sexta-feira, 14 de outubro de 2005

América... país de contrastes - Parte 1

Fazer um juízo dos Estados Unidos da América numa escassa semana que por lá passei seria mexer em valores que me marcaram uma vida inteira. As informações que tive deste país foram-me transmitidas pelos “media”, por pessoas que lá fizeram a sua vida ou, simplesmente, por outras que lá estiveram como turistas.
Ajuizar os Estados Unidos pelo seu desempenho e protagonismo a nível mundial nestes últimos anos, seria partir de um pressuposto que nada ajudaria ao meu espírito crítico livre de quaisquer influência, que pretendi levar.
Foi, talvez, por levar uma outra abertura que encontrei uma América diferente e um país de contrastes bem definidos: belo na sua imensidão mas assustador na sua segurança; sereno e bucólico como uma tarde de Outono, mas mesclado com a agitação fora do vulgar das pessoas que passam quase a correr; do vento e da chuva anunciados pelo negrume do céu; do cheiro a verde fresco; dum céu azul, perfumado pelas flores ainda viçosas e de cores garridas; duma Nova Iorque pesada pela imensidão do betão que rompe friamente os céus, que cheira a ozono dos milhões de lâmpadas que tremeluzem em gigantescos “outdoors”.
Foi este o país que decidi visitar de consciência limpa e serena: não é o país dos meus amores, mas nem tudo será tão mau como pintam...
Decidi partir à procura… e fazer o meu próprio juízo!

I – A viagem

Foi uma viagem desgastante. Sentado durante sete longas horas num avião enorme onde o soprar do ar condicionado se confundia com o roncar do meu companheiro do lado e com as hospedeiras, simpáticas, sempre preocupadas com o nosso bem-estar… mas que me acordavam quando já estava embalado pela “música” do meu parceiro!
Ao fim de três longas horas sentado no mesmo lugar, já não havia televisão que me distraísse, nem música que me adormecesse nem livro que me prendesse a atenção. As conversas de circunstância tornavam-se cada vez mais monótonas e sem sentido à medida que o tempo passava.
Chegou aquele momento que já não tinha sítio onde meter as pernas!!! E tive que me levantar, passear pelo corredor, sorrir para a hospedeira que me perguntava se precisava de alguma coisa...
A pouco menos de uma hora de aterrar as hospedeiras distribuíram dois formulários alfandegários que deveriam ser preenchidos e entregues às respectivas autoridades quando desembarcássemos. Depois de verificarem os meus disseram que estava tudo bem… Pois, pois, já vos conto!

II – Aeroporto de Newark (e eu que pensava que era de Nova Iorque!)

No horário previsto estávamos a deslizar na pista numa aterragem suave (suave?!!! suave, sim, só que poucos segundos depois o piloto deve ter descoberto um cão a atravessar a pista e travou a fundo, às quatro rodas! Se não me tivesse agarrado com toda a força ao assento da frente bem ficava com o meu nariz todo esborrachado!!!) que arrancou uma calorosa salva de palmas aos passageiros.
Fiquei sem saber se estavam a felicitar a perícia do piloto, se a nossa chegada sãos e salvos ou aquela travagem súbita de que ninguém estava à espera!
Abandonei o avião e fui seguindo as indicações de saída.
Recebi uma mensagem da Sónia a dizer que estava à minha espera.
Feliz e contente telefonei-lhe logo… mas uma voz agreste troou no meu ouvido a dizer qualquer coisa em inglês, talvez “que fosse conversar com o Camões…”. Mas falar com a Sónia... nada de nada!
Chegado às autoridades alfandegárias fui metido numa fila, direccionada a vários guichets onde os funcionários nos iam recebendo (a minha primeira interrogação em solo americano: será que neste país só os indivíduos de cor e as mulheres é que trabalham?!!!). Saiu-me um funcionário (de cor, claro!) forte, espadaúdo, olhar frio e nada, mas mesmo nada, simpático. Nem um sorriso!
Pegou no meu passaporte e nos formulários que preenchera no avião, olhou para mim ainda mais sério, folheou o passaporte (novinho em folha!), olhou para a fotografia, tornou a olhar para mim, olhou mais uma vez os formulários e disse-me qualquer coisa como “visa” (foi assim que percebi!) …
Olhei-o como se tratasse de um extraterrestre, encolhi os ombros sem perceber nada, fui à carteira e tirei um dos cartões de crédito…
“no, no... visa, visa”, disse-me, sem alterar muito o tom de voz…
Começou então um verdadeiro diálogo de surdos que só terminou com a substituição de um dos formulários por outro em… norueguês!!! (sim, em norueguês! “visum-unntak” – estava isto escrito no cabeçalho do referido formulário e este em norueguês).
Aturdido, fui preenchê-lo ali perto, mas como nada percebia do que lá estava escrito voltei ao guichet e, já com os parafusos a ferver, disse-lhe:
Oh santinho... me, no norueguês, no! I am from Portugal... conheces? Português de Portugal! ... No Norueguês”…
Desta vez o extraterrestre deveria ser eu, pois disse-me um enérgico “write here”, apontando, com o dedo já a tremer, uma linha.
Insisti, como bom português, cidadão do mundo, o mais devagar possível:
I am portuguese... entendes, pá? Portuguese... de Portugal. ... Eusébio, Fado, Amália, Madredeus, Figo…” e mais um rosário de jogadores de futebol de que me lembrei naquela altura!
Hablas español?”, perguntou e parece que foi assim que nos entendemos. Foi então que me tirou fotografias à íris e as impressões digitais numa dedeira electrónica. E tornou a consultar o computador, de novo a minha fotografia, voltou a olhar para mim e disse, já agitado e com uma certa tremura na voz:
Firma aqui!”, e apontou uma linha do formulário norueguês!
Carimbou, então, a página 17 do meu passaporte novinho em folha (virgem, sem nenhuma carimbadela e foi logo escolher a página 17!!!) e lá agrafou parte do referido formulário norueguês.
Fui ao encontro da Sónia, não sem antes ir buscar a bagagem que viajava, pachorrentamente, na passadeira rolante.
Lá fora estava a minha filha, de trancinhas, tal qual a Pocahontas do filme, mas mais linda do que nunca!
Foi aquele abraço apertado e ansiado desde o dia 1 de Maio!



