sábado, 29 de outubro de 2005

América... país de contrastes - Parte 5

VII – Em Nova Iorque
Rapidamente chegamos ao hotel pois a Sónia já conhecia os meandros. A primeira desilusão foi a reserva do hotel que se tinha feito e que não apareceu. Mas mesmo assim arranjaram-nos um quarto… só que se tinham esquecido de fazer as camas e tratar dele!

À terceira tentativa deram-nos um quarto minimamente confortável, à meia-luz (havia falta de lâmpadas ou estas estavam fundidas!), com uma televisão que nem dava pio, mas estávamos cansados demais para reparar nestes pormenores…
Depois de descansarmos um pouco voltamos a sair para dar uma volta pelas redondezas, para situar os locais a visitar no dia seguinte.

Senti-me esmagado pela altura dos arranha-céus, pelos milhares de watts de luz que se transformavam em figuras e mensagens que ganhavam vida, em gigantescos anúncios luminosos, colocados prédio sim, prédio sim.

Fiquei aturdido pela correria dos transeuntes que se deslocavam sem direcção definida, com a amálgama de cores dos táxis amarelos, dos carros particulares e das limousines que atravessavam as largas avenidas ou estavam estacionadas às portas dos hotéis ou das empresas.

Esta era a Nova Iorque que me diziam ser a cidade mais cosmopolita do mundo, onde se cruzavam todas as raças e todos os credos. Mas por mais que procurasse não vi um autóctone bem definido! Passaram por mim rostos dos mais variados tons de pele, chineses, japoneses, indianos, judeus de fato negro e chapéus característicos... e muitas pessoas de ar cansado, triste e olhar vago!

Brancos, tipo europeu, vi muito poucos!

Este belo exemplar de cavalo transportava às costas um polícia...

A polícia estava em toda a parte: no ar, em helicópteros; em terra em carros patrulha, a cavalo, a pé, fardados ou com coletes amarelos; havia ainda aqueles que se passeavam pelos passeios com cães de ar feroz pela trela, farejando tudo à sua volta.

Nas poucas lojas que visitei, restaurantes, cafés (ou equivalentes a isso), locais públicos, empresas, museus e até no Metro reparei que as pessoas que trabalhavam eram de cor ou mulheres…

Regressamos ao hotel.

Um “ping-ping” constante no quarto de banho alertou-nos que as torneiras da banheira não vedavam. Tentamos fechar melhor a porta mas esta estava empenada. Cansados como estávamos, acredito, até foi música para os nossos ouvidos. “No dia seguinte faríamos a reclamação” – dissemos um ao outro – “Agora vamos dormir, que estou perdido de sono!”

Foi o que fizemos no dia seguinte, mesmo antes de ir tomar o pequeno-almoço: prometeram – mais uma vez! - que quando chegássemos estaria tudo resolvido.


Em primeiro plano, amigos da Sónia e companheiros de Camp Anne.

Fomos ver os bastidores do Rei Leão – The Lion King - (no “Amesterdam Theatre” onde está em exibição esta peça) e durante um bom par de horas uma simpática senhora explicou (em inglês, claro!!!) como era feito teatralmente o espectáculo, como se movimentavam os actores, como faziam os jogos dos cenários, mostrou as máscaras que os actores usavam, e descreveu a história daquele teatro desde a sua inauguração até aos dias de hoje.

Esta foto foi autorizada. A Sónia com a máscara da Leoa Nala.

A Sónia começou a fotografar e foi logo repreendido por uma “simpática mulatinha” que a impediu de tirar fotos!!! Eu, armado em parvo e convencido do meu poder de persuasão, ainda lhe pedi – entre gestos e esgares, numa linguagem que julguei universal! - para tirar “uma” só foto!
Pois!!! Fia-te na virgem e não corras!!!
Não me ligou p-a-t-a-v-i-n-a!


Demos um salto ao Museu de Cera de Madame Toussauds onde posamos com quase todos os famosos que lá encontramos.

