quarta-feira, 31 de agosto de 2005

Timor - 30 de Agosto 1999 - O Referendo

Timor
(6 anos depois do referendo de 30 Agosto de 1999)


Depois de uma luta heróica de mais de 24 anos, onde morreram milhares e milhares de timorenses, Timor Leste veio a ser reconhecido como país livre e independente pela comunidade internacional, graças ao Referendo que fez inveja a muitas democracias ocidentais.
Foi o resultado do Referendo de 30 de Agosto de 1999 (em que a esmagadora maioria do povo timorense recusou a autonomia prometida pelo governo indonésio) que projectou a Nação rumo ao futuro, mesmo com um custo demasiado alto em vidas humanas e em destruições.
Estas teriam sido evitadas se os “senhores polícias do mundo” fossem tão céleres como o fazem (quando lhes convém!...) nos dias de hoje!


Ruinas do Palácio do governador - Lahäne - Timor 1999 - Foto Helena Espadinha


As milícias integracionistas pró-Jacarta – não contentes com os resultados do Referendo, em que 78,5% dos eleitores votaram a favor da independência – juntamente e em cumplicidade com os soldados indonésios no território mergulharam Timor, mais uma vez, na barbárie, espalhando o seu ódio e deixando atrás de si rastos de sangue, destruição e morte.

Timor 1999 - Foto Helena Espadinha

Finalmente, em 20 de Maio de 2002 ( dia 1 de Timor Lorosa’e) esse direito à independência foi consagrado e reconhecido internacionalmente.
Nasceu, assim, a primeira Nação deste milénio.

Timor - Dili - 2004 - Foto Prof. António Serrra

Com o nascimento de Timor Lorosa'e começou a reconstrução de um País que foi queimado...

Timor - 2005- Palácio do Governador - Lahäne - (trabalhos de reconstrução
subsidiados pela Câmara Municipal de Lisboa) - Foto Prof. António Serrra

Timor - 2005- Palácio do Governador - Lahäne - (trabalhos de reconstrução
subsidiados pela Câmara Municipal de Lisboa) - Foto Prof. António Serrra

Timor voltou a ser uma País onde já se pode começar a sonhar... e a sorrir!

Timor - 2004- Jovem sorrindo, com olhos postos no Futuro!
Foto Prof. António Serrra


Timor é um país de sonho e encantamento, perdido em planícies verdejantes e montanhas floridas.
Como é belo sonhar à sombra dos tamarindos em flor, aspirar a brisa ondulante dos extensos palmares,
sentir o perfume inebriante do sândalo e dos cafezais. (...)

In Recordações da minha mocidade – 1999 - José Gomes

Sentados na Praia da Areia Branca, em Díli, numa noite de estrelas, pai e filha (Passado e Futuro),
embalados pelo vai e vem das ondas do mar, contemplam o céu:
— Papá, já viste quão belas são as estrelas do céu?
— Filha, já reparaste que os teus olhos são um pedaço do brilho, da força e da beleza de milhões de estrelas
que pulsam dentro de ti, em sintonia com o Universo?

In “A Timor” – 2003 - José Gomes


A Timor Lorosa'e:

Que todos os sacrifícios em vidas e bens tenham sido semente lançada a terra virgem que germine um PAÍS de PAZ, PROSPERIDADE, ESPERANÇA e JUSTIÇA.

José Gomes

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Tema musical:
TIMOR
Tuna Universitária do Porto
Concerto de apresentação da queima das fitas 2000
Faixa 11
Ouçam, por favor, a música até ao fim - 5. 29 minutos

domingo, 28 de agosto de 2005

Portugal está a arder...

Já não nos chegava a seca que nos aflige à quase um ano, estamos agora com o flagelo do fogo que devora a Floresta, casas, vidas humanas, animais, aves e até insectos e répteis. Não sou especialista na matéria mas gostaria de equacionar alguns problemas:

1 - Causas naturais:
A seca e o calor anormal deste ano, os ventos fortes e irregulares, o efeito de estufa que dia a dia se vai acentuando, os ventos provocados pelas próprias chamas;

2 - Desleixo político:
As matas e florestas continuam por limpar; a praga do eucaliptal e pinheiros substituem vegetação autóctone; a falta de caminhos florestais; os postos de detecção e vigia de incêndios ou não existem ou não têm meios humanos para funcionarem;

3 - Desleixo social:
A negligência dos utentes da floresta, que procuram um dia de frescura e tranquilidade na mancha verde e que raramente levam o seu lixo e apagam as suas fogueiras; as queimadas feitas sem as devidas precauções;

4 - Actuação criminosa:
A actuação inqualificável de incendiários que não respeitam vidas (sejam elas humanas, de animais, aves, plantas ou até simples insectos que mantêm o equilíbrio ambiental).

