sexta-feira, 23 de dezembro de 2005

POEMA DE NATAL


Hoje lembrei-me que é Natal...

Nas casas, nas varandas, nas janelas, nas árvores, nas ruas mil luzes de todas as cores, brilhando, cintilando, tentam mascarar de luz os restantes dias do ano...
A azáfama das compras, as trocas de sorrisos, as trocas de presentes, a música de natal no ar apelando para a fraternidade, a amizade, a paz, faz-me lembrar que estamos noutra dimensão...


(...) é dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémere e tão séria.
(...)
António Gedeão - in Dia de Natal

Caí em mim a lembrar Vinícius de Moraes e o seu "Poema de Natal" enquanto escutava a voz doce e quente da Ellis interpretando "Fascinação".

Com Ellis Regina e a minha frustração por mas um natal igual a tantos outros Natais, deixo-vos, com o meu melhor abraço, com Vinícius...

Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados,
Para chorar e fazer chorar,
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses,
Mãos para colher o que foi dado,
Dedos para cavar a terra.

Assim será a nossa vida;
Uma tarde sempre a esquecer,
Uma estrêla a se apagar na treva,
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar,
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.


Não há muito que dizer:
Uma canção sôbre um berço,
Um verso, talvez, de amor,
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E que por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.


Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre,
Para a participação da poesia,
Para ver a face da morte -
De repente, nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte apenas
Nascemos, imensamente.


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Hoje em Natal há Natal sem Natal
Hoje em Natal procura-se o Natal.
(Manuela Pimenta)
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José Gomes
24 Dez 05

quinta-feira, 15 de dezembro de 2005

Menino Jesus da minha cor

Presépio
Dili, Dezembro 2003 - Tózé


MENINO JESUS DA MINHA COR

Meu Natal Timor,
Meu primeiro Natal.

Quantos anos tinha?
Nunca o soube ao certo.

Minha Mãe-Menina
Fez-me o seu presépio:
Uma encosta arrancada ao Ramelau
[1]
Com uma gruta ausente
Cheia de Maromak
[2]
E perfume de coco.
Um búfalo e um kuda
[3]
E o bafo quente dos seus pulmões.
E um menino sobre a palha de arroz
E folhas de cafeeiro.

Um menino branco
Igual aos que chegavam de longe.

- Ínan
[4], quem é?
- É o Maromak-Filho
[5] e teu irmão!

E eu recuei, porque via no berço
Um menino rosado,
Um menino branco
Igual aos que chegavam de longe.

- Ele é, mais do que todos, teu irmão...
- Mas como pode ser um meu irmão?
- É teu irmão: firma-lhe bem os teus olhos, meu amor!

E eu, obedecendo,
Firmei-me todo n’Ele.
E vejo-O desde então
Também da minha cor!



[1] - Monte Ramelau – a montanha mais alta de Timor
[2] - Maromak - Deus
[3] - Kuda - Cavalo
[4] - Ínan - Mãe
[5] - Maromak-Filho – Deus menino

Fernando Sylvan nasceu em Díli, Timor Leste, em 1917.
Pseudónimo de Abílio Leopoldo Motta Ferreira.
Foi presidente da Sociedade de Língua Portuguesa.
Participante activo da Resistência Maubere.
Foi poeta, prosador, dramaturgo e ensaísta.
Morreu em 1993, na cidade de Cascais, Portugal, onde morou grande parte da sua vida.

José Gomes
16 Dez 05

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terça-feira, 6 de dezembro de 2005

TIMOR LESTE - 7 Dezembro 1975

TIMOR LESTE
7 de Dezembro de 1975

Respondendo a algumas perguntas e a várias insinuações, quero aqui deixar bem claro que não sou historiador e nunca tive pretensões a sê-lo! Nem nunca estive em Timor…
A minha paixão por essa Terra é anterior aos caminhos do acaso que me vieram a ligaram-me a Timor por laços familiares.
Gosto muito de ouvir, mais que falar! Tudo aquilo que escrevo sobre Timor tem por base depoimentos que me foram transmitidos por pessoas que lá estiveram, por investigações que fiz e que continuo a fazer, por conversas tidas com familiares, amigos e conhecidos.
Tinha preparado um pequeno trabalho sobre este dia negro que marcou a longa odisseia do povo mártir Maubere até alcançarem a Independência. Mas como era enorme (é o costume, quando começo a escrever nunca mais paro!!!) e o seu conteúdo iria ferir muita gente à minha volta, pessoas que viveram o drama não só nesse dia mas também nos dias que se seguiram. E iria reavivar feridas que quero que cicatrizem naqueles que me estão mais próximos, resolvi fazer este apanhado daquilo que ainda me lembro.

Apesar de tudo o dia 7 de Dezembro de 1975 é uma data que não quero deixar cair no esquecimento. É uma data para meditar, para unir, para pensar na construção, na evolução, no desenvolvimento e na prosperidade da mais jovem Nação do século XXI.

Já relatei, embora sucintamente (ver artigo anterior), os factos que deram origem à guerra civil que terminou com a “Declaração Unilateral da Independência da República Democrática de Timor-Leste” lida pelo seu primeiro presidente da Republica, Francisco Xavier do Amaral, no dia 28 de Novembro de 1975.

A República Democrática de Timor-Leste foi reconhecida apenas por alguns países africanos de expressão lusófona.

Durante nove dias a FRETILIN foi conquistando e consolidando posições antes ocupadas pelas forças inimigas (MAC – Movimento Anti Comunista, formado pela Apodeti, Kota, Partido Trabalhista e UDT).

A 7 de Dezembro de 1975 a Indonésia, com o apoio tácito dos Estados Unidos (no dia anterior tinha havido um encontro entre o presidente dos E.U. América, Gerald Ford, o secretário de estado Henry Kissinger e o general Suharto, em que foi dada luz verde para esta operação), invadiu Timor por terra, mar e ar, bombardeando Díli com 16 vasos de guerra e ocupando a cidade com paraquedistas.

A FRETILIN retirou-se para as matas de Fatu-Beci e daqui organizou a resistência ao invasor.

- Nos primeiros dias da invasão, soldados indonésios massacraram mais de duas mil pessoas. Destruíram casas, pilharam tudo o que puderam e violaram mulheres e raparigas.

- Em 8 de Dezembro o governo de Timor (português), refugiado na ilha de Ataúro, partiu para a Austrália.

- Em 12 de Dezembro a Assembleia Geral da ONU aprovou, por maioria, a resolução 3485 que define o direito inalienável do povo de Timor à autodeterminação, liberdade e independência, lamenta a intervenção militar da Indonésia e apela à sua retirada.

