domingo, 11 de setembro de 2005

Lembrando Victor Jara...

11 de Setembro de 1973

Lembrando Victor Jara


CANTO PARA AS MÃOS PARTIDAS DE VICTOR JARA
(Pedro Tierra)

Quisera chorar teus dedos dilacerados:
raízes do meu canto subterrâneo.

Quisera chamar-te “Hermano”
como a infância dos rios
lava o rosto da terra,

mas minha boca sangrava
um silêncio de canções amordaçadas.

De tuas mãos se dirá um dia:
geravam pássaros de sangue
como as primaveras da lua.

Tuas mãos,
tristes descendentes das canções araucanas,
tuas mãos mortas,
casa de canções decepadas,
tuas mãos rotas,
últimas filhas do vento,

guitarras enterradas sem canto,
sementes de fuzis,
seara de sangue.

Quisera entregar
minhas mãos inúteis
ao cepo de teus carrascos.


11 de Setembro de 1973 - Lembrando Victor Jara

Victor Jara, cantor chileno foi morto por militares após o golpe militar de Pinochet, no Chile, em 11 de Setembro de 1973.
Este golpe de estado que derrubou o governo de Salvador Allende, democraticamente eleito, fez mais de 15 mil mortos, 30 mil prisões e centenas de torturados.
Victor Jara foi preso e levado para o estádio de futebol de Santiago, que foi utilizado como campo de concentração.
Victor Jara não obedeceu à ordem de um militar para que parasse de tocar e cantar para a multidão presa no estádio. Deceparam-lhe as mãos mas mesmo assim, entre gritos de dor continuou a cantar canções de sua autoria até que um tiro calou Victor Jara, ceifando a vida de um grande talento.

Victor Jara Martínez

Nasceu em 28 de Setembro de 1932 em La Quinquina, no Chile.
Desde muito novo sentiu inclinação para a música, talvez influenciado por sua mãe que cantava e tocava piano. Com a morte desta quando tinha 15 anos, desamparado e cheio de saudades, procurou refúgio no Seminário Redentorista de S. Bernardo e seguiu o que ele pensou ser a sua vocação sacerdotal.
Ao fim de dois anos de Seminário reconheceu que aquele não era o seu caminho e desistiu.

A Universidade e Violeta Parra

Em 1957 matriculou-se na Escola de Teatro da Universidade do Chile onde estudou Teatro.
Aqui conheceu Violeta Parra que gostou da sua voz e o entusiasmou a cantar não só composições suas mas também a criar canções com o seu (de Victor Jara) cunho pessoal.
Na década de 60 compôs e a cantou. Foi director teatral, investigador de folclore e de instrumentos indígenas, actor, dramaturgo e compositor.
Em 1960, foi director teatral. A partir de 1963 foi membro da direcção do Instituto de Teatro da Universidade do Chile e professor da Escola de Teatro da mesma Universidade.
Foi um dos fundadores do movimento da Nova Canção Chilena,
Em 1970 participou activamente na campanha presidencial de Salvador Allende, realizando recitais por todo o país.
Depois da vitória de Salvador Allende nas eleições presidenciais de 1970, Victor Jara assumiu um papel preponderante no desenvolvimento cultural e político do país. Foi embaixador cultural do governo de Unidade Popular, desde 1971 até à sua morte.

A sua morte

No dia 11 de Setembro de 1973, durante o golpe militar, Victor Jara foi detido juntamente com um grupo de professores e alunos que se encontravam na Universidade Técnica do Estado. Foi transportado para o Estádio do Chile.
Em 1990 a Comissão Verdade e Reconciliação concluiu que Victor Jara foi assassinado em 17 de Setembro de 1973 no Estádio do Chile.
Os seus restos mortais descansam no Cemitério Geral.


Os últimos dias de Salvador Allende e do Governo de Unidade Popular

O presidente do Chile, Salvador Allende, declarou logo após sua eleição:

A história ensinou-nos que os grupos ultra-revolucionários não desistem do poder e lutam para conquistá-lo”.

Com o custo de sua própria vida, a história viria a provar isto em 11 de Setembro de 1973.