Claro, não podia deixar de ser fotografado ao lado de um grande chefe índio, vestido a rigor e com olhos muito tristes e expressão carregada. Ainda me disse que aquela história da venda de terras aos brancos em 1854, no tratado assinado pelo chefe Seatle e o presidente dos EUA Franklin Pierce, era uma grande espinha que lhe estava atravancada na garganta...

... e foi sobre isso que conversei com a Whoopi Goldberg... mas em linguagem gestual!

De regresso ao hotel verificámos que tudo estava como antes: nem sequer as camas tinham sido feitas quanto mais arranjar as torneiras do quarto de banho! Agora, quando se abria a porta, o quarto de banho parecia mesmo um salão de sauna!!!

Mais uma vez a Sónia alertou a recepção para a situação caótica em que estava o quarto. Registaram a ocorrência e disseram que iam já tratar do assunto. Quando regressássemos tudo estaria arranjado.

Metemo-nos no Metro desta vez para visitar o Museu de História Natural. A meio desistimos dos projectos de visita a outros museus, especialmente o dos Índios Americanos, pois estávamos a ficar sem tempo.

Manadas (?!!!) de bisontes... apenas no Museu...


Já cansados, ao fim de algumas horas, resolvemos voltar ao calor do Metro e deste para o hotel para descansar um pouco antes de irmos ao teatro ver “O Fantasma da Ópera”.

A Sónia recebeu um amigo e eu tratei de descobrir um banco que me trocasse euros por dólares para tentar satisfazer o “vício” da Net. Dólares arranjar, arranjei mas, em todos os pontos da Net que encontrei, não me quizeram fazer o troco para ir matar o vício!

A Sónia regressou e, depois de um rápido jantar, fomos ver o “Fantasma da Ópera”… num teatro lindo, quase cheio de pessoas interessadas na peça. As arrumadoras corriam numa azáfama a distribuir as pessoas pelos lugares… e o espectáculo começou!

Quem, como eu, já vira a ópera no cinema sente que esta, mesmo ao vivo, perde toda a espectacularidade que o filme consegue transmitir. Ah! Além disso, aqui não tinham legendas!...

De regresso ao hotel voltámos ao mesmo filme: nem as camas estavam feitas nem as torneiras do quarto de banho arranjadas!

Desta vez passamo-nos!...
Mudamos de quarto ainda mais duas vezes, até acertar com um que tinha uma luz decente, as tomadas nos devidos lugares, a água não pingava no quarto de banho e, pasme-se!, uma televisão que funcionava!!! (até a tomada serviu para carregarmos os telemóveis!!!).

Havia que recuperar forças. O dia seguinte adivinhava-se muito longo e duro!


(continua)



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Com canções como esta mitiguei saudades que tinha do meu País de sonho...

Francisco Fanhais

Cantata da Paz
Álbum: “Dedicatória”
4:38 '
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segunda-feira, 24 de outubro de 2005

América... país de contrastes - Parte 4

VI – À descoberta das Cataratas de Niagara

Acordamos por volta das 10,30 horas e, depois de um ligeiro pequeno-almoço, fomos para as cataratas.




Estava um dia de sol, quente, com um céu bonito e pouco vento. Um tempo muito diferente do dia anterior.

Fizemos um passeio pelo rio que separa os Estados Unidos do Canadá e, vestidos com uma capa de plástico azul, embarcamos num barco (Maid of the Mist) que nos levou a ver as quedas de água, mesmo onde elas caem no Rio Niagara.

Apanhámos com a água fustigada pelo vento provocado pelas quedas. O espectáculo era ao mesmo tempo aterrador e belo, com o rugido das quedas de água a troar à nossa volta.



As máquinas fotográficas não cessaram de captar aqueles momentos mágicos da força da natureza... e não só!