- Em 25 de Dezembro o Conselho de Segurança da ONU adoptou por unanimidade a Resolução 384, em que apelou à Indonésia que retirasse de imediato as suas tropas de Timor e atribuiu poderes de verificação ao Secretário Geral.

- Dois meses depois o número de mortos ascende a mais de 60 mil.

- Em Agosto de 1985 já tinham morrido mais de 200 mil timorenses, numa população estimada em 600 mil.

A sangrenta ocupação militar indonésia durou até 1999 e da política de genocídio perpetrada, resultou milhares de mortos, centenas de aldeias arrasadas e a destruição da densa floresta onde a guerrilha se refugiava.

Com a saída dos indonésios, Timor foi administrado pelas Nações Unidas até 19 de Maio de 2002.

Em 20 de Maio de 2002, em Taci Tolo – a oito quilómetros de Díli - Timor Lorosae é reconhecido finalmente pela comunidade internacional como País livre e Independente.

José Gomes
7/12/2005


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Para que não se esqueça esta data escolhi:
TIMOR
Tuna Universitária do Porto
Concerto de Apresentação da Queima das Fitas 2000
5:29
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domingo, 27 de novembro de 2005

30º Aniversário da Declaração Unilateral da Independência de Timor Leste


Trigésimo Aniversário da independência de Timor Leste

Timor-leste viveu sob o regime colonial português desde 1514 até 1974.

Como consequência da Revolução do 25 de Abril de 1974, do fim das guerras pela autodeterminação dos países africanos sob domínio português e das negociações que daí advieram, um vento de liberdade começou a soprar em todos os territórios que fizeram parte do Império Colonial Português.

A partir de Abril 74 formaram-se os primeiros partidos políticos timorenses:
UDT – União Democrática Timorense – que defendia, primeiro, “uma autonomia progressiva sob a bandeira das quinas” e, mais tarde, aceitou a ideia da independência a curto prazo;

ASDT – Associação Social Democrática Timorense que veio dar origem à FRETILIN (Frente Revolucionária de Timor Leste Independente) formada por jovens que estudaram em Portugal e integrava as camadas jovens da população urbana, de formação mais laica e menos tradicional mas que, tal como a UDT, aceitava a ideia de independência;

AITI – Associação para a Integração de Timor na Indonésia – mais tarde APODETI, que apontava a integração de Timor na Indonésia.

A instabilidade revolucionária que se veio a desenvolver em Portugal reflectiu-se em Timor, agudizando as rivalidades entre os diferentes partidos recém criados e a luta pelo poder.

Almeida Santos, no regresso de uma visita que fizera a Timor, afirmou que a UDT era o “partido esmagador da maioria” e “que a maioria dos timorenses pretendia manter a ligação a Portugal”.

A UDT e a FRETILIN fizeram um pacto contra o que consideravam ser o maior perigo: a anexação de Timor pela Indonésia.

Rapidamente esta frágil coligação desfez-se e a luta pelo poder acentuou-se.

Em 11 de Agosto de 1975 a UDT dá um golpe de estado e exigiu ao governador (formado por um alto comissário nomeado pelo governo da república cujo mandado terminaria em Outubro de 1978, após a eleição de uma Assembleia que definiria o estatuto do território) a expulsão dos elementos da FRETILIM.

Deu-se, então, início à guerra civil.

O governo da república e o seu estado-maior fogem para a ilha de Ataúro.

As forças da FRETILIN obrigam as forças da UDT a recuarem até à fronteira que só poderam atravessar depois de se terem comprometido a aceitar a anexação de Timor pela indonésia. Desarmadas, foram substituídas por soldados indonésios que retomaram a luta contra a FRETILIN.

Os dirigentes da UDT, APODETI, KOTA e do PARTIDO TRABALHISTA foram forçados por Jacarta a formarem o MAC – Movimento Anti Comunista e a lutar pela integração de Timor Leste na Indonésia. (Outubro de 1975).

A FRETILIN instala-se em Díli e forma um governo paralelo ao do governador português.

Em 28 de Novembro de 1975, Xavier do Amaral, o primeiro presidente da República de Timor – Leste, lê a Declaração Unilateral de Independência.

Esta declaração unilateral foi reconhecida por alguns países, entre os quais Moçambique, Guiné-Bissau, Angola, Cabo Verde e S. Tomé e Príncipe.

Alegando a existência de uma ameaça comunista, o ditador indonésio Suharto decide invadir Timor-Leste e transformá-lo na sua 27ª província.

A 7 de Dezembro de 1975 (nove dias depois da proclamação da independência), com o beneplácito da administração norte-americana de Gerald Ford e do seu secretário de estado Kissinger, a Indonésia invadiu o território de Timor Leste e impôs uma brutal e sangrenta ocupação que vigorou até 1999.

(...)

Voltaremos aqui a 7 de Dezembro...

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Escolhi, do CD “20 Years of Resistence to Genocide in East Timor” a faixa 19, “Em Português vos Amamos”.

Cantam:

Bonga – Angola
Costa Neto – Moçambique
Estevão Jipson – Guiné Bissau
Anabela – Portugal
Tima Zonga – Brasil
Znaid Chantre – Cabo Verde
Gilberto Gil, Umbelina, Kalu (S. Tomé e Príncipe)

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Desta forma saúdo e recordo a proclamação da Independência de Timor, há 30 anos atrás.

Viva Timor-Leste!
Viva Timor Lorosa’e!

José Gomes
27 Nov. 05

quarta-feira, 23 de novembro de 2005

TIMOR - uma lenda

Díli - Foto cedida pelo Prof. A. Serra, actualmente em Timor


A Saída do Paraíso
(Adaptação livre de um conto Maubere)


No princípio do princípio, diz-se que em Lautém, na ponta leste da Ilha de Timor, tudo existia:
- as montanhas, as árvores, os mares, os rios, os animais, as pessoas.
Nada nascia e nada morria:
- as folhas continuavam nas plantas, os frutos ofereciam as suas belas cores e as suas formas apetitosas, mas continuavam nas árvores. Os homens existiam sempre homens:
- não nasciam crianças, nem envelheciam e nunca iriam envelhecer.

Nada nascia, crescia ou morria.

Os animais e as pessoas estavam lá... não estavam adormecidas mas também não estavam acordadas. Passavam uns pelos outros, sorrindo indiferentes ao tempo que não corria, sem se preocuparem em saber quem eram, nem para que servia tudo aquilo que existia em seu redor.

Não pensavam e como não pensavam, não tinham necessidade de falar.

A Lua brilhava nos céus e espargia com o seu belo manto aquela terra adormecida... e passava, passava e continuava a passar lá longe, por cima de Lautém.
Passou, passou e continuou a passar até que um belo dia as pessoas sentiram e perceberam que a Lua desde sempre lhes dizia coisas e lhes fazia sinais.

