sexta-feira, 5 de agosto de 2005

O Ocidente esqueceu Hiroshima e Nagasaki

O Ocidente esqueceu Hiroshima e Nagasaki

Há 60 anos um avião americano chamado "Enola Gay", voando sobre Hiroshima, no Japão, lançou uma bomba atómica que detonou a 580 metros acima do Hospital Shima, próximo do centro da cidade.

Eram 8,15 horas da manhã do dia 6 de Agosto de 1945 e os habitantes de Hiroshima estavam a começar o seu dia...

O piloto viu com prazer e espanto, antes de regressar à base, um cogumelo de chamas que se ergueu no céu.

Em poucos segundos , como resultado do ataque, calor e incêndios, a cidade de Hiroshima foi destruída e cerca de 100 mil pessoas morreram naquele dia.

Três dias depois (9 de Agosto de 2005), outro avião B-29 atacou a cidade de Nagasaki, lançando outra bomba nuclear que matou mais de 70 mil pessoas e transformou Nagasaki num deserto de metal derretido.

Até o final de 1945, 145 mil pessoas tinham morrido em Hiroshima e 75 mil em Nagasaki. Dezenas de milhares de pessoas sofreram ferimentos sérios. Os sobreviventes continuaram a morrer nos anos que se seguiram devido aos efeitos da radiação que também causou o nascimento de bebés com má formação.

Nunca poderei esquecer o Holocausto que matou milhões de judeus! Mas também não posso esquecer Hiroshima e Nagasaki que foram varridas do mapa vítimas de duas bombas atómicas concebidas pelo engenho destruidor do Homem.

A extinção em massa dos japoneses é tão apavorante quanto os fornos alemães, pois as bombas atómicas fizeram num minuto o trabalho que demorou anos aos nazis. A bomba de Hiroshima foi a rapidez do feito, a eficiência da tecnologia, sem comboios de gado humano, sem prisioneiros magros a sofrer, sem pilhas de cadáveres capazes de nausear até o próprio Himmler. As bombas americanas foram um "feito tecnológico", uma "vitória" da ciência.

Hiroshima foi o início da pós-modernidade técnica, da guerra limpinha, cirúrgica que vinha do alto, antevendo o cenário duma futura Guerra do Golfo.

Os nazis eram loucos, matavam em nome de um ideal psicótico e "estético" de "reformar" a humanidade para o milénio ariano.

A bomba americana foi lançada em nome da "Razão".

Foi uma bomba de "democratas do bem” que tentaram limpar da face da Terra os últimos soldados japoneses, seres oblíquos que, como dizia Trumam no seu diário secreto:

- São animais cruéis, obstinados, traidores, fanáticos.

O Holocausto judeu horroriza pelo dia-a-dia burocrático do crime, pelo seu quotidiano "normal", com burocratas contabilizando pacientemente quantos óculos sobraram nas câmaras de gás, quantos dentes de ouro...

A bomba atómica foi mais rápida e eficiente.

Ainda hoje é fascinante ler a racionalização dos americanos para justificar a morte de milhares de japoneses, como se apenas se tivesse tratado duma desinfecção de qualquer centro comercial dos nossos dias.

A bomba de Hiroshima explodiu diante da humanidade já anestesiada pela banalização de 20 milhões de mortes na II Guerra e pelo massacre dos judeus. A bomba explodiu quase como se fosse um alívio, como escreveu Truman:

- Eu queria os nossos garotos de volta e por isso ordenei o ataque só para acelerar esse regresso.

A outra "razão" era que Hitler estaria próximo de conseguir a bomba atómica, segundo os argumentos dos generais falcões e de alguns conselheiros presidenciais que se apoiaram nas opiniões de cientistas tais como Einstein, Oppenheimer e outros.

A destruição de Hiroshima e Nagasaki não era necessária. O mundo já não estava em perigo pois o Japão estava de joelhos, rendendo-se, querendo só preservar o imperador Hiroito e a monarquia instituída.