Mais tarde e depois de almoçar num lugar muito simpático (já não comia cachorro quente há muitos anos!), tivemos por companhia um simpático par de pássaros (não sei se americanos ou canadianos) mas só este teve a coragem de posar para a fotografia.

Voltamos às Cataratas, desta vez para fazer o percurso a pé, nas escarpas onde caía a água (Cave of the Winds). Protegidos com um impermeável amarelo e umas sandálias fornecidas pela entidade exploradora, integramos um dos grupos “exploradores”.


Os mais atrevidos (entre eles a Sónia!) estiveram a poucos metros das quedas de água e, encharcados até aos ossos, não deixaram de registar aqueles momentos em que a água que caía, soprada pelo vento, os molhava. A Sónia apresentou este ar irreal...

Ah! Descobri os mais lindos arco-íris e registei-os. Deixo-vos com alguns deles...

Até descobri onde eles começam e acabam...

Regressámos ao hotel relativamente cedo. A “aventura” derrotou-me fisicamente.
No dia seguinte tínhamos mais de 6 horas de condução até à agência que nos alugara o carro, ir depois a Camp Anne buscar as malas, viajar e fixar arraiais em Nova Iorque. Era necessário deitar cedo para nos levantarmos de “madrugada”!

Levantámo-nos noite ainda e fizemo-nos à estrada… a tempo de ver o Sol nascer com os seus efeitos de luz e cor.


A viagem foi menos cansativa, para isso bastou que o dia estivesse sem chuva e sem nuvens.
Chegamos a horas de entregar o carro e ainda nos levarem a Camp Anne. Aí pegamos as malas e despedirmo-nos da meia dúzia de pessoas que ficaram.
Enquanto a Sónia falava com os amigos repararei no silêncio que começava a cair nesta época, com a natureza a acalmar, enquanto uma leve brisa abanava as árvores, as folhas caídas rolavam pelo chão perfumando o ar com um aroma de verde arrancado à relva que mal se mexia… Parecia que tudo à minha volta começava a adormecer!...
Já não ouvia o grasnar das rãs, dos patos, nem o chilrear das aves!
A Sónia arranjou uma boleia até ao comboio. Este não era tão confortável como o primeiro, e sem ar condicionado que nos refrescasse.
Fomos informados que o ar condicionado estava avariado naquela carruagem...

Chegamos à Estação Central (Grand Central) e tivemos que descer até ao Metro: estava um calor que sufocava!
Embarcamos nele e saímos próximo do hotel.



(continua)



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Com canções como esta mitiguei saudades que tinha do meu País de sonho...

Zéca Afonso
Maio Maduro Maio
Álbum: “Cantigas do Maio”
4:07 '
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sexta-feira, 21 de outubro de 2005

América... país de contrastes - Parte 3

V – Cataratas de Niagara

No dia seguinte ao meio-dia levaram-nos a Hudson (uma vila próxima), onde fomos alugar um carro. Depois de cumpridas as formalidades necessárias na agência de aluguer de automóveis, com a Sónia a conduzir e eu a servir de pendura, lá nos metemos à auto-estrada dispostos a aguentar estoicamente as quase seis horas de caminho que tínhamos à nossa frente.


A viagem começou com o vento a puxar chuva. Um pingo aqui, uma gota mais forte acolá, um céu com nuvens carregadas lembrando que por ali perto andavam as franjas do furacão “Rita”.


O céu foi-se toldando à medida que os quilómetros corriam… De repente, como que ao dobrar uma esquina, uma autêntica cortina de água apareceu à nossa frente… e uma chuva medonha começou a cair forte, fortíssima, com rajadas de vento à mistura!