(continua)



Foto da Sónia tirada com o meu telemóvel, sem nunca o ter experimentado a tirar fotografias...


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Com canções como estas mitiguei saudades que tinha do meus País de sonho...

Zéca Afonso
Canção de Embalar
3:59 '
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16 comentários:

  1. é grande a tua filhota. E tem um olhar meigo. Já li a 1ª parte e agora aguardo cheia de curiosidade. Por cá nos vemos. bom f.s Bjs e :)

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  2. No País das "amplas liberdades", pelo que contas, deparaste com grandes boçalidades. Foram negras, poderiam ter sido brancas, não é verdade?

    Espero o próximo relato, entretanto quero saudar a tua Arte de fotografo e a tua Bela e querida Filha.

    Um Abração,

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  3. Sou uma apaixonada pelas suas palavras e pela música que as animam.
    Um abraço e... parabéns pela filhota !

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  4. Ao teu jeito sempre bons textos:) beijos

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  5. Desta vez nem o Figo te valeu! Não há dúvida que o nosso cantinho continua a ser desconhecido...

    Bonita filha para experimentar o telemóvel!

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  6. Atribulações de um português na América!! Beijos e bom fim de semana

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  7. Uma óptima introdução, Zé! Eu imagino a aflição e... irritação!! Logo tu que odeias Inglês.. LOL.. Mas valeu pela recepção! A Sónia estava ali mesmo! :)**

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  8. Uma verdadeira Pocahontas a tua filhota!!
    Bem... depois de ler este relato, já não me apetece viajar... eheh

    Espero agorra pela melhor parte, que sei que vem por aí... ;)

    Um abraço e bom fim de semana :)

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  9. Mais, mais, queremos mais!!!!
    Li com todo o interesse, esboçando sorrisos aqui e ali ao longo do texto... quase consegui sentir a travagem do avião eh eh eh.
    Parabens pela filhota linda.
    AAS

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  10. Emocionei-me,acho que muito...esta canção tem para mim uma história com a minha idade...acho que também lhe devo alguma desta minha capacidade de sonhar...gosto muito dele.Desculpa,acho que hoje estou muito sensível!
    Já cá venho ler o texto!
    abraço
    isabel

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  11. Pronto! Estou rendida... Depois da Canção de Embalar do Zeca só faltava mesmo dizeres que amas de paixão os Coldplay!
    E já agora... gosto (muito) do que e como escreves.
    Abraço
    Maria

    (sabes que não me ocorreu mais cedo colocar o meu nome?!?)

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  12. Quero agradecer todos os vossos comentários.
    Amanhã, dia 18 de Setembro, darei a conhecer a Parte 2 de "América... país de contrastes".
    Espero que gostem
    Um abraço.

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  13. ola ze

    acho fascinantes os relatos de viagem porque e ver com os teus olhos o que provavelmente eu nao veria.

    a sonia é linda. a música também.
    obrigado pelas boas palavras deixasas no meu blog.
    abraço da leonor

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  14. What a great site » » »

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