- O que é aquilo? – perguntou alguém um dia. Foi a primeira frase que alguém disse e a primeira pergunta que alguém fez.

Desde esse dia todas as pessoas interrogaram o céu e interrogaram-se umas às outras. Começaram, então, a ser capazes de perguntar e de responder. A sua inteligência despertou e perceberam que a Lua, de cada vez que passava, era sempre diferente. Umas vezes mostrava caras, outras lagos, montanhas, flores, mãos, frutos, gestos…

Foi assim que aprenderam a começar a olhar, com curiosidade, à sua volta, a copiar tudo o que viam, a comer os frutos que pendiam, apetitosos, das árvores ávidas de fazer nascer. E repartiram os frutos uns com os outros...

Foi assim que nasceu o Tempo e a Vida.

Os Homens já nasciam crianças; as pessoas, os animais e as plantas já envelheciam.

As mulheres e os homens começaram a olhar para as suas diferenças e souberam que isso era bom.
As aves, em bandos, enchiam os céus prenhes de cores, com o seu alegre chilrear. Os animais afagavam-se no manto verde, indolentes e ronronavam em volúpias de desejo.

Os homens e as mulheres, olhos nos olhos, mãos nas mãos, descobriam um mundo diferente…

Foi assim que nasceu o Amor.

Começaram a sorrir… e, felizes, aprenderam a rir!

Pôr do Sol em Díli - Foto cedida pelo Prof. A. Serra, actualmente em Timor

José Gomes
23 Nov. 05

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"Unchained Melody"
(Tema do filme "The Gost")
Interpretação: "Pan Pipe"
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quarta-feira, 16 de novembro de 2005

Sophia Mello Breyner - 6/11/1919 - 2/07/2004

Pudesse eu...

Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Para poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes!

Sophia de Mello Breyner



Em 6 de Novembro de 1919 nasceu aquela que seria “o grande nome feminino da poesia portuguesa contemporânea”: Sophia de Mello Breyner Andresen.

Em Julho de 2004, Fernando Peixoto, fez o poema que transcrevo, em homenagem “(...) à grande SOPHIA.”

Nota:
Os primeiros versos de cada estrofe (que são da Sophia) fazem parte do soneto “Porque”.


HOMENAGEM A
SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

«Porque os outros se mascaram mas tu não»
Viveste sem máscaras no rosto
Vertical no poema e na canção
que escreveste na praia ao sol de Agosto

«Porque os outros são os túmulos caiados»
Tu encheste de cor a cor do dia
E o reflexo dos peixes prateados
Aos teus olhos o brilho devolvia

«Porque os outros se compram e se vendem»
Tu foste exactamente o seu inverso
E por isso só os poetas compreendem
Que nos teus poemas habite o Universo

«Porque os outros vão à sombra dos abrigos»
Tu escolheste o vento e a maresia
Alheia aos medos indiferente aos perigos
De olhos postos no horizonte da Poesia


Fernando Peixoto
Julho de 2004


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Quero agradecer ao Fernando Peixoto... mesmo sem esperar a tua resposta, fiz a postagem do teu poema.
O tempo urgia e mesmo assim já estava atrasado no tempo de lembrar a Sophia de Mello Breyner.
Mas se fiz mal, desculpa!...
Já tenho o baraço ao pescoço, tal como o aio Egas Moniz...
Só não levo a família... porque ela não está para aturar as minhas maluqueiras!

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Porque
Soneto de Sophia de Mello Breyner Andresen
Músicado por Francisco Fernandes
Canta ----- Francisco Fanhais
Álbum “Dedicatória” – 1998
3,08 ‘
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sábado, 12 de novembro de 2005

12 Novembro 1991 - TIMOR

Imagem tirada do vídeo do jornalista Max Stahl's e que retrata o início do Massacre no Cemitério de Santa Cruz,
em Díli - Timor Leste, transmitido pelo Canal 1, via eurovisão.

TIMOR - 12 Novembro 1991
Massacre no cemitério de Santa Cruz, em Díli


Desde a ocupação de Timor em Dezembro de 1975, uma onda de contestação ao regime de Jacarta não parou de crescer até atingir o seu ponto alto no ano de 1991. Por duas razões:

1 - A tão desejada e esperada visita dos deputados portugueses à capital timorense que tinha sido adiada;
2 - A repressão era cada vez mais intensa e os timorenses pagavam com a vida o seu desejo de liberdade.

Foi o que aconteceu ao jovem Sebastião Gomes que foi assassinado durante uma vigília, junto à igreja de Motael, pelas tropas indonésias nos últimos dias de Outubro de 1991.

A celebração da missa de 15.º dia serviu de pretexto aos indonésios para descarregarem a sua fúria assassina sobre os timorenses.

Naquele dia 12 de Novembro de 1991 muitos estudantes foram à missa por intenção de Sebastião Gomes. Finda a missa rumaram até à campa de Sebastião Gomes, no cemitério de Santa Cruz, em Díli. Depois tudo se precipitou.

Soldados indonésios dispararam sobre a multidão que se manifestava no cemitério. As imagens da tragédia deixaram o Mundo em estado de choque. Quem as viu - pouco passava das 14,00 horas - quando os nossos lares foram invadidos pelas imagens horrorosas, não tratadas, enviadas via Eurovisão e que tinham sido filmadas, na véspera, por Chris Wenner e Max Sthal's, jornalistas da Yorkshine Television. As imagens que desfilavam, os gritos, as sirenes, o metralhar não era ficção, mas sim a mais torpe realidade! Em vão, os timorenses tentaram com a fuga desordenada e com as suas orações travar as balas assassinas disparadas indiscriminadamente.

Hoje, para que nunca mais actos como este se repitam, relembro e denuncio aqui, aquela manhã de terça-feira, depois da missa do 15º dia celebrada em intenção do jovem Sebastião Gomes, varado pelas balas indonésias em 28 de Outubro, durante uma noite de vigília e de oração na igreja de Motael, em Dili;

Hoje, relembro o horror crispado nos rostos daqueles jovens indefesos que rolavam pelo pó e que se esvaíam em sangue, crivados de balas;

Hoje sinto, ouço e arrepio-me com o gemido lancinante das sirenes, o sibilar seco das balas que procuravam vítimas indefesas no meio daquela corrida desenfreada de jovens que corriam para lado nenhum, procurando o abraço da morte ou os braços impotentes do amigo que o apertava, incrédulo, com lágrimas de raiva no olhar...