Apesar das escovas do limpa-vidros estarem a funcionar na velocidade máxima, a visibilidade era zero…


Mais adiante a chuva começou a reduzir de intensidade, à medida que as nuvens que corriam no céu se tornavam menos negras e o azul anunciava a sua paragem breve.
Ahhh, como esta água nos teria feito tanto jeito neste ano em que quase nada choveu neste país à beira mar plantado! Cheirei, com uma grande pontinha de inveja, aquele odor a erva recentemente molhada… árvores viçosas com folhas matizadas estendiam-se diante dos meus olhos até as perder de vista! Um verde que combinava com os mais variados tons de azul que tingiam os rios e os lagos, reflectindo as nuvens que passeavam, apressadas, pelo céu…
A floresta densa, ao fundo; em primeiro plano os campos com cicatrizes de colheitas recentes, onde bandos de pássaros faziam voos rasantes ou alguns outros passarões planavam em toda a grandeza as suas asas abertas, pesquisando o petisco de fim de tarde.
Chegamos ao hotel era já noite cerrada.
As estrelas brilhavam, num céu recentemente lavado, como se fossem pedaços de safiras acabadas de polir.Depois de um jantar rápido fomos ver as Cataratas à noite, magníficas, mágicas, imponentes no ruído que faziam ao precipitarem-se no abismo iluminado pela mais variada gama de cores, posando para as câmaras dos fotógrafos de todas as nacionalidades.

Cataratas do Niagara - Um espectáculo de luz artificial e som natural - foto Sónia Gomes

Estava cansado demais. A Sónia bem queria ficar mais tempo...
Regressamos ao hotel e nem me lembro de cair na cama! Adormeci que nem um justo...
O pior foi no dia seguinte. Acordei 5 horas mais cedo do que devia e virei um papagaio, enquanto a Sónia me pedia que me calasse e a deixasse dormir…



(continua)

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Com canções como esta mitiguei saudades que tinha do meu País de sonho...

Zéca Afonso
Maio Maduro Maio
Álbum: “Cantigas do Maio”
4:07 '
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terça-feira, 18 de outubro de 2005

América... país de contrastes - Parte 2

III – Até Camp Anne

Do aeroporto fomos de camioneta até à Estação Central (Grand Central) no centro de Nova Iorque. Aqui as pessoas pareciam eléctricas, a correrem em todas as direcções. Olhei a majestosa e bonita abóbada da estação e lamentei a enorme bandeira lá dependurada que me limitou a possibilidade de a fotografar em todo o seu esplendor.
Há medida que descíamos para a estação de comboios o calor tornava-se sufocante. Entramos num comboio confortável, com o ar condicionado a funcionar em pleno... e que fresquinho estava lá dentro!
Um simpático canzarrão deitou-se no chão dos bancos ao lado do meu, lambeu as mãos aos donos e olhou para mim com cara de poucos amigos mas ao encarar a Sónia foi todo meiguices!!!
Duas horas depois e mais uma mudança de comboio, paramos na estação mais próxima de Camp Anne.
Pouco depois chegava uma carrinha conduzida pelo Joe, um condutor todo sorridente que nos levou ao nosso destino. Durante a viagem foi um palrar constante entre ele e a Sónia na língua de “tio Sam” e como não compreendia nada, fui-me deleitando a observar o céu (a lua nesse dia estava enorme, particularmente bonita!), as casas, os campos, o cheiro das árvores, da própria relva, o cacarejar das aves, o grasnar das rãs e dos gansos que se banhavam nas águas do lago mesmo ali ao lado.
Meia hora depois chegávamos ao nosso destino.

(Camp Anne – Vista de um dos pavilhões)

IV – Camp Anne

"Se estás disposto/a a enfrentar um desafio da vida, envolvendo 24 horas por dia, 7 dias por semana, mudando fraldas, empurrando cadeiras de rodas, transferindo campistas com a tua força, dando todo o auxílio a pelo menos um campista do começo ao fim de uma sessão, não obstante as condições de tempo, comportamento ou inabilidade, espera campistas maus e bons. Sê independente e trabalha em equipas; conhece para cima de 30 nacionalidades, experimenta barreiras de linguagem e faz grandes amigos por todo o mundo, e ganha oportunidades de viajar. Vive longe de casa, desenvolve capacidades de liderança e adiciona uma experiência valiosa para o teu curriculum. Vive um verão de experiências boas, más e feias, espera apenas o pior e abraça o desafio do qual vais gostar. Aprecia e fica grato/a pela oportunidade que surge com a maior complexidade de experiências e realizações que alguma vez terás. No fim serás uma nova pessoa, possivelmente um campista no teu segundo ano". ~ Steve Pringle, July 2005

