. as fotos estao formidaves. e aquela a conduzires o barco...

    abraço da leonor

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  9. belos testemnhos desta tua expº nos vais trazendo com um olhar tranquilo e humano.Bom f.s. bjs p/ ti e p/ a Sónia

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  10. Bom.
    Vou dar por encerrado este post e colocar o 3º episódio da minha saga por terras do tio Sam.
    É um problema, realmente, seleccionar as fotos.
    Um bom fim de semana para todos.

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  11. Perdi-me aqui a ler-te. Levaste-me por caminhos de um País, que provavelmente, nunca visitarei.
    Mas, fiquei a conhecê-lo sob o teu olhar sensível e critico. Adorei!!

    Um abraço carinhoso;)

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  12. Estou a continuar a ler os teus textos sobre a visita ao USA. Não me foi possível antes, devido aos diversos afazeres e problemas que me têm afectado.

    Excelente relato este. Dentre tudo o que nos contas, fixei particularmente o teu encontro com essa Criança autista.

    Todo o Ser Humano necessita de Amor e dedicação. Essa Criança deu-nos uma lição de Vida.

    Um Abração,

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  13. Anónimo5/2/07 08:58

    Cool blog, interesting information... Keep it UP » »

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