sábado, 17 de setembro de 2005

SETEMBRO



Setembro
(para que a Humanidade não esqueça)


CHILE:

11 de Setembro 1973











Os militares chefiados pelo general Pinochet derrubaram o Governo de Unidade Nacional de Salvador Allende. Este morreu durante o golpe, na defesa do palácio presidencial. Após a sua morte, o regime democrático foi extinto e o país sofreu um terrível banho de sangue. A ditadura de Pinochet durou 16 longos anos.

(Salvador Allende e Pablo Neruda)


17 de Setembro 1973


(Victor Jara)



Na manhã do dia 11 de Setembro de 1973 Victor Jara, tendo tido conhecimento do golpe militar, dirigiu-se para a Universidade Técnica para se juntar aos estudantes e professores que iriam resistir ao golpe de Pinochet.
O Campus foi cercado por tropas do exército. A madrugada foi de terror, ouviam-se tiros e explosões por todos os lados. Os que tentaram escapar do cerco foram abatidos. Victor Jara procurou elevar a moral dos sitiados usando a sua melhor arma: o canto!
Na manhã do dia 12 de Setembro os tanques atacaram a universidade. Depois de uma luta desigual, os resistentes renderem-se. Reunidos no pátio, foram forçados a se deitarem no chão com as mãos na cabeça e começaram a ser espancados.
Foram levados para o Estádio do Chile, transformado em campo de concentração.
Victor Jara foi reconhecido por um oficial que lhe disse:
- Você é aquele maldito cantor, não é?
Antes que pudesse responder foi barbaramente agredido e conduzido para um local do estádio onde estavam os militantes mais “perigosos”.
Foi novamente espancado e torturado. Quando o levaram para as arquibancadas o seu rosto estava todo ensanguentado e mal podia andar ou falar.
Muitos dos prisioneiros tinham surtos de loucura, tentavam escapar e eram executados. Outros, simplesmente, suicidavam-se!
No dia 14 de Setembro, os prisioneiros começaram a ser transferidos. Victor pressentindo que aqueles seriam os seus últimos momentos, pediu papel e caneta e naquele inferno escreveu o seu derradeiro poema:

Somos cinco mil
nesta parte da cidade.
Somos cinco mil.
Quantos seremos no total
nas cidades e em todo o país?
Somente aqui, dez mil mãos que semeiam
e fazem andar as fábricas.
Quanta humanidade
com fome, frio, pânico, dor,
pressão moral, terror e loucura!...
Que espanto causa o rosto do fascismo!...
É este o mundo que criaste, meu Deus?
Foi para isto os teus sete dias de assombro e de trabalho?

Mal acabou de escrever vieram buscá-lo. Os seus companheiros conseguiram ainda salvar este derradeiro poema de Victor Jara.
Foi novamente espancado e um oficial gritou-lhe várias vezes:
- Canta agora, se puderes, seu filho da puta!
Victor Jara, quase já sem vida, reuniu as suas últimas forças e cantou a estrofe do hino da Unidade Popular: "Venceremos!".
Foi brutalmente agredido, quebraram-lhe as mãos e arrastaram-no para os portões do Estádio.
Esta foi a última vez que o viram.

Dois dias depois, seis corpos desfigurados e baleados foram encontrados na periferia da cidade.

Um deles, perfurado por 44 balas e múltiplas fracturas dos punhos, era o do professor, compositor, cantor e director de teatro Victor Jara.


23 de Setembro 1973








“... Deixa que o vento corra, coroado de espuma, que me chame e me busque galopando na sombra, enquanto eu, mergulhado nos teus imensos olhos, nesta noite imensa, descansarei, meu amor..."