Hoje relembro a lista oficial daquela tragédia:

- 271 mortos
- 103 feridos e hospitalizados
- 270 desaparecidos

Hoje rendo a minha homenagem a Timor que não cheguei a conhecer, mas que desde cedo ajudei a defender, pois sinto-o como uma pequena parte de mim. Esse Timor cheio de poesia, essa ilha de pouco mais de 20.000 km quadrados, situada no outro lado do mundo, em pleno Pacifico, com uma vegetação luxuriante, praias de areias acolhedoras, de águas quentes e cristalinas, onde os peixes mais exóticos, de cores garridas e belos olhos meigos saúdam, na sua candura, os pacatos mergulhadores.

Hoje
agradeço aos jornalistas nacionais e estrangeiros, às organizações nacionais e internacionais, aos jovens e a todos aqueles que, estoicamente, lutaram desde 1975 para que TIMOR sobrevivesse, com as suas tradições, com a sua identidade, com a sua liberdade e se tornasse na primeira Nação independente do século XXI.


12 de Novembro de 2005
José Gomes

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Canção--------- Timor
Interpretação-- Tuna Universitáris do Porto
Álbum---------- Concerto de apresentação da queima das fitas 200

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quinta-feira, 10 de novembro de 2005

PEDIDO...


Para minha informação e poder dar resposta a emails recebidos, agradecia que me informassem se têm dificuldade em inserir comentários neste blog.
saturnogomes@netcabo.pt

Um abraço.
José Gomes

quarta-feira, 2 de novembro de 2005

América... país de contrastes - Parte 6

VIII – O regresso

De manhã ainda dei umas voltas sozinho pelos quarteirões mais próximos do hotel, enquanto a Sónia se despediu do amigo.

Tentei uma vez mais (visitando avenidas diferentes) a marcação de uma raça definida no meio daquela amálgama de gente que só parava nos semáforos quando estes estavam vermelhos. Desisti, pois já estava debaixo do olho de alguns polícias, tal o número de vezes que nos cruzámos e decidi regressar ao hotel. Como já tinha dinheiro trocado, usei os computadores deste para ir à Net e ainda consegui matar a curiodidade dando uma vista de olhos pelo meu correio electrónico.

Sentei-me no sofá, no hall de entrada e enquanto esperava pela Sónia, falei com uma senhora que entretanto se sentara ao meu lado, uma brasileira com idade de ser minha tia e que barafustava bem alto por causa de um rato (sim, sim, aqueles bichinhos bonitos que causam grande impressão às senhoras...) que apareceu não se sabe lá muito bem de onde... e das baratas que circulavam pela sala do pequeno-almoço!

Consegui sossegá-la tanto a ela como à filha, que entretanto chegara. Cheguei à conclusão que estes nova-iorquinos não são nada simpáticos. Nem nas ruas e muito menos no hotel. As respostas que elas procuravam, tais como as nossas, ou eram ignoradas ou "já iam resolver o problema"... e nós já tinhamos tido a experiência como eles resolviam os problemas!

Fomos directamente do hotel para o aeroporto. Aqui fomos encaminhados para os preceitos alfandegários da praxe. Obrigaram-nos a tirar os sapatos (?!!!) e a colocá-los no tapete rolante, juntamente com a bagagem de mão. Uma simpática funcionária (de cor, claro!!!) implicou com a minha bolsa e tentou abri-la... lá a levou, sem a minha presença, pois um dos meus sapatos tinha encravado o tapete! Devia ser o cheiro a "sulfato de peúga" que empancou o tapete...

No avião foi mais que terrível!
Fomos logo avisados que iríamos ter turbulência durante toda a viagem e, por isso, aconselhados a viajar de cintos apertados. Ao meu lado esquerdo seguia uma chinesa (não é o que estão a pensar, poderia até ser a minha tia mais velha!) que, tal gato, demorou mais de três horas a encontrar o seu ponto ideal para adormecer, com as consequentes cotoveladas no meu braço a cada três minutos...A Sónia, bem protegida por mim, dormiu, leu ou ouviu música... eu é que não consegui pregar olho!!!

Quando começámos a sobrevoar Lisboa os meus olhos, teimosamente, começaram a piscar e um doce torpor a invadir o meu corpo!
A aterragem teve direito a uma salva de palmas... e bem merecida. Desta vez foi suave!

Antes de embarcar para o aeroporto de Pedra Rubras, um solícito funcionário obrigou-me a tirar tudo, inclusive o cinto... para passar no detector de metais, disse-me ele.

Enquanto esperávamos pelo voo de ligação, contactámos a Milú. Mãe e filha... aquilo é que foi matar saudades!... e logo pelo meu telemóvel!!! Vá, vá, a conta do telefone no fim do mês deve ser de gritos!!!

A chegada a Pedras Rubras foi normal, sem qualquer dado importante a registar...

No avião antes de partirmos para o aeroporto de Pedras Rubras, na Maia.

A não ser algumas fotos tiradas à socapa!...

A preparação da aterragem. Matosinhos.


A aterragem, também com direito a palmas!


Na saída um zeloso funcionário deu para implicar com o computador da Sónia que eu levava ao ombro... coisas!

A Milú e a Bogna (a amiga polaca da Sónia que, entretanto, chegara a nossa casa) já estavam à nossa espera no aeroporto. Com o Kique, claro, que ficou de olhos em bico!... fiquei por saber se era por não se lembrar de mim ou da Sónia!

Todos os mimos e lambidelas foram para ela!

Ufff! Finalmente cheguei! Mas... Nova Iorque (cidade) nunca mais!



FIM


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Notas finais:

Além dos comentários que escreveram no blog durante a descrição desta saga, recebi também emails e telefonemas aos quais vou dar as respostas que acho oportunas:

1 – Como disse no início destas crónicas, parti para os Estados Unidos de coração aberto, disposto a ver tudo: o bom, o mau e o assim assim;

2 – Não morro de amores pelos states por várias razões e mais uma;

3 – Pelos sítios que visitei (eu sei que estive no Estado de Nova Iorque muito poucos dias – embora para mim tenha parecido uma eternidade!) e pelas pessoas que contactei ou cruzei, não me pareceu nada daquilo que imaginei. As pessoas eram pessoas, as crianças riam e corriam, as casas eram casas, tinham jardins, tinham animais, tinham plantas que cuidavam com carinho, respeitavam a floresta, tinham um sol lindo, uma chuva que me fez inveja, lagos onde havia peixe, aves e as águas embora não límpidas, convidavam a passear nelas;

4 – Não gostei de Nova Iorque (cidade). Pelo nervosismo das pessoas, pela corrida desenfreada, pelo gigantismo dos seus prédios, pela confusão das suas luzes, pelo policiamento em excesso (penso eu!), pelo movimento dos carros;