A "razão" de tal loucura foi o presidente e os generais quererem testar um “brinquedo” novo.

Truman escreveu no seu diário, depois do primeiro teste da bomba atómica em Los Allamos:

- É incrível! É o mais destruidor aparelho já construído pelo homem! No teste, fez uma torre de aço de 60 metros transformar-se num sorvete quente!

A outra grande "razão" americana para o ataque foi a vingança. Os americanos tinham que se vingar de Pearl Harbour!

As duas bombas caíram "de surpresa", exactamente como fora o ataque japonês, anos antes. Além disso, queriam intimidar a União Soviética e Estaline, pois a guerra fria já se adivinhava no horizonte. E, por fim, queriam dar também um show de som e luz para o mundo todo, uma superprodução a cores que enfeitasse a marcha do império.

Assim como os nazis elaboraram uma "normalidade" burocrática para a "solução final", os americanos criaram uma lógica "científica" para o seu crime. Por isso, Hiroshima não sujou o nome da América tanto como o Holocausto manchou para sempre o nome da Alemanha. Até hoje, quando se fala em alemão, pensa-se em Hitler, enquanto Hiroshima quase nos soa como uma catástrofe "natural", inevitável, um brutal remédio no calor da guerra!...

O crime dos alemães justificou e absolveu o crime americano. Como é que os americanos saíram limpos deste crime?

Creio que, naquele momento não havia conceitos disponíveis para condenar esse crime; o mundo pensante estava todo dentro duma vala comum de detritos humanistas. A época estava morta para as palavras, não havia mais sentido diante dos factos. Só restou, na Europa, o desalento, a literatura do absurdo, o existencialismo, o suicídio filosófico, o niilismo no meio das ruínas.

Na América, longe de tudo, da Ásia e da Europa, só aconteceu a euforia dos “confetis coloridos” a cair na 5.ª Avenida, sobre os heróis da "vitória" da democracia.

Foi o início de uma era de prosperidade e esperança, dos musicais de Hollywood, pois o "eixo do mal" estava finalmente vencido e derretido.

Alegria que durou até 1949, quando a União Soviética fez explodir a bomba H, começando, assim, a guerra-fria.


Notas sobre a rendição japonesa:
A acção americana foi fortemente criticada por aqueles que viram nela uma demonstração desnecessária de crueldade contra a população civil japonesa.
O governo dos Estados Unidos justificou-se, alegando que essa foi a forma mais rápida de terminar, de uma vez por todas, a II Guerra Mundial.
Se a garantia de sobrevivência do Imperador e da sua dinastia tivessem sido dadas antes, os japoneses teriam aceitado a rendição e evitado toda aquela destruição.

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Versão musical:
Rosa de Hiroshima - poema de Vinicius de Moraes
Interpretação - Ney Matogrosso e Secos & Molhados

José Gomes
4 de Agosto 2005

23 comentários:

  1. Acho que o Mundo não esqueceu, anda preocupado com futilidades...e, com o seu próprio umbigo...
    Parabéns pelo texto, Zé! E por este Poema cantado, que é um sinal que afinal alguns não esquecem e estão cá para lembrar, tal como tu fizeste.

    Um abraço matinal ;)

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  2. Estou emocionada... Que maravilha de texto acompanhado pela canção!
    Fizeram-se e continuam a fazer-se coisas horrorosas em nome da Razão e até de Deus!... E somos nós seres "humanos"... como?! É de lamentar que as altas tecnologias sirvam para cometer atrocidades. Este homem, criado à imagem e semelhança de Deus, nem comparado aos animais pode ser!

    Bom fim de semana, Zé!

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  3. Grande texto! É sempre bom relembrar esta atrocidade e a música é linda ao mesmo tempo que fala desse descalabro. beijos

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  4. We can only hope this never happens again...best wishes for all the people of your country, state and towns...