4 de Setembro de 1972:

Allende denunciou, em vão, nas Nações Unidas, as tentativas norte-americanas de desestabilização do Chile. A situação económica tornou-se catastrófica. O povo protestou em manifestações turbulentas. A organização da extrema-direita "País e Liberdade" tornou-se violenta. As mulheres protestaram contra a penúria e falta de alimentos básicos. Os camionistas organizaram um boicote na estrada, bloqueando o tráfego com cinquenta mil camiões. A economia entrou em rotura...

11 de Setembro de 1973:

Apoiada e possivelmente subornada pela CIA, a maioria do exército e da polícia sublevou-se.
O governo de Allende foi derrubado.
Cercados no palácio presidencial e bombardeados pela Força Aérea, Allende e alguns colaboradores leais resistiram até ao fim de armas na mão.
Foram todos mortos em circunstâncias até hoje desconhecidas.
O exército chileno - liderado por Augusto Pinochet - que naquele dia derrubou Allende, não teve qualquer humanidade com os militantes do Partido de Unidade Popular.
A repressão militar foi vingativa e intolerante.
Mais de cem mil pessoas foram presas e torturadas.
Trinta mil foram assassinadas.
Entre elas Victor Jara que hoje recordo, aqui, neste dia 11 de Setembro.

Um homem que tinha como arma a sua voz e a sua viola.

Um homem que queria para todos O DIREITO DE VIVER EM PAZ.


A ditadura sangrenta de Pinochet durou ainda mais de 16 longos anos.



José Gomes


(Agradeço à Fundação Victor Jara os elementos facultados).


Tema musical:

El Derecho de Vivir en Paz

Poema, música e voz: Victor Jara

4:32 minutos

23 comentários:

  1. O sentido da Liberdade é cada vez mais expressivo, quando recordamos factos como este 11 de Setembro de 1973.
    É importante que não caiam no esquecimento.
    Há Homens que perduraram na nossa memória e, na memória de todos aqueles para quem, Liberdade não é uma palavra vã.
    Grata por recordares este dia e, todos aqueles que lutaram, cada um há sua maneira, por uma causa em que acreditavam.
    Foi bom recordar aqui a voz de Victor Jara.
    Um abraço e bom domingo

    ResponderEliminar
  2. Olá Zé Gomos
    A humanidade é Cruel.
    A memória de Victor Jara e de muitos que morreram .
    O homem mata por matar sem olhar para trás.
    Beijinos para todos la em casa

    ResponderEliminar
  3. Um optimo post que fizeste, como sempre:) beijos

    ResponderEliminar
  4. Zé, até me arrepiei toda! Ficou um óptimo post. Não podemos esquecer. Gritámos tanta vez "Chile nunca mais!" e ele repete-se em cada dia... Beijos, Zé. Está lindo.

    ResponderEliminar
  5. Estimado Amigo,

    Obrigado por me incentivarares hoje escrever. Os comentários que aqui poderia fazer estão lá no Fraternidade onde és justamente referenciado.

    Um grande Abraço,

    ResponderEliminar
  6. Está lindo este post, e a música eterna da imortalidade que se alcança. Beijos

    ResponderEliminar
  7. Mas que bem! Muito completa esta informação, Zé!Nunca se poderá esquecer o 11 de Setembro por tantas razões! Abraço!Aqui vai o meu abraço para a Milú também e diz-lhe por favor que adorei as fotos dela lá no "Movimentum"

    ResponderEliminar
  8. MM, parece que sou bruxo.
    Já reparaste que nenhum meio de informação referiu o 11 de Setembro no Chile?
    Como é que poderemos cultivar a Liberdade, apenas recordando um dos lados negros da força (onde raio já ouvi isto?!!!).

    Lmatta gostei de te der ler.
    Já estava com saudades... quase há um ano que estivemos juntos!
    O homem continua a ser o predador da natureza... mata por prazer!
    Volta sempre.
    Obrigado pelas palavras.

    Obrigado pela visita, Wind.
    Fico feliz com as tuas visitas.

    Bem te disse Lique.
    Parece que valeu a pena aquela ajuda enorme que deste para que este post saisse na altura exacta.
    Pena teres queimado o jantar por minha causa.
    Mas, madrinha, esta causa até valeu a pena.
    Obrigado.
    Volta sempre.

    Fernando, se ajudei a passar a palavra foi muito bom.
    O que é preciso é nunca esquecer os pontos negros da humanidade para que os mesmos erros não mais se repitam.
    Sabes, o Homem tem memória curta.
    Gostei do teu apontamento.
    Aquele abraço de sempre.

