sexta-feira, 10 de junho de 2005

A MORTE DO POETA

Escolhi mesmo o dia de hoje para dar o pontapé de saída aos "Chuviscos..."
Como prometido, quem vai pôr a bola em jogo é o Fernando Peixoto.

Foi o último poema que leu no dia 4 de Junho na Noite de Poesia de Vermoim...
Apreciem...


A MORTE DO POETA

Espalham-se os guardas, as milícias
e vibram as sirenes estridentes.
Pelas ruas farejam cães-polícias:
procuram o Poeta entre as gentes.

Todos sabem que ele é um subversivo
temido, perigoso cadastrado
que afirma o direito de estar vivo
e de andar vertical por todo o lado.

Procuram nas notícias dos jornais
a cara do Poeta fugitivo
tentando descobrir alguns sinais
que o tornem, desde logo, conhecido.
Na rádio, na TV, noticiários
já lançaram apelos lancinantes
pedindo que se evitem riscos vários
de infecção com versos delirantes.

A cidade agitada, no pavor
de se envolver em tal epidemia,
não deixava que alguém fizesse amor
porque o Amor, às vezes, contagia...

Deixaram as pessoas de sorrir,
aos jovens proibiu-se namorar,
os músicos deixaram de se ouvir,
os pássaros pararam de cantar.
Impediu-se o luar de aparecer
p'ra não alimentar o romantismo.
Proibiu-se ao Homem e à Mulher
a mínima atitude de erotismo.
Decretou-se que o Dia era cinzento,
foi imposto o silêncio por decreto,
ergueu-se à Tristeza um monumento,
aboliu-se a Ternura e o Afecto.


O Poeta, acusado de loucura,
na solidão mais densa se escondia
refém de si mesmo e da amargura
que a Verdade nos outros produzia.

Apareceu então à luz do dia
com o rosto tingido de ternura.
Dois tiros acertaram no seu peito
matando a loucura em pleno dia.
Mais tarde descobriu-se o que foi feito:
Morreram o Poeta... e a Poesia!


FERNANDO PEIXOTO
Vila Nova de Gaia - PORTUGAL

9 comentários:

  1. Mas que lindo poema! O poeta tem de ser livre. Beijos

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  2. Comentei no teu outro Blog e, agora venho aqui (ainda não estou habituada, desculpa;))

    Um belo poema, que tive o grato prazer de ouvir ler pelo próprio Autor.

    Obrigada pela partilha. Um abraço e bom fim de semana a todos :)

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  3. Impecável. adorei. a palavra acompanhada de uma cadência musical. tenho pena de nao ter ouvido ao vivo. paciencia.

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  4. Olá!
    Tanto pediste chuviscos e trovoadas que veio o nevoeiro...será que também vem o Sebastião?!?!?!...
    Vês que quando queres embora com alguma ajudita sempre consegues!
    Bjs.
    Milú

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  5. Ena Zé Gomes quem diria rsss que já vais partir para o segundo?! isso é que é "pedalada" rss Abração e felicidades!

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  6. Um belo poema este que aqui publicaste, Zé. Gostava de ter lá estado.
    Mandei-te dois mails. Espero agora que digas qualquer coisa, OK?
    Beijinhos aí

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  7. Um poema fabuloso, cheio de força, com uma interpretação que nos deixou todos suspensos. Que bom Zé lê-lo de novo. Aguardo o link dele, assim como informação sobre a noite de poesia de S.Mamede (data e hora). Bjos a todos

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  8. José Gomes,
    Não podia deixar de reiterar a admiração por este belo poema bem como pela obra deste poeta de primeira grandeza e grande parceiro, Fernando Peixoto!
    Um abraço, Sylvia Cohin (Brasil)

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