(tradução livre do texto em inglês, que faz parte da "Camp Anne - Introdução às Actividades para 2006")

“If you are willing to take up a challenge of a life time, involving 24 hours a day, 7 days a week, changing nappies, pushing wheelchairs, lifting campers, giving full assistance to at least one camper from the beginning to the end of a session, regardless of weather, behavior or disability, expect bad and good campers, be independent, work in teams, meet up to 30+ nationalities, experience language barriers, make great friends from all over the world, travel opportunity, live away from home, gain leadership skills, add a bold statement to your C.V., have a summer of experiences, good, bad and ugly, only expect the worst and accept a challenge and you will enjoy it, appreciate and be grateful for the opportunity with the biggest complexion of experiences and achievements you will have. You will leave like a new person, possibly a camper on your second year”.

~ Steve Pringle, July 2005


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Camp Anne é um campo de férias frequentado por adultos e crianças portadoras de grandes deficiências. Normalmente funciona de Junho a Agosto, embora no mês de Setembro receba ainda alguns "campers" (especialmente crianças). É um complexo autosuficiente, desde cozinha própria até cuidados médicos primários, com piscina, um lago, espaços verdes e amplas zonas de laser e convívio.


(Camp Anne – A piscina agora em momentos de descanso...)


Camp Anne é constituída por 8 cabanas, algumas apetrechadas de meios adequados às mais varidas deficiências, onde residem durante duas semanas 112 campers. São tratados, em cada cabana, por um staff de 8 a 15 membros, conforme o grau de deficiência demonstrado, que lhes dão todo o apoio e carinho, proporcionando-lhes umas férias agradáveis, divertidas e, sobretudo, felizes.
Durante o seu período de actividade Camp Anne recebe mais de meio milhar de pessoas com alta e médias deficiências, com idades dos 6 aos 80 anos, dividido em 4 sessões de duas semanas cada.
Os últimos 15 dias destinam-se especialmente a crianças dos 6 aos 12 anos.

Jovens dos mais variados continentes dão, nos seus tempos de férias, a sua contribuição e carinho para que estes deficientes tenham algumas semanas de férias diferentes, com carinho e assistência, no meio da natureza, onde o verde é uma constante, as árvores e as flores uma presença bem agradável, o ar limpo de poluição uma benesse e as águas cristalinas do lago ali perto uma bênção.

(Camp Anne – numa das viagens pelo Lago)

Longe do bulício das grandes cidades em que o betão é a matéria-prima e a altura uma constante, neste local as casas são térreas e a madeira é o elemento de construção por excelência.
Fui apresentado ao que restava do “staff” que ainda não tinha regressado aos seus países e à directora – uma senhora sem idade, sorriso franco e olhar penetrante que transmitia calma mas ao mesmo tempo uma firmeza que eu diria doce!
A azáfama era muita. Estavam nos últimos dias e era necessário arrumar todo o material usado nos meses em que o Campo funcionou em pleno e ao mesmo tempo tratar das três famílias que tinham vindo passar aquele fim-de-semana.

Fiquei aqui só dois dias.

(Camp Anne – Lago; eu a “fingir” que conduzia o barco que leva os “campers” a conhecer os lagos)

A Sónia foi para as suas actividades e eu sentei-me ou a vê-la fazer as suas tarefas (até adormeci no escritório!!!) ou na sala de estar a ver televisão. Quando me senti mais integrado naquele ambiente percorri o Campo sozinho, a pé, de máquina fotográfica na mão, registando imagens que me sensibilizavam e que me interrogavam se, realmente, “aquilo ali” também era a América...