Sabe-se que do plano traçado para o combate aos incêndios este ano falhou mais uma vez: falhou o Homem, falhou a máquina, falhou a prevenção.
Aumentaram a morte das árvores, das pessoas, dos animais domésticos, dos animais selvagens e da própria vegetação. O próprio solo fica sujeito a uma erosão mais forte sem se poder quantificar as consequências futuras.
Arderam Parques e Reservas naturais; foram destruídos sobreiros, azinheiras, carvalhos, pinheiros, eucaliptos... foram consumidas pelo fogo zonas de vegetação que eram fontes de alimento ou refúgio para águias, abutres, cegonhas, lobos, linces, lontras, javalis, raposas (e muito deles em vias de extinção!). Para não falar dos animais rastejantes, dos insectos e de outras formas de vida que morreram no meio das chamas.
Os efeitos da poluição provocada pelos incêndios tornaram o ar menos respirável, pondo em risco as vidas de muitas pessoas, especialmente as mais idosas.

Vão ser precisos mais de 30 anos para que a Floresta possa voltar a recuperar e ser, de novo, a riqueza e o pulmão natural da VIDA, como um todo.

Foi gratificante ver a população anónima ajudando os substituindo-se aos bombeiros e mais recentemente o apoio internacional no combate às chamas numa tentativa para proteger esse bem indispensável à Vida que é a Floresta.

A Terra é a herança mais importante que temos para dar aos nossos filhos... mas incólume e cada vez mais enriquecida!
As Árvores, os Arbustos, as Flores são verdadeiros pulmões que renovam o oxigénio e dão um ar mais fresco e belo à Mãe Natureza.

Plantar uma árvore, uma flor (nem que seja no peitoril da janela lá de casa) é a forma de interiorizarmos o respeito e o amor que a Mãe Terra nos merece.

José Gomes

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Imagens do fogo visto do espaço:

1) Incêndios em Portugal
Os fogos continuam activos e a estender-se pelas matas de Portugal em meados de Agosto de 2005. Temperaturas altas (40º C / 104 º Farenheit) estão a provocar dificuldades acrescidas aos bombeiros no controle de reacendimentos no centro e norte de Portugal desde Julho.
Esta imagem foi tirada pelo MODIS instalado no satélite Aqua da NASA em 16 de Agosto de 2005.
A localização dos fogos activos está marcada com um ponteado vermelho. Um incêndio de grandes proporções está a acontecer na Serra da Estrela no centro da imagem, criando uma cortina de fumo acinzentado que se está a dirigir para Leste.

(NASA, cortesia do grupo MODIS - Centro de Voos Espaciais Goddard).

2) Incêndios em Portugal
As floresta afectadas pela seca em Portugal continuavam a arder na 4ª semana de Agosto de 2005.
O fogo continuava a arder intensamente e sem controle em várias localidades e o governo declarou o estado de emergência no centro do País.
Esta imagem dos incêndios (delimitada a vermelho) foi tirada em 22 de Agosto de 2005 pela MODIS no satélite Terra da NASA.
O fumo de dezenas de incêndios detectado pelo MODIS está a espalhar-se pelo Atlântico como mostra a imagem acima.

(NASA, cortesia do grupo MODIS - Centro de Voos Espaciais Goddard.)

3) Incêndios em Portugal
Uma das piores secas das últimas décadas combinada com altas temperaturas está a dificultar o trabalho dos bombeiros e pô-los em perigo dado estarem a combater muitos fogos a acontecer nas matas portuguesas.
Os incêndios têm vindo a acontecer desde Julho de 2005 e por alturas de finais de Agosto as matas apresentam imensas áreas queimadas.
Esta imagem obtida pelo MODIS instalado no satélite Aqua da NASA mostra as áreas de fogo activo (delimitadas a vermelho) assim como as imensas áreas queimadas (assinaladas a vermelho acastanhado) por todo o Portugal.
A vegetação está assinalada a verde forte.
Esta imagem foi captada pelo MODIS a 24 de Agosto de 2005.