    God Bless,

    Dwayne

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  5. tu esqueceste o Zeca e eu esqueci hiroshima.
    mas tu lembraste. e muito bem.
    ney matogrosso canta maravilhosamente.
    parabéns Zé.
    olha se tivesses acabado com o blog...
    agora estaríamos privados dos bons posts que imaginas.

    abraço da leonor

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  6. Ainda bem que lembras, pois há coisas que jamais devem ser esquecidas para não se tornarem a repetir. A noticias magazine deste domingo traz um artigo imperdivel sobre este assunto.
    Quanto ao meu mail, está lá no blog...
    Mas posso deixar-te aqui: mapsl@netvisao.pt

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  7. É verdade, Zé! Parece que muita gente esqueceu!

    Oxalá que NUNCA MAIS se repita uma coisa destas! **

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  8. É sempre bom encontrar alguém resistente à anestesia colectiva, ao sonambulismo fácil que parece afectar as pessoas deste nosso tempo.

    Gosto deste teu sítio.

    Cláudia C.

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  9. Excelente artigo, muito bem elaborado. Factos com 60 anos mas que é bom ter presente neste mundo conturbado. Bjokas grandes, amigo

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  10. Querido Amigo,

    Subscrevo este teu magnífico texto na generalidade. Eu também escrevi sobre estes acontecimentos dramáticos e curiosamente coloquei como fundo musical o mesmo tema.

    Um grande Abraço,

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  11. José Gomes, este espaço ainfda não conhecia. O Movimentum só ainda não estava no rain mas já o seguia.

    As pessoas esquecem...

    Não os deixemos esquecer!

    Obrigada pelo post.
    Obrigada também ao Ney q teve cedo a coragem desta mais que realista canção!

    Bj.

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  12. Mais que oportunas, tuas palavras-atitudes nos lembram que a indiferença, a desmemória, nesse caso, só interessam aos senhores da guerra.

    Uma prece pelos que se foram, sem nem saber porque partiam...
    Uma prece pelos senhores da guerra, para que desperte neles um mínimo de humanidade.

    Pra ti, deixo o meu abraço fraterno.

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  13. ola ze. achei graça ao comentario que me deixaste neste vicio de escrever. é verdade. da caneta e do papel ja nao sai nada. so do teclado. mas ando sempre com o caderno e a caneta. quando nao ha pc la vai... rsssssss
    e quando escrevo, tambem nao falo com ninguem, nao ouço ninguem... que escritores estes....rsssssssssss
    abraço da leonor

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  14. BOM DIA!!! Nem quero acreditar!! Zé!! Tu fizeste um comentário em INGLÊS!!! Congrats! BOAS Férias mais uma vez!!!**

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  15. ... e eu aqui, "doidim" para, pelo menos, entender e me fazer entender com o meu português mestiço...

    Até 9 de agosto. Tudo de bom.

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  16. Anónimo7/8/05 19:10

    A Mamede recusa comentar o blog.
    Diz que não sabe.
    Não acredito!
    Eu

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  17. Sem dúvida a coisa mais hedionda jamais produzida e experimentada pelo homem.

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  18. A todos que deixaram um comentário quero agradecer a vossa amizade.
    Aos que apenas leram, o meu abraço.
    Acabo de chegar de férias.
    Mais triste porque morreu um amigo e eu não consegui estar presente na hora da despedida.
    Desculpa Zé, Zé Ache, PANTANERO.
    O poema que tanto gostavas ficou em
    http://movimentum.blogs.sapo.pt/,
    com a promessa de o ler quando tu achares oportuno.
    Até sempre, Pantanero!
    José Gomes

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  19. Tenho Esperança que um dia, os homens tenham como objectivo das suas acções tão somente a FELICIDADE das crianças.
    Esse é o unico CAMINHO para nos tornarmos verdadeiramente HOMENS.

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