(Camp Anne – o cuidado com as flores e as plantas era mais que evidente)


(...)

Nunca tinha convivido tão de perto com crianças deficientes.
Recordo James, um autista de 8 anos, de olhar doce mas sempre distante, que me chamou a atenção desde o primeiro dia, não só pelo carinho com que todo o pessoal o tratava mas pela forma como ele se desligara do mundo que o rodeava.
Nesse dia resolveu – sem olhar para mim! – agarrar a minha mão e guiar-me, ele próprio, feliz, pelo Campo até que parou junto ao carro que levava os “campers” a passear. Ali tentou, em vão, abrir a porta. Pegou na minha mão e pousou-a no fecho e quase que adivinhei o seu desejo: “abre-me essa porta, quero ir passear!”. Perante a minha passividade e já descontrolado, enfiou as mãos nos bolsos das minhas calças à procura da desejada chave...
Ai! Nunca tinha ouvido um autista chorar e gritar ao mesmo tempo! É de arrepiar o corpo todo! Fui acometido por uma sensação de frustração, de desespero e impotência por não o poder ajudar. Uma criança de 8 anos que nunca me olhou nos olhos! Mas que senti bem o calor da sua mão e a esperança latente no seu coração...
A Sónia, com um sorriso, acudiu em meu auxílio, levou-o pela mão e não sei o que lhe disse, mas conseguiu serená-lo!
Eu fiquei especado no mesmo lugar, sem saber o que fazer, com suores frios a correr-me por todo o corpo, desesperado pela minha impotência. A partir deste momento todo o conceito de mundo, humanidade, sofrimento e do meu poder para enfrentar estas situações sofreu um forte abanão. Senti-me uma rodilha, um zero, uma frustração que doía!
Para meu consolo tenho que acreditar que aquelas crianças trocariam de bom grado a sua cruz por um pouco daquilo que me tornara!

Nessa tarde a directora do Campo levou-nos a visitar uma cidade próxima (Great Barrington), no Estado de Massachussets, onde poderia ter saciado a minha sede de conhecimentos sobre os Índios Americanos. Felizmente as lojas estavam fechadas senão teria sido um desastre para a minha bolsa!
Ofereceu-nos o jantar, num restaurante tailandês e que me soube muito bem... menos a sopa! Mas aí a culpa já foi minha…


(continua)


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Com canções como esta mitiguei saudades que tinha do meu País de sonho...

Zéca Afonso
Vejam Bem
Álbum: “Cantares de Andarilho”
4:07 '
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sexta-feira, 14 de outubro de 2005

América... país de contrastes - Parte 1

Fazer um juízo dos Estados Unidos da América numa escassa semana que por lá passei seria mexer em valores que me marcaram uma vida inteira. As informações que tive deste país foram-me transmitidas pelos “media”, por pessoas que lá fizeram a sua vida ou, simplesmente, por outras que lá estiveram como turistas.
Ajuizar os Estados Unidos pelo seu desempenho e protagonismo a nível mundial nestes últimos anos, seria partir de um pressuposto que nada ajudaria ao meu espírito crítico livre de quaisquer influência, que pretendi levar.
Foi, talvez, por levar uma outra abertura que encontrei uma América diferente e um país de contrastes bem definidos: belo na sua imensidão mas assustador na sua segurança; sereno e bucólico como uma tarde de Outono, mas mesclado com a agitação fora do vulgar das pessoas que passam quase a correr; do vento e da chuva anunciados pelo negrume do céu; do cheiro a verde fresco; dum céu azul, perfumado pelas flores ainda viçosas e de cores garridas; duma Nova Iorque pesada pela imensidão do betão que rompe friamente os céus, que cheira a ozono dos milhões de lâmpadas que tremeluzem em gigantescos “outdoors”.
Foi este o país que decidi visitar de consciência limpa e serena: não é o país dos meus amores, mas nem tudo será tão mau como pintam...
Decidi partir à procura… e fazer o meu próprio juízo!