(NASA, cortesia do grupo MODIS - Centro de Voos Espaciais Goddard).

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Sylvia Cohin, brasileira, a quem nos liga a grande paixão pela Poesia e que a compartilha com um grande Amigo comum (Fernando Peixoto), deixou-nos este alerta.
Esta foto que inseriu no seu blog e o crepitar do fogo à volta de Coimbra fez-me sentir calafrios quando a vi pela primeira vez.
Com muito carinho fiz a composição como pude e como soube. Mantive a música dos Madre Deus.
O seu poema
(Semeadura) mostra a sua sensibilidade.

Obridado Sylvia, obrigado Fernando.

O fogo muito perto de Coimbra 24 de Agosto 2005

Semeadura

Nas labaredas ardentes
a cinza, reduz-se a vida.
vão-se os sonhos, esperanças,
no abrasivo céu candente...
toda labuta perdida
em macabras contra-danças
das chamas bailando ao vento,
plantando só desalento !

Coimbra também padece
Co´esse abraço incendiado
de maldade ou maldição...
visão que jamais se esquece,
o pavor deste cenário
que acena dor e extinção...
o ar sufoca no peito,
do grito abafado, o efeito !

Resta apenas a certeza:
sob as cinzas há semente !
Quando vierem as águas
fecundando a natureza,
resfriado o solo ardente
brota a vida, morrem as mágoas!!
o céu retinto clareia...
o verde, a Esperança semeia!!

Sylvia Cohin
25.08.2005
Bahia Brasil







quarta-feira, 24 de agosto de 2005

Ao PANTANERO... com Amizade.

Foto tirada na "Noites de Poesia em Vermoim" em 5 de Novembro 2004


Pantanero” partiu na tarde do dia 19 de Agosto de 2005.

Perdemos um amigo, um companheiro nas lutas do dia a dia em prol duma sociedade mais justa e mais fraterna, um entusiasta deste mundo da blogesfera.
Apareceu em algumas "Noites de Poesia de Vermoim" dando o seu contributo de alegria, animação e camaradagem.


Pantanero” partiu... cabe a nós, seus amigos, fazer com que o seu espírito de luta, camaradagem e abnegação se transforme em semente germinada que dê frutos para a construção do Mundo sem barreiras e sem opressões que ele sempre sonhou.

Até sempre, Zé Machado.

(José Gomes)

Carlos Paredes toca "Verdes Anos"

Nota:
Agradeço a visita a http://movimentum.blogs.sapo.pt/

segunda-feira, 8 de agosto de 2005

PARA QUE A HISTÓRIA NÃO ESQUEÇA




Para que a História nunca esqueça

Passaram-se apenas 60 anos...

No dia 9 de Agosto de 1945 (a cidade alvo era Kokura, mas devida à intensa barragem das baterias antiaéreas, o piloto do B-29 desviou-se do seu objectivo e foi deixar cair a bomba em Nagasaki que era um alvo secundário) às 11,02 horas da manhã, a cidade de Nagasaki foi varrida do mapa por uma bomba de plutónio, detonada a 503 metros acima da cidade.

74.000 mortos foi o resultado imediato da explosão e dos vinte mil graus centígrados desenvolvidos pela bomba. Muitos dos 40.000 feridos foram aumentar o número de mortos durante o decorrer dos anos, vitimados pelas queimaduras, feridas e pela exposição às radiações.



Nagasaki – 9 de Agosto de 1945 – Palavras para justificar o quê?...

Hoje ainda ouço o grito lancinante das crianças, das mulheres, dos animais, das plantas, do próprio vento... foi há 60 anos que numa bela manhã de sol, a vida normal de todos os dias foi súbita e covardemente interrompida em Nagasaki por um novo sol que brilhou, de repente, com mais intensidade que mil sóis, reduzindo esta cidade nipónica a um deserto de metal e pele derretida.

Os dedos queimavam com chamas azuis, estavam reduzidos a um terço
do seu tamanho natural e retorcidos. Um líquido negro escorria da mão e caía no solo” - Akiko Takahura, testemunha ocular.