    Paula Raposo, gostei que a música de Victor Jara te tivesse tocado na alma.
    Valeu a pena recordar Jara.

    Olá Druida,
    É sempre bom ler as tuas sábias palavras.
    A Milú está a ser a fotógrafa de serviço.
    Mas espera pelo dia 1 de Outubro.
    Depois falamos.

    Obrigado a todos, neste 11 de Setembro, terem recordado o 11 de Setembro que alguém, por "pedra no sapato" teima em deixar cair no esquecimento...

    ResponderEliminar
  9. José Gomes, agradeço ter-me inserido nos seus endereços. Aquela dedicatória ao Machado é merecida, assim como a todos aqueles que lutam e lutaram pela liberdade, todos sabemos que o meu irmão Pantanero não deixaria passar em claro esta data de maneira nenhuma. Obrigado por recordar esta data e pela dedicatória.

    ResponderEliminar
  10. o post anterior é do Adérito Machado.

    ResponderEliminar
  11. Quero agradecer à Lena, a visita. Palavras simples mas que dizem tudo!
    Ao Adérito Machado (irmão do Pantanero)quero dizer que o exemplo de luta desenvolvido pelo Machado tentarei continuar, de maneira a manter viva a sua memória.
    Eu sei que ele gostaria que eu fizesse esta homenagem. E lembrar Allende e Pablo Neruda, como ele o fez no ano passado.
    Um abraço.

    paratodos os visitantes quero dizer que não mudarei este post até ao dia 17, data oficial da morte de Victor Jara

    ResponderEliminar
  12. ola zé. grandes posts que tu publicas. muito bons, mesmo. quando eu era miuda cantava uma canção da violeta parra mas depois os anos fizeram-me esquecer a letra. acho que vou voltar a cantá-la novamente: gracias a lavida que me ha dado tanto...
    conheces?
    abraço da leonor

    ResponderEliminar
  13. Sê bem aparecida, Leonor.
    No blog Movimentum tiveste essa música antes de o actualizar.
    Conta das férias.
    Abraço

    ResponderEliminar
  14. belíssimo e digno memorial. Também justo pois estes são os nossos últimos heróis.Bom f.s. Bjs e ;)

    ResponderEliminar
  15. Uma boa lembrança esta sua, bom trabalho postado. Gostei de o ler. Beijinhos.

    ResponderEliminar
  16. não sabia da história do vitor jara! Impressionante! E esses assassinos continuam à solta felizes e contentes...

    ResponderEliminar
  17. Tens um convite no meu Blog. Espero que aceites com toda a amizade. Um abraço ;)

    ResponderEliminar
  18. Acabo de actualizar este blog.
    Durante estes dias os meios de informação "esqueceram" que houve um Chile em que foram brutalmente assassinados pessoas porque acreditaram num Mundo Novo.
    Volto ao Chile e às atrocidades que foram cometidas.

    ResponderEliminar
  19. Fico pensando em Che Guevara, Victor Jara, e pq não Luis Carlos Prestes. A América Latina está desesperada por homens como estes. Que mesmo mortos nos ensina como é importante lutar, seguir em frente, não se abater pelas circunstâncias. Ele cantou, gemendo de dor, sofrendo, mas cantou pra provar que mesmo a duras penas, "o povo unido, jamais será vencido"... Dá-lhes Victor Jara.

    ResponderEliminar
  20. Olá
    o meu caminho para aqui nasceu no Fraternidade...passo por lá de vez enquando...
    Obrigada pela tua visita, adorei.
    Continuo nomeu passeio pelo teu mundo. Já da primeira vez parei aqui e não consegui sequer ler...a memória de Victor Jara. Comprei a coletânia dele e quando ouço os meus olhos afogam-se nas minhas lágriams. Eu já tenho tentado explicar ao meu Pedro o q s passou e tento não me "exceder" no que digo. Continuo a não entender, a não aceitar...

    falando em fotos, conheces o 1000imagens? www.thousandimages.com

    Tenho lá fotos, mas valer a pena vale muitos outros autores. Vamos mantendo contacto, sim
    Beijinho
    Ana


    O meu msn: anamloura@hotmail.com

    ResponderEliminar
  21. Enjoyed a lot! » »

    ResponderEliminar