5 – Não gostei de Nova Iorque porque não senti a reciprocidade de comunicação e muito menos um esforço para tal. Talvez a culpa não seja só dos nova-iorquinos, talvez fosse minha, também! Pareceu-me que as pessoas desconfiam umas das outras e sentem-se pouco à vontade, especialmente quando as tentei examinar. Senti-me um estranho numa cidade estranha e nada nem ninguém moveu uma palha para fazer desfazer essa impressão;

6 – Mesmo em Camp Anne a barreira da língua foi uma muralha que só com a Sónia ao meu lado a pude quebrar. Mas eram mais simpáticos, mais comunicativos... talvez por terem a influência da miscelânea de raças e de línguas diferentes durante os meses em que este funcionou a 100 %. Mesmo na cidade, vila ou aldeia mais próxima (não sei como a classificar) essa influência fez-se sentir. E depois havia o contacto com a natureza, as cores do céu, da água e da terra, o cheiro das plantas, o cantar dos pássaros, o grasnar das rãs e dos sapos, até os cães que procuravam um afecto;

7 – Uma resposta directa ao email de um amigo: realmente não vi pobres na esquina das ruas, estendendo a mão à caridade, não vi o “negócio” das crianças ao colo de pedintes, não vi deficientes a mostrar as suas maleitas ao olhar da caridade. No metropolitano ouvi música arrancada a um acordeão, a um violino, a um órgão eléctrico, a uma viola... Ouvi as vozes de “cantores” que se faziam acompanhar pelas mais variadas aparelhagens. Eram jovens e pessoas de mais idade, aparentemente sem grandes recursos económicos e que deveriam estar ali à espera que lhes caísse alguns dólares de uma alma caridosa... mas, sinceramente, não vi nem a alma caridosa e muito menos o local onde os tais dólares pudessem cair! Não vi a exploração dos animais na arte da pedincha... ahh! No metro também havia muita, mas mesmo muita polícia e seguranças.

8 – Na continuação da resposta ao teu email, o “murcom não tirou fotografias de um só dos mais de 30 milhões de americanos que vivem abaixo do nível de subsistência” porque estes deveriam estar em locais que não visitei. Fui à América buscar a Sónia e sabes bem quanto isso me custou! Mas para ir lá em paz com a minha consciência tive que esquecer que os americanos, quem quer que eles sejam, brancos, pretos, castanhos, mestiços, são seres humanos como nós. Não poderia confundi-los com os governantes, os traficantes, os mafiosos, os exploradores... A riqueza via-a nas limousines de vidros fumados, estacionadas à porta de hoteis ou de grandes empresas, mas nunca cheguei a ver o ricaço! Apenas o motorista que dava dois dedos de conversa ou com um polícia ou com os seguranças que olhavam à sua volta, como se esperassem um ataque terrorista. E quando os nossos olhos se cruzaram até senti um arrepio...
Os trabalhadores esses estavam na sua lufa-lufa diária. Mesmo quando fui ao banco receberam-me com um sorriso e tentaram ajudar-me a fazer a operação que pretendi, pese a barreira linguística. Mas não foi um branco que me atendeu: foi uma mestiça, tipo africano, bem vestida e com um sorriso nos lábios e nos olhos.

9 – Não fiquei com vontade de voltar a Nova Iorque. Não gostei da cidade (do pouco que vi – e até aqui posso estar a ser injusto!), pela sua monstruosidade... mas gostei da calma e do bucolismo das terras mais a norte! Disseram-me que foram territórios dos índios... e gostei!
Por isso me lembrei e, tal como lá, deixo-vos com a filosofia dos “cheyennes”:

Os dramas humanos e as catástrofes ecológicas têm a mesma causa: o Homem afastou-se do coração da Natureza que é também o seu próprio Coração. Ao esquecer a vida sensível do mundo, acabou por se esquecer de si próprio. Os Cheyennes das planícies sabiam que a perda de respeito devida a todas as formas vivas, humanas, animais, vegetais, leva igualmente a deixar de respeitar o homem. Por isso mantinham os jovens sob a doce influência da natureza”.

Foi esta a reportagem possível à qual procurei dar um ar de isenção.

Espero que tenham gostado.



José Gomes
2 de Novembro 2005


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Foi com canções como esta mitiguei as saudades que tinha do meu País de sonho... e para terminar, nada melhor que a voz de Zeca Afonso.

José Afonso
Cantigas Do Maio
Álbum: “Cantigas Do Maio”
5:49 '
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sábado, 29 de outubro de 2005

América... país de contrastes - Parte 5

VII – Em Nova Iorque
Rapidamente chegamos ao hotel pois a Sónia já conhecia os meandros. A primeira desilusão foi a reserva do hotel que se tinha feito e que não apareceu. Mas mesmo assim arranjaram-nos um quarto… só que se tinham esquecido de fazer as camas e tratar dele!

À terceira tentativa deram-nos um quarto minimamente confortável, à meia-luz (havia falta de lâmpadas ou estas estavam fundidas!), com uma televisão que nem dava pio, mas estávamos cansados demais para reparar nestes pormenores…
Depois de descansarmos um pouco voltamos a sair para dar uma volta pelas redondezas, para situar os locais a visitar no dia seguinte.

Senti-me esmagado pela altura dos arranha-céus, pelos milhares de watts de luz que se transformavam em figuras e mensagens que ganhavam vida, em gigantescos anúncios luminosos, colocados prédio sim, prédio sim.

Fiquei aturdido pela correria dos transeuntes que se deslocavam sem direcção definida, com a amálgama de cores dos táxis amarelos, dos carros particulares e das limousines que atravessavam as largas avenidas ou estavam estacionadas às portas dos hotéis ou das empresas.

Esta era a Nova Iorque que me diziam ser a cidade mais cosmopolita do mundo, onde se cruzavam todas as raças e todos os credos. Mas por mais que procurasse não vi um autóctone bem definido! Passaram por mim rostos dos mais variados tons de pele, chineses, japoneses, indianos, judeus de fato negro e chapéus característicos... e muitas pessoas de ar cansado, triste e olhar vago!

Brancos, tipo europeu, vi muito poucos!

Este belo exemplar de cavalo transportava às costas um polícia...

A polícia estava em toda a parte: no ar, em helicópteros; em terra em carros patrulha, a cavalo, a pé, fardados ou com coletes amarelos; havia ainda aqueles que se passeavam pelos passeios com cães de ar feroz pela trela, farejando tudo à sua volta.

Nas poucas lojas que visitei, restaurantes, cafés (ou equivalentes a isso), locais públicos, empresas, museus e até no Metro reparei que as pessoas que trabalhavam eram de cor ou mulheres…

Regressamos ao hotel.