Ontem como hoje, desde que o homem se conhece como tal, a guerra sempre serviu para os seus ideais megalómanos de expansão territorial, de libertação dos seus instintos mais primários para dominar os seus semelhantes naturalmente mais fracos, conquistar a riqueza e o poder... todos os meios justificam estes fins! — sejam eles de cariz religioso, humanitário ou, simplesmente, intimidatório!...

Para completar este apelo à nossa memória colectiva, deixo-vos este registo:

1 – A construção e desenvolvimento da bomba atómica, denominada “Projecto Manhattan” (1942 – 1946), teve lugar em Los Álamos no deserto do Novo México; a bomba que foi lançada sobre Hiroxima era de Urânio-235 e a de Nagasaki de Plutónio;

2 – Ao fazerem a análise ao teste efectuado no deserto de Los Alamos e ao aperceberem-se das consequências da arma que tinham criado, os cientistas do “Projecto Manhattan” fizeram uma petição para anular a utilização destas bombas no Japão. Esta veio a “desaparecer” na gaveta do general Leslie Groves, supervisor do referido “Projecto”, em conivência com o secretário de estado James Byrnes;

3 – O presidente Truman assinou a ordem de lançamento.

4 - Na altura da explosão encontravam-se em Hiroshima 24 americanos. Apenas cinco sobreviveram, mas por pouco tempo:
- Três foram linchados;
- Os outros dois morreram onze dias depois, vítimas da radiação...

Para que a História não esqueça:

Números totais de mortos e feridos causados pelas duas bombas atómicas que foram lançadas sem aviso prévio sobre Hiroshima e em Nagasaki no mês de Agosto de 1945:

Lembranças de Hiroshima e Nagasaki
David Krieger, August 1, 2003

Entre os críticos do uso das armas nucleares em Hiroshima e Nagasaki estão líderes militares americanos. Numa entrevista após a guerra o General Eisenhower, que mais tarde viria a ser presidente dos EUA, disse a um jornalista:

- (...) os japoneses estavam prontos para se renderem e não era necessário atacá-los com aquela coisa terrível.

O Almirante William D. Leahy, chefe do grupo de trabalho de Truman, escreveu:

- Na minha opinião o uso desta arma bárbara em Hiroshima e Nagasaki não ajudou em nada na nossa guerra contra o Japão. Os japoneses já estavam vencidos e prontos a se renderem ... Sinto que sendo os primeiros a usá-la, nós adoptamos o mesmo código de ética dos bárbaros na Idade Média (...) As guerras não podem ser ganhas destruindo mulheres e crianças...

Um texto de um repórter dos EUA, escrito em Setembro de 1945, que relatava o ataque a Nagasaki e os efeitos nucleares, foi censurado.

As primeiras reportagens norte-americanas sobre a devastação causada pela bomba atómica em Nagasaki, no Japão, só foram enfim publicadas quase 60 anos depois da data em que foram escritas.

Em Setembro de 1945, algumas semanas depois do final da Segunda Guerra, George Weller, correspondente do "Chicago Daily News" chegou clandestinamente a Nagasaki, cidade industrial a cerca de 1.000 km a sudoeste de Tóquio, antes das tropas de ocupação dos EUA. Escreveu dezenas de reportagens que referiam os efeitos da bomba atómica lançada contra a cidade em 9 de Agosto.

Weller enviou as reportagens ao serviço de censura do comando do general MacArthur, em Tóquio, como as regras militares exigiam. Os textos foram todos censurados! Durante quase 60 anos, os textos e fotos que fez em Nagasaki desapareceram, até que o filho do jornalista, encontrou-os no apartamento do pai, em Itália.

Weller chegou a Nagasaki, em 6 de Setembro e a bomba atómica "parecia-lhe uma arma tremenda” tal a destruição que encontrou.

Os artigos que escreveu em 8 e 9 de Setembro de 1945 relatam os primeiros dias da sua estadia de cerca de três semanas em Nagasaki. São um relato cru sobre a destruição que viu, a confusão e a dor que estavam a passar os sobreviventes que viam os vizinhos e familiares a morrerem devido às feridas provocadas pela explosão e à exposição às radiações.