I – A viagem

Foi uma viagem desgastante. Sentado durante sete longas horas num avião enorme onde o soprar do ar condicionado se confundia com o roncar do meu companheiro do lado e com as hospedeiras, simpáticas, sempre preocupadas com o nosso bem-estar… mas que me acordavam quando já estava embalado pela “música” do meu parceiro!
Ao fim de três longas horas sentado no mesmo lugar, já não havia televisão que me distraísse, nem música que me adormecesse nem livro que me prendesse a atenção. As conversas de circunstância tornavam-se cada vez mais monótonas e sem sentido à medida que o tempo passava.
Chegou aquele momento que já não tinha sítio onde meter as pernas!!! E tive que me levantar, passear pelo corredor, sorrir para a hospedeira que me perguntava se precisava de alguma coisa...
A pouco menos de uma hora de aterrar as hospedeiras distribuíram dois formulários alfandegários que deveriam ser preenchidos e entregues às respectivas autoridades quando desembarcássemos. Depois de verificarem os meus disseram que estava tudo bem… Pois, pois, já vos conto!

II – Aeroporto de Newark (e eu que pensava que era de Nova Iorque!)

No horário previsto estávamos a deslizar na pista numa aterragem suave (suave?!!! suave, sim, só que poucos segundos depois o piloto deve ter descoberto um cão a atravessar a pista e travou a fundo, às quatro rodas! Se não me tivesse agarrado com toda a força ao assento da frente bem ficava com o meu nariz todo esborrachado!!!) que arrancou uma calorosa salva de palmas aos passageiros.
Fiquei sem saber se estavam a felicitar a perícia do piloto, se a nossa chegada sãos e salvos ou aquela travagem súbita de que ninguém estava à espera!
Abandonei o avião e fui seguindo as indicações de saída.
Recebi uma mensagem da Sónia a dizer que estava à minha espera.
Feliz e contente telefonei-lhe logo… mas uma voz agreste troou no meu ouvido a dizer qualquer coisa em inglês, talvez “que fosse conversar com o Camões…”. Mas falar com a Sónia... nada de nada!
Chegado às autoridades alfandegárias fui metido numa fila, direccionada a vários guichets onde os funcionários nos iam recebendo (a minha primeira interrogação em solo americano: será que neste país só os indivíduos de cor e as mulheres é que trabalham?!!!). Saiu-me um funcionário (de cor, claro!) forte, espadaúdo, olhar frio e nada, mas mesmo nada, simpático. Nem um sorriso!
Pegou no meu passaporte e nos formulários que preenchera no avião, olhou para mim ainda mais sério, folheou o passaporte (novinho em folha!), olhou para a fotografia, tornou a olhar para mim, olhou mais uma vez os formulários e disse-me qualquer coisa como “visa” (foi assim que percebi!) …
Olhei-o como se tratasse de um extraterrestre, encolhi os ombros sem perceber nada, fui à carteira e tirei um dos cartões de crédito…
“no, no... visa, visa”, disse-me, sem alterar muito o tom de voz…
Começou então um verdadeiro diálogo de surdos que só terminou com a substituição de um dos formulários por outro em… norueguês!!! (sim, em norueguês! “visum-unntak” – estava isto escrito no cabeçalho do referido formulário e este em norueguês).
Aturdido, fui preenchê-lo ali perto, mas como nada percebia do que lá estava escrito voltei ao guichet e, já com os parafusos a ferver, disse-lhe:
Oh santinho... me, no norueguês, no! I am from Portugal... conheces? Português de Portugal! ... No Norueguês”…
Desta vez o extraterrestre deveria ser eu, pois disse-me um enérgico “write here”, apontando, com o dedo já a tremer, uma linha.
Insisti, como bom português, cidadão do mundo, o mais devagar possível:
I am portuguese... entendes, pá? Portuguese... de Portugal. ... Eusébio, Fado, Amália, Madredeus, Figo…” e mais um rosário de jogadores de futebol de que me lembrei naquela altura!
Hablas español?”, perguntou e parece que foi assim que nos entendemos. Foi então que me tirou fotografias à íris e as impressões digitais numa dedeira electrónica. E tornou a consultar o computador, de novo a minha fotografia, voltou a olhar para mim e disse, já agitado e com uma certa tremura na voz:
Firma aqui!”, e apontou uma linha do formulário norueguês!
Carimbou, então, a página 17 do meu passaporte novinho em folha (virgem, sem nenhuma carimbadela e foi logo escolher a página 17!!!) e lá agrafou parte do referido formulário norueguês.
Fui ao encontro da Sónia, não sem antes ir buscar a bagagem que viajava, pachorrentamente, na passadeira rolante.
Lá fora estava a minha filha, de trancinhas, tal qual a Pocahontas do filme, mas mais linda do que nunca!
Foi aquele abraço apertado e ansiado desde o dia 1 de Maio!



