quarta-feira, 22 de junho de 2005

Carta de despedida de "Che" a Fidel...

Ao arrumar este matagal de papel e ao tentar dar uma ordem neste caos em que ultimamente transformei este meu "escritório", deparei com várias fotografias do "Che" (ídolo da minha juventude), vários relatos que recortei da imprensa de então e comentários de vários amigos sobre a sua vida, sobre as suas lutas, sobre os seus ideais, sobre a sua execução...
Porque hoje não é o seu dia de aniversário, nem o dia do seu passamento, nem qualquer data especial, traduzi a carta de despedida do Che que foi lida por Fidel Castro em Outubro de 1965.
Dedico-a a todos aqueles que tentaram, tentam e tentarão, mesmo com o sacrifício das suas vidas, dar um novo rumo a este Mundo sem sentido...

Carta lida por Fidel de Castro em Outubro de 1965:

“A Fidel de Castro

Havana. “Ano da Agricultura”


Fidel,

Neste momento lembro-me de muitas coisas – de quando te conheci no México, em casa da Maria Antónia, de quando me propuseste juntar-me a ti; de todas as tensões causadas pelos preparativos...

Um dia vieram perguntar-me quem deveriam avisar em caso de morte, e a possibilidade real deste facto afectou todos nós. Mais tarde soubemos que era verdade, que numa revolução ou se vence ou se morre (se a revolução for autêntica). E muitos companheiros ficaram-se pelo caminho em direcção à vitória...

Hoje, tudo tem um tom menos dramático, porque estamos mais maduros. Mas os factos repetem-se.
Sinto que cumpri com a parte do meu dever que me prendia à Revolução Cubana no seu território e despeço-me de ti, dos camaradas, do teu povo, que agora é meu.

Renuncio formalmente aos meus cargos no Partido, ao meu lugar de ministro, à minha patente de Comandante e à minha cidadania cubana. Legalmente nada me liga a Cuba, apenas laços de outro tipo, que não se podem quebrar com nomeações.

Fazendo o balanço da minha vida passada, acho que trabalhei com suficiente integridade e dedicação para consolidar o triunfo revolucionário. A minha única falha grave foi não ter tido mais confiança em ti desde os primeiros momentos da Sierra Maestra não ter compreendido com a devida rapidez as tuas qualidades de líder revolucionário.

Vivi dias magníficos e, ao teu lado, senti o orgulho de pertencer ao nosso povo nos dias brilhantes, embora tristes, da crise do Caribe (a questão dos mísseis soviéticos em Cuba). Raramente um estadista fez mais do que tu naqueles dias; orgulho-me também de te ter seguido sem vacilar, identificando-me com a tua maneira de pensar, de ver e avaliar os perigos e os princípios.

Outras terras do mundo requerem os meus modestos esforços. Eu posso fazer aquilo que te é vedado devido à tua responsabilidade à frente de Cuba, e chegou a hora de nos separarmos.

Quero que se saiba que o faço com um misto de alegria e pena. Deixo aqui as minhas mais puras esperanças de construtor e os meus entes mais queridos. E deixo um povo que me recebeu como um filho. Isso fere uma parte do meu espírito.

Carrego para novas frentes de batalha a fé que me ensinaste, o espírito revolucionário do meu povo; a sensação de cumprir com o mais sagrado dos deveres: lutar contra o imperialismo onde quer que esteja. Isso consola-me e mais do que isso cura as feridas mais profundas.

Declaro uma vez mais que liberto Cuba de qualquer responsabilidade, a não ser aquela que provém do seu exemplo. Se chegar a minha hora debaixo de outros céus, o meu último pensamento será para o povo e especialmente para ti, a quem digo obrigado pelos teus ensinamentos e pelo teu exemplo, aos quais tentarei ser fiel até às últimas consequências dos meus actos; que estive sempre identificado com a política externa da nossa revolução e assim continuarei; que onde quer que me encontre sentirei a responsabilidade de ser revolucionário cubano, e como tal actuarei.

Não lamento por nada deixar, nada material , para os meus filhos e para a minha mulher. Estou feliz que seja assim. Não peço nada para eles, pois o Estado lhes dará o suficiente para viver e se educarem.

Teria muitas coisas a dizer-te e ao nosso povo, mas sinto que não são necessárias palavras elas não podem expressar o que eu desejaria; não vale a pena rabiscar apressadamente mais qualquer coisa num bloco de notas.

Até à vitória sempre! Pátria ou morte!
(Hasta la victoria siempre! Pátria o muerte!)

Abraço-te com todo o meu fervor revolucionário.

Che”

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Notas...

1967:

Che Guevara morreu no dia 9 de Outubro de 1967 na aldeia boliviana de Higueras. Foi assassinado, com apenas 39 anos de idade, por "Boinas Verdes Quíchuas", tropa de elite do exército boliviano, treinada pelos Estados Unidos especialmente para esse fim. Che morreu como queria, lutando por um ideal que considerava justo.

1997:

Trinta anos depois do assassinato de Che, os seus restos mortais foram descobertos numa vala comum na cidade de Vallegrande, na Bolívia, por antropólogos argentinos e cubanos.
Em 17 de Outubro de 1997, Che foi enterrado na cidade cubana de Santa Clara (onde liderou uma batalha decisiva para o derrube de Fulgêncio Baptista), com a presença da família e de Fidel. Embora os seus ideais sejam românticos aos olhos de um mundo globalizado, ele transformou-se num símbolo na história das revoluções do século XX e num exemplo de coerência política. A sua morte determinou o nascimento de um mito, até hoje símbolo de resistência para os países latino-americanos.

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Pesquisa e tradução-------- José Gomes

10 comentários:

  1. Grande post, Zé:) Sempre admirei o Che e adoro esta música. Beijos

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  2. Obrigado pelo comentário, Wind,
    Mas quero agradecer de uma maneira muito especial à Alice, pela a ajuda que me dispensou.
    Eu pago o copo...
    Um abraço às duas.

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  3. Che... um lutador pelas causas em que acreditava...

    Uma belo texto, numa música linda!!

    Que rica madrinha tens!!

    Um beijo para todos :)

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  4. Sempre vi o Che como o mito de luta por algo em que se acredita ferverosamente. do ideal pelo qual ele lutava não posso falar porque não o conheço.
    mas como símbolo de resistência sim. escolheste um imortal.
    abraço da leonor

    quanto a ouvir música, tá bem, tá...

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  5. Mas, afinal, Leonor, ouves ou não a música?

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  6. Ficou bonito o post, Zé! O Che é um um dos heróis da minha juventude e curiosamente das minhas filhas também. Está a tornar-se um mito.
    Bem, a música ouve-se, claro. Por acaso também tinha este ficheiro. Beijos

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  7. Tinha 16 anos quando os revolucionários cubanos derrubaram a feroz ditadura de Fulgêncio Batista. Nessa época já estava empenhado na Luta pela Liberdade do Povo Português.

    Che era um dos meus ídolos. Uma referência de Luta e determinação.

    Obrigado por o teres recordado aqui.

    Um Abraço,

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  8. Um excelente texto e uma bela música. Che é e será sempre um símbolo de liberdade e convicções fortes para muita gente. Muito bom recordá-lo aqui. Bjinhos a todos e até logo

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  9. Che pra mim foi maior do que cristo.Fred

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