- Ninguém aqui em Nagasaki conseguiu demonstrar, até agora, que a bomba diferisse de qualquer outra, excepto pelo clarão mais intenso e pelo efeito de choque mais poderoso. - disse no seu relato.

Passando-se por coronel do Exército americano, Weller conseguiu um guia oficial, um motorista e um local onde se hospedar. Começou então a verificar os efeitos anormais da bomba. Nun doa artigos escreveu:

- [Há] diversas crianças, algumas queimadas e outras sem queimaduras, mas com os cabelos a cairem aos molhos. Alguns adultos deitados em catres, mostram dor e gemem baixinho. Uma mulher que cuida do marido tem os olhos marejados de lágrimas. É comovente.

- Isso [a censura dos seus artigos] foi motivo de enorme frustração para ele porque acreditava que essa fora uma das suas maiores reportagens. - escreveu o seu filho - O meu pai ficou furioso com os censores por terem bloqueado os seus artigos, que não só detalhavam a destruição em Nagasaki como incluíam relatos de sobreviventes que escaparam à bomba, enterrados em trincheiras. Tudo isso foi ocultado ao povo dos EUA...

Dias 6 e 9 de Agosto – dias em que o Japão chora e lembra os seus mortos
vitimados por uma energia que deveria estar ao serviço da Humanidade.
6 e 9 de Agosto – dias em que toda a Humanidade deve recordar para que tais actos nunca mais se voltem a repetir.



O Homem para sobreviver como espécie teve de aprender a caminhar; o Homem se quiser sobreviver como espécie terá de aprender a compreender e, sobretudo, a Amar o Mundo e todos os Seres que nele vivem.

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Versão musical: "Rosa de Hiroshima"
- poema de Vinicius de Moraes
- interpretação: Ney Matogrosso e Secos & Molhados

José Gomes
8 de Agosto de 2005

sexta-feira, 5 de agosto de 2005

O Ocidente esqueceu Hiroshima e Nagasaki

O Ocidente esqueceu Hiroshima e Nagasaki

Há 60 anos um avião americano chamado "Enola Gay", voando sobre Hiroshima, no Japão, lançou uma bomba atómica que detonou a 580 metros acima do Hospital Shima, próximo do centro da cidade.

Eram 8,15 horas da manhã do dia 6 de Agosto de 1945 e os habitantes de Hiroshima estavam a começar o seu dia...

O piloto viu com prazer e espanto, antes de regressar à base, um cogumelo de chamas que se ergueu no céu.

Em poucos segundos , como resultado do ataque, calor e incêndios, a cidade de Hiroshima foi destruída e cerca de 100 mil pessoas morreram naquele dia.

Três dias depois (9 de Agosto de 2005), outro avião B-29 atacou a cidade de Nagasaki, lançando outra bomba nuclear que matou mais de 70 mil pessoas e transformou Nagasaki num deserto de metal derretido.

Até o final de 1945, 145 mil pessoas tinham morrido em Hiroshima e 75 mil em Nagasaki. Dezenas de milhares de pessoas sofreram ferimentos sérios. Os sobreviventes continuaram a morrer nos anos que se seguiram devido aos efeitos da radiação que também causou o nascimento de bebés com má formação.

Nunca poderei esquecer o Holocausto que matou milhões de judeus! Mas também não posso esquecer Hiroshima e Nagasaki que foram varridas do mapa vítimas de duas bombas atómicas concebidas pelo engenho destruidor do Homem.

A extinção em massa dos japoneses é tão apavorante quanto os fornos alemães, pois as bombas atómicas fizeram num minuto o trabalho que demorou anos aos nazis. A bomba de Hiroshima foi a rapidez do feito, a eficiência da tecnologia, sem comboios de gado humano, sem prisioneiros magros a sofrer, sem pilhas de cadáveres capazes de nausear até o próprio Himmler. As bombas americanas foram um "feito tecnológico", uma "vitória" da ciência.

Hiroshima foi o início da pós-modernidade técnica, da guerra limpinha, cirúrgica que vinha do alto, antevendo o cenário duma futura Guerra do Golfo.

Os nazis eram loucos, matavam em nome de um ideal psicótico e "estético" de "reformar" a humanidade para o milénio ariano.

A bomba americana foi lançada em nome da "Razão".