(continua)



Foto da Sónia tirada com o meu telemóvel, sem nunca o ter experimentado a tirar fotografias...


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Com canções como estas mitiguei saudades que tinha do meus País de sonho...

Zéca Afonso
Canção de Embalar
3:59 '
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segunda-feira, 10 de outubro de 2005

Ao jeito de desculpa...

Em busca do arco-íris... Foto José Gomes


Hoje é mais que tempo de mudar este post que jaz aqui há tempo demais!

Sem inspiração... (as minhas musas estão a pouco e pouco abandonando-me!).

Sem vontade... cada vez me dá mais na gana de deixar esta coisa!

Sem paciência... olhar para esta máquina horrorosa dá-me vontade de parti-la!

Desesperado... olhar lá para fora, ver o céu toldado, carregado, pesado e... chover: nada mais que pingas!

Ainda tive esperanças da visita do furacão, mas com o resultado das eleições, desfez-se no mar, cheio de vergonha!!!

Terminei de escrever a minha aventura! Mas ao ver que tinha escrito 7 páginas em A4!!!, sem imagens, deu-me cá uma coisa...!
Não sei o que devo fazer!!! Que a chuva me ilumine o caminho...

Para alguém que perdi nesta Net sem princípio nem fim lembrei-me de Richard Bach e do livro "A Ponte para a Eternidade":

"Se nos apegarmos demasiado às coisas e às pessoas, quando as perdemos, não perdemos uma parte de nós? Melhor será agarrarmo-nos a "pensamentos para sempre" em vez de nos entregarmos àquilo que está aqui e agora e que, um instante depois, pode desaparecer."


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"Canto de Amor e Trabalho"
Banda do Casaco
Álbum: Coisas do arco da velha
Faixa 06
5:51 - vale a pena ouvir do princípio ao fim!
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segunda-feira, 3 de outubro de 2005

DE VOLTA...


















"Continuando à procura do arco íris..." - José Gomes


Meus amigos,
Depois de uma viagem que me pareceu uma eternidade (pudera, amarrado à cadeira do avião por causa das turbulências sobre o Atlântico...) e sem conseguir pregar olho, aterrei em Lisboa, ontem, 1 de Outubro, pelas 6 horas da madrugada.
Às 8 horas embarcava noutro avião que me levou até ao aeroporto de Pedras Rubras, na Maia (que raio, o aeroporto do Porto está situado na freguesia de Pedras Rubras, na Maia!!!!).
Ao entrar em casa é que se manifestou o sono e o cansaço de uma semana mal dormida e em constante correria desde as Cataratas do Niagara até Nova Iorque...
Mas isto será assunto para outra história...
É um prazer estar com todos vós.
Um abraço.
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Deixei-me ficar com "What a wonderful world" cantada por Louis Armstrong... que me acompanha sempre na busca do Arco Íris.
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José Gomes