Um “ping-ping” constante no quarto de banho alertou-nos que as torneiras da banheira não vedavam. Tentamos fechar melhor a porta mas esta estava empenada. Cansados como estávamos, acredito, até foi música para os nossos ouvidos. “No dia seguinte faríamos a reclamação” – dissemos um ao outro – “Agora vamos dormir, que estou perdido de sono!”

Foi o que fizemos no dia seguinte, mesmo antes de ir tomar o pequeno-almoço: prometeram – mais uma vez! - que quando chegássemos estaria tudo resolvido.


Em primeiro plano, amigos da Sónia e companheiros de Camp Anne.

Fomos ver os bastidores do Rei Leão – The Lion King - (no “Amesterdam Theatre” onde está em exibição esta peça) e durante um bom par de horas uma simpática senhora explicou (em inglês, claro!!!) como era feito teatralmente o espectáculo, como se movimentavam os actores, como faziam os jogos dos cenários, mostrou as máscaras que os actores usavam, e descreveu a história daquele teatro desde a sua inauguração até aos dias de hoje.

Esta foto foi autorizada. A Sónia com a máscara da Leoa Nala.

A Sónia começou a fotografar e foi logo repreendido por uma “simpática mulatinha” que a impediu de tirar fotos!!! Eu, armado em parvo e convencido do meu poder de persuasão, ainda lhe pedi – entre gestos e esgares, numa linguagem que julguei universal! - para tirar “uma” só foto!
Pois!!! Fia-te na virgem e não corras!!!
Não me ligou p-a-t-a-v-i-n-a!


Demos um salto ao Museu de Cera de Madame Toussauds onde posamos com quase todos os famosos que lá encontramos.

Claro, não podia deixar de ser fotografado ao lado de um grande chefe índio, vestido a rigor e com olhos muito tristes e expressão carregada. Ainda me disse que aquela história da venda de terras aos brancos em 1854, no tratado assinado pelo chefe Seatle e o presidente dos EUA Franklin Pierce, era uma grande espinha que lhe estava atravancada na garganta...

... e foi sobre isso que conversei com a Whoopi Goldberg... mas em linguagem gestual!

De regresso ao hotel verificámos que tudo estava como antes: nem sequer as camas tinham sido feitas quanto mais arranjar as torneiras do quarto de banho! Agora, quando se abria a porta, o quarto de banho parecia mesmo um salão de sauna!!!

Mais uma vez a Sónia alertou a recepção para a situação caótica em que estava o quarto. Registaram a ocorrência e disseram que iam já tratar do assunto. Quando regressássemos tudo estaria arranjado.

Metemo-nos no Metro desta vez para visitar o Museu de História Natural. A meio desistimos dos projectos de visita a outros museus, especialmente o dos Índios Americanos, pois estávamos a ficar sem tempo.

Manadas (?!!!) de bisontes... apenas no Museu...


Já cansados, ao fim de algumas horas, resolvemos voltar ao calor do Metro e deste para o hotel para descansar um pouco antes de irmos ao teatro ver “O Fantasma da Ópera”.

A Sónia recebeu um amigo e eu tratei de descobrir um banco que me trocasse euros por dólares para tentar satisfazer o “vício” da Net. Dólares arranjar, arranjei mas, em todos os pontos da Net que encontrei, não me quizeram fazer o troco para ir matar o vício!

A Sónia regressou e, depois de um rápido jantar, fomos ver o “Fantasma da Ópera”… num teatro lindo, quase cheio de pessoas interessadas na peça. As arrumadoras corriam numa azáfama a distribuir as pessoas pelos lugares… e o espectáculo começou!

Quem, como eu, já vira a ópera no cinema sente que esta, mesmo ao vivo, perde toda a espectacularidade que o filme consegue transmitir. Ah! Além disso, aqui não tinham legendas!...

De regresso ao hotel voltámos ao mesmo filme: nem as camas estavam feitas nem as torneiras do quarto de banho arranjadas!

Desta vez passamo-nos!...
Mudamos de quarto ainda mais duas vezes, até acertar com um que tinha uma luz decente, as tomadas nos devidos lugares, a água não pingava no quarto de banho e, pasme-se!, uma televisão que funcionava!!! (até a tomada serviu para carregarmos os telemóveis!!!).

Havia que recuperar forças. O dia seguinte adivinhava-se muito longo e duro!


(continua)



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Com canções como esta mitiguei saudades que tinha do meu País de sonho...

Francisco Fanhais

Cantata da Paz
Álbum: “Dedicatória”
4:38 '
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segunda-feira, 24 de outubro de 2005

América... país de contrastes - Parte 4

VI – À descoberta das Cataratas de Niagara

Acordamos por volta das 10,30 horas e, depois de um ligeiro pequeno-almoço, fomos para as cataratas.




Estava um dia de sol, quente, com um céu bonito e pouco vento. Um tempo muito diferente do dia anterior.

Fizemos um passeio pelo rio que separa os Estados Unidos do Canadá e, vestidos com uma capa de plástico azul, embarcamos num barco (Maid of the Mist) que nos levou a ver as quedas de água, mesmo onde elas caem no Rio Niagara.

Apanhámos com a água fustigada pelo vento provocado pelas quedas. O espectáculo era ao mesmo tempo aterrador e belo, com o rugido das quedas de água a troar à nossa volta.



As máquinas fotográficas não cessaram de captar aqueles momentos mágicos da força da natureza... e não só!


Mais tarde e depois de almoçar num lugar muito simpático (já não comia cachorro quente há muitos anos!), tivemos por companhia um simpático par de pássaros (não sei se americanos ou canadianos) mas só este teve a coragem de posar para a fotografia.

Voltamos às Cataratas, desta vez para fazer o percurso a pé, nas escarpas onde caía a água (Cave of the Winds). Protegidos com um impermeável amarelo e umas sandálias fornecidas pela entidade exploradora, integramos um dos grupos “exploradores”.


Os mais atrevidos (entre eles a Sónia!) estiveram a poucos metros das quedas de água e, encharcados até aos ossos, não deixaram de registar aqueles momentos em que a água que caía, soprada pelo vento, os molhava. A Sónia apresentou este ar irreal...

Ah! Descobri os mais lindos arco-íris e registei-os. Deixo-vos com alguns deles...

Até descobri onde eles começam e acabam...

Regressámos ao hotel relativamente cedo. A “aventura” derrotou-me fisicamente.
No dia seguinte tínhamos mais de 6 horas de condução até à agência que nos alugara o carro, ir depois a Camp Anne buscar as malas, viajar e fixar arraiais em Nova Iorque. Era necessário deitar cedo para nos levantarmos de “madrugada”!