Pablo Neruda



Pablo Neruda, foi prémio Nobel de Literatura em 1971.
Foi um romântico e um revolucionário que cantou as angústias da Espanha de 1936 e a condição dos povos latino-americanos e seus movimentos libertários.
Foi cônsul em Espanha e no México de 1934 a 1938. Desenvolveu intensa vida pública entre 1921 e 1940, tendo escrito durante este período várias obras.
Foi indicado para a Presidência da República do Chile em 1969 e veio a renunciar em favor de Salvador Allende.
Participou na campanha deste e, eleito Allende, foi nomeado embaixador do Chile em França.
Outras obras do autor foram lançadas, tendo ganho o prémio Nobel de Literatura em 1971 com o livro “Confesso que vivi".

Morreu a 23 de Setembro de 1973 em Santiago do Chile, doze dias após a queda do Governo de Unidade Popular e da morte de Salvador Allende.



Homenagem ao Povo do Chile

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.
(...)

José Carlos Ary dos Santos
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"Canto Libre"
Canta Victor Jara
4:54
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José Gomes

12 comentários:

  1. A bem da Humaniade é bom que nada disto se esqueça. bjs

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  2. Companheiro,

    Subscrevo inteiramente este teu trabalho de denúncia e revolta. Infelizmente as pessoas têm a memória curta e como tal é tarefa de um punhado de resistentes como nós abana-las para que despertem do torpor em que se encontram.

    Um Abraço,

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  3. "Foram não sei quantos mil
    operários trabalhadores
    mulheres ardinas pedreiros
    jovens poetas cantores
    camponeses e mineiros
    foram não sei quantos mil
    que tombaram pelo Chile
    morrendo de corpo inteiro."

    Senti-te a emoção ao leres este Poema de Ary dos Santos no Flor de Infesta.

    Senti a emoção genuina de quem se preocupa de uma forma verdadeira, com as atrocidades que se cometem no mundo.

    Estou-te grata por esta partilha.
    Estou-te grata, porque o Mundo não deve esquecer, mas que não permita que se voltem a repetir.

    Um abraço e bom fim de semana :)

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  4. Nada disto deve caír no esquecimento. São licões a aprender!

    Um abraço.

    Leonor

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  5. vinte valores ze. nota máxima. melhor seria impossível. ainda bem que existes na blogsfera a lembrar coisas realmente importantes.
    abraço da leonor

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  6. Achei lindo alguém lembrar-se de de Victor Jarra!
    Na minha adolescência ouvia vezes sem conta os LP's de vinil que guardo religiosamente. Vou agora rebuscar as minhas memórias.
    Achei lindo alguém lembrar-se de de Victor Jarra!
    E de Salvador Allende!
    E de Pablo Neruda!
    E do Chile!
    E venceremos com as armas que temos na mão...

    M

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  7. Parece que estou gaga! de de de de... Sorry.

    M

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  8. Tantas atrocidades se cometem por este mundo fora. Sensibilizada pela tua força de dor e revolta quando leste o poema em S. Mamede, te digo, aqui e agora, bem hajas Zé pela partilha. Um bjo e uma boa semana para vocês

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  9. Zé,
    quando por aqui passei, já to disse,quis deixar uma mensagem, mas
    na altura, foi impossível.Deixáste-me tão emocionada, que as lágrimas não me deixavam ver nada! (imagina como estou a ficar velha!!! eu a chorar e a admiti-lo...
    Por isso, regresso agora, com esta homenagem ao teu belíssimo trabalho
    em forma de pequeno poema, que pretende somente ser um lamento.

    COMO SE FOSSE...

    Não sei que penas se sofrem no longe do espaço e do tempo,
    Não sei!
    Sei apenas que doi no peito a fúria da revolta
    como se fosse comigo;
    que doi na carne a fúria do verdugo,
    como se fosse em mim...
    que doi na alma o cansaço da luta,
    a solidão, o medo
    e outra vez a revolta e a queda final
    como se fosse a minha!
    Doem, cá dentro esses "não sei quantos mil"
    embrulhados em terra
    aureolados de raiva
    desfigurados pela dor
    mas nunca, nunca vencidos
    que só a carne é que morre!...


    Maria Mamede


    Parabéns Zé! Bom trabalho!!!

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  10. Enjoyed a lot! »

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