Foi uma bomba de "democratas do bem” que tentaram limpar da face da Terra os últimos soldados japoneses, seres oblíquos que, como dizia Trumam no seu diário secreto:

- São animais cruéis, obstinados, traidores, fanáticos.

O Holocausto judeu horroriza pelo dia-a-dia burocrático do crime, pelo seu quotidiano "normal", com burocratas contabilizando pacientemente quantos óculos sobraram nas câmaras de gás, quantos dentes de ouro...

A bomba atómica foi mais rápida e eficiente.

Ainda hoje é fascinante ler a racionalização dos americanos para justificar a morte de milhares de japoneses, como se apenas se tivesse tratado duma desinfecção de qualquer centro comercial dos nossos dias.

A bomba de Hiroshima explodiu diante da humanidade já anestesiada pela banalização de 20 milhões de mortes na II Guerra e pelo massacre dos judeus. A bomba explodiu quase como se fosse um alívio, como escreveu Truman:

- Eu queria os nossos garotos de volta e por isso ordenei o ataque só para acelerar esse regresso.

A outra "razão" era que Hitler estaria próximo de conseguir a bomba atómica, segundo os argumentos dos generais falcões e de alguns conselheiros presidenciais que se apoiaram nas opiniões de cientistas tais como Einstein, Oppenheimer e outros.

A destruição de Hiroshima e Nagasaki não era necessária. O mundo já não estava em perigo pois o Japão estava de joelhos, rendendo-se, querendo só preservar o imperador Hiroito e a monarquia instituída.

A "razão" de tal loucura foi o presidente e os generais quererem testar um “brinquedo” novo.

Truman escreveu no seu diário, depois do primeiro teste da bomba atómica em Los Allamos:

- É incrível! É o mais destruidor aparelho já construído pelo homem! No teste, fez uma torre de aço de 60 metros transformar-se num sorvete quente!

A outra grande "razão" americana para o ataque foi a vingança. Os americanos tinham que se vingar de Pearl Harbour!

As duas bombas caíram "de surpresa", exactamente como fora o ataque japonês, anos antes. Além disso, queriam intimidar a União Soviética e Estaline, pois a guerra fria já se adivinhava no horizonte. E, por fim, queriam dar também um show de som e luz para o mundo todo, uma superprodução a cores que enfeitasse a marcha do império.

Assim como os nazis elaboraram uma "normalidade" burocrática para a "solução final", os americanos criaram uma lógica "científica" para o seu crime. Por isso, Hiroshima não sujou o nome da América tanto como o Holocausto manchou para sempre o nome da Alemanha. Até hoje, quando se fala em alemão, pensa-se em Hitler, enquanto Hiroshima quase nos soa como uma catástrofe "natural", inevitável, um brutal remédio no calor da guerra!...

O crime dos alemães justificou e absolveu o crime americano. Como é que os americanos saíram limpos deste crime?

Creio que, naquele momento não havia conceitos disponíveis para condenar esse crime; o mundo pensante estava todo dentro duma vala comum de detritos humanistas. A época estava morta para as palavras, não havia mais sentido diante dos factos. Só restou, na Europa, o desalento, a literatura do absurdo, o existencialismo, o suicídio filosófico, o niilismo no meio das ruínas.

Na América, longe de tudo, da Ásia e da Europa, só aconteceu a euforia dos “confetis coloridos” a cair na 5.ª Avenida, sobre os heróis da "vitória" da democracia.

Foi o início de uma era de prosperidade e esperança, dos musicais de Hollywood, pois o "eixo do mal" estava finalmente vencido e derretido.

Alegria que durou até 1949, quando a União Soviética fez explodir a bomba H, começando, assim, a guerra-fria.


Notas sobre a rendição japonesa:
A acção americana foi fortemente criticada por aqueles que viram nela uma demonstração desnecessária de crueldade contra a população civil japonesa.
O governo dos Estados Unidos justificou-se, alegando que essa foi a forma mais rápida de terminar, de uma vez por todas, a II Guerra Mundial.
Se a garantia de sobrevivência do Imperador e da sua dinastia tivessem sido dadas antes, os japoneses teriam aceitado a rendição e evitado toda aquela destruição.

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Versão musical:
Rosa de Hiroshima - poema de Vinicius de Moraes
Interpretação - Ney Matogrosso e Secos & Molhados

José Gomes
4 de Agosto 2005