Levantámo-nos noite ainda e fizemo-nos à estrada… a tempo de ver o Sol nascer com os seus efeitos de luz e cor.


A viagem foi menos cansativa, para isso bastou que o dia estivesse sem chuva e sem nuvens.
Chegamos a horas de entregar o carro e ainda nos levarem a Camp Anne. Aí pegamos as malas e despedirmo-nos da meia dúzia de pessoas que ficaram.
Enquanto a Sónia falava com os amigos repararei no silêncio que começava a cair nesta época, com a natureza a acalmar, enquanto uma leve brisa abanava as árvores, as folhas caídas rolavam pelo chão perfumando o ar com um aroma de verde arrancado à relva que mal se mexia… Parecia que tudo à minha volta começava a adormecer!...
Já não ouvia o grasnar das rãs, dos patos, nem o chilrear das aves!
A Sónia arranjou uma boleia até ao comboio. Este não era tão confortável como o primeiro, e sem ar condicionado que nos refrescasse.
Fomos informados que o ar condicionado estava avariado naquela carruagem...

Chegamos à Estação Central (Grand Central) e tivemos que descer até ao Metro: estava um calor que sufocava!
Embarcamos nele e saímos próximo do hotel.



(continua)



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Com canções como esta mitiguei saudades que tinha do meu País de sonho...

Zéca Afonso
Maio Maduro Maio
Álbum: “Cantigas do Maio”
4:07 '
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sexta-feira, 21 de outubro de 2005

América... país de contrastes - Parte 3

V – Cataratas de Niagara

No dia seguinte ao meio-dia levaram-nos a Hudson (uma vila próxima), onde fomos alugar um carro. Depois de cumpridas as formalidades necessárias na agência de aluguer de automóveis, com a Sónia a conduzir e eu a servir de pendura, lá nos metemos à auto-estrada dispostos a aguentar estoicamente as quase seis horas de caminho que tínhamos à nossa frente.


A viagem começou com o vento a puxar chuva. Um pingo aqui, uma gota mais forte acolá, um céu com nuvens carregadas lembrando que por ali perto andavam as franjas do furacão “Rita”.


O céu foi-se toldando à medida que os quilómetros corriam… De repente, como que ao dobrar uma esquina, uma autêntica cortina de água apareceu à nossa frente… e uma chuva medonha começou a cair forte, fortíssima, com rajadas de vento à mistura!


Apesar das escovas do limpa-vidros estarem a funcionar na velocidade máxima, a visibilidade era zero…


Mais adiante a chuva começou a reduzir de intensidade, à medida que as nuvens que corriam no céu se tornavam menos negras e o azul anunciava a sua paragem breve.
Ahhh, como esta água nos teria feito tanto jeito neste ano em que quase nada choveu neste país à beira mar plantado! Cheirei, com uma grande pontinha de inveja, aquele odor a erva recentemente molhada… árvores viçosas com folhas matizadas estendiam-se diante dos meus olhos até as perder de vista! Um verde que combinava com os mais variados tons de azul que tingiam os rios e os lagos, reflectindo as nuvens que passeavam, apressadas, pelo céu…
A floresta densa, ao fundo; em primeiro plano os campos com cicatrizes de colheitas recentes, onde bandos de pássaros faziam voos rasantes ou alguns outros passarões planavam em toda a grandeza as suas asas abertas, pesquisando o petisco de fim de tarde.
Chegamos ao hotel era já noite cerrada.
As estrelas brilhavam, num céu recentemente lavado, como se fossem pedaços de safiras acabadas de polir.Depois de um jantar rápido fomos ver as Cataratas à noite, magníficas, mágicas, imponentes no ruído que faziam ao precipitarem-se no abismo iluminado pela mais variada gama de cores, posando para as câmaras dos fotógrafos de todas as nacionalidades.

Cataratas do Niagara - Um espectáculo de luz artificial e som natural - foto Sónia Gomes

Estava cansado demais. A Sónia bem queria ficar mais tempo...
Regressamos ao hotel e nem me lembro de cair na cama! Adormeci que nem um justo...
O pior foi no dia seguinte. Acordei 5 horas mais cedo do que devia e virei um papagaio, enquanto a Sónia me pedia que me calasse e a deixasse dormir…



(continua)

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Com canções como esta mitiguei saudades que tinha do meu País de sonho...

Zéca Afonso
Maio Maduro Maio
Álbum: “Cantigas do Maio”
4:07 '
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terça-feira, 18 de outubro de 2005

América... país de contrastes - Parte 2

III – Até Camp Anne

Do aeroporto fomos de camioneta até à Estação Central (Grand Central) no centro de Nova Iorque. Aqui as pessoas pareciam eléctricas, a correrem em todas as direcções. Olhei a majestosa e bonita abóbada da estação e lamentei a enorme bandeira lá dependurada que me limitou a possibilidade de a fotografar em todo o seu esplendor.
Há medida que descíamos para a estação de comboios o calor tornava-se sufocante. Entramos num comboio confortável, com o ar condicionado a funcionar em pleno... e que fresquinho estava lá dentro!
Um simpático canzarrão deitou-se no chão dos bancos ao lado do meu, lambeu as mãos aos donos e olhou para mim com cara de poucos amigos mas ao encarar a Sónia foi todo meiguices!!!
Duas horas depois e mais uma mudança de comboio, paramos na estação mais próxima de Camp Anne.
Pouco depois chegava uma carrinha conduzida pelo Joe, um condutor todo sorridente que nos levou ao nosso destino. Durante a viagem foi um palrar constante entre ele e a Sónia na língua de “tio Sam” e como não compreendia nada, fui-me deleitando a observar o céu (a lua nesse dia estava enorme, particularmente bonita!), as casas, os campos, o cheiro das árvores, da própria relva, o cacarejar das aves, o grasnar das rãs e dos gansos que se banhavam nas águas do lago mesmo ali ao lado.
Meia hora depois chegávamos ao nosso destino.

(Camp Anne – Vista de um dos pavilhões)

IV – Camp Anne

"Se estás disposto/a a enfrentar um desafio da vida, envolvendo 24 horas por dia, 7 dias por semana, mudando fraldas, empurrando cadeiras de rodas, transferindo campistas com a tua força, dando todo o auxílio a pelo menos um campista do começo ao fim de uma sessão, não obstante as condições de tempo, comportamento ou inabilidade, espera campistas maus e bons. Sê independente e trabalha em equipas; conhece para cima de 30 nacionalidades, experimenta barreiras de linguagem e faz grandes amigos por todo o mundo, e ganha oportunidades de viajar. Vive longe de casa, desenvolve capacidades de liderança e adiciona uma experiência valiosa para o teu curriculum. Vive um verão de experiências boas, más e feias, espera apenas o pior e abraça o desafio do qual vais gostar. Aprecia e fica grato/a pela oportunidade que surge com a maior complexidade de experiências e realizações que alguma vez terás. No fim serás uma nova pessoa, possivelmente um campista no teu segundo ano". ~ Steve Pringle, July 2005

(tradução livre do texto em inglês, que faz parte da "Camp Anne - Introdução às Actividades para 2006")

“If you are willing to take up a challenge of a life time, involving 24 hours a day, 7 days a week, changing nappies, pushing wheelchairs, lifting campers, giving full assistance to at least one camper from the beginning to the end of a session, regardless of weather, behavior or disability, expect bad and good campers, be independent, work in teams, meet up to 30+ nationalities, experience language barriers, make great friends from all over the world, travel opportunity, live away from home, gain leadership skills, add a bold statement to your C.V., have a summer of experiences, good, bad and ugly, only expect the worst and accept a challenge and you will enjoy it, appreciate and be grateful for the opportunity with the biggest complexion of experiences and achievements you will have. You will leave like a new person, possibly a camper on your second year”.

~ Steve Pringle, July 2005


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Camp Anne é um campo de férias frequentado por adultos e crianças portadoras de grandes deficiências. Normalmente funciona de Junho a Agosto, embora no mês de Setembro receba ainda alguns "campers" (especialmente crianças). É um complexo autosuficiente, desde cozinha própria até cuidados médicos primários, com piscina, um lago, espaços verdes e amplas zonas de laser e convívio.


(Camp Anne – A piscina agora em momentos de descanso...)


Camp Anne é constituída por 8 cabanas, algumas apetrechadas de meios adequados às mais varidas deficiências, onde residem durante duas semanas 112 campers. São tratados, em cada cabana, por um staff de 8 a 15 membros, conforme o grau de deficiência demonstrado, que lhes dão todo o apoio e carinho, proporcionando-lhes umas férias agradáveis, divertidas e, sobretudo, felizes.
Durante o seu período de actividade Camp Anne recebe mais de meio milhar de pessoas com alta e médias deficiências, com idades dos 6 aos 80 anos, dividido em 4 sessões de duas semanas cada.
Os últimos 15 dias destinam-se especialmente a crianças dos 6 aos 12 anos.

Jovens dos mais variados continentes dão, nos seus tempos de férias, a sua contribuição e carinho para que estes deficientes tenham algumas semanas de férias diferentes, com carinho e assistência, no meio da natureza, onde o verde é uma constante, as árvores e as flores uma presença bem agradável, o ar limpo de poluição uma benesse e as águas cristalinas do lago ali perto uma bênção.

(Camp Anne – numa das viagens pelo Lago)

Longe do bulício das grandes cidades em que o betão é a matéria-prima e a altura uma constante, neste local as casas são térreas e a madeira é o elemento de construção por excelência.
Fui apresentado ao que restava do “staff” que ainda não tinha regressado aos seus países e à directora – uma senhora sem idade, sorriso franco e olhar penetrante que transmitia calma mas ao mesmo tempo uma firmeza que eu diria doce!
A azáfama era muita. Estavam nos últimos dias e era necessário arrumar todo o material usado nos meses em que o Campo funcionou em pleno e ao mesmo tempo tratar das três famílias que tinham vindo passar aquele fim-de-semana.

Fiquei aqui só dois dias.

(Camp Anne – Lago; eu a “fingir” que conduzia o barco que leva os “campers” a conhecer os lagos)

A Sónia foi para as suas actividades e eu sentei-me ou a vê-la fazer as suas tarefas (até adormeci no escritório!!!) ou na sala de estar a ver televisão. Quando me senti mais integrado naquele ambiente percorri o Campo sozinho, a pé, de máquina fotográfica na mão, registando imagens que me sensibilizavam e que me interrogavam se, realmente, “aquilo ali” também era a América...

(Camp Anne – o cuidado com as flores e as plantas era mais que evidente)


(...)

Nunca tinha convivido tão de perto com crianças deficientes.
Recordo James, um autista de 8 anos, de olhar doce mas sempre distante, que me chamou a atenção desde o primeiro dia, não só pelo carinho com que todo o pessoal o tratava mas pela forma como ele se desligara do mundo que o rodeava.
Nesse dia resolveu – sem olhar para mim! – agarrar a minha mão e guiar-me, ele próprio, feliz, pelo Campo até que parou junto ao carro que levava os “campers” a passear. Ali tentou, em vão, abrir a porta. Pegou na minha mão e pousou-a no fecho e quase que adivinhei o seu desejo: “abre-me essa porta, quero ir passear!”. Perante a minha passividade e já descontrolado, enfiou as mãos nos bolsos das minhas calças à procura da desejada chave...
Ai! Nunca tinha ouvido um autista chorar e gritar ao mesmo tempo! É de arrepiar o corpo todo! Fui acometido por uma sensação de frustração, de desespero e impotência por não o poder ajudar. Uma criança de 8 anos que nunca me olhou nos olhos! Mas que senti bem o calor da sua mão e a esperança latente no seu coração...
A Sónia, com um sorriso, acudiu em meu auxílio, levou-o pela mão e não sei o que lhe disse, mas conseguiu serená-lo!
Eu fiquei especado no mesmo lugar, sem saber o que fazer, com suores frios a correr-me por todo o corpo, desesperado pela minha impotência. A partir deste momento todo o conceito de mundo, humanidade, sofrimento e do meu poder para enfrentar estas situações sofreu um forte abanão. Senti-me uma rodilha, um zero, uma frustração que doía!
Para meu consolo tenho que acreditar que aquelas crianças trocariam de bom grado a sua cruz por um pouco daquilo que me tornara!

Nessa tarde a directora do Campo levou-nos a visitar uma cidade próxima (Great Barrington), no Estado de Massachussets, onde poderia ter saciado a minha sede de conhecimentos sobre os Índios Americanos. Felizmente as lojas estavam fechadas senão teria sido um desastre para a minha bolsa!
Ofereceu-nos o jantar, num restaurante tailandês e que me soube muito bem... menos a sopa! Mas aí a culpa já foi minha…


(continua)


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Com canções como esta mitiguei saudades que tinha do meu País de sonho...

Zéca Afonso
Vejam Bem
Álbum: “Cantares de Andarilho”
4:07 '
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sexta-feira, 14 de outubro de 2005

América... país de contrastes - Parte 1

Fazer um juízo dos Estados Unidos da América numa escassa semana que por lá passei seria mexer em valores que me marcaram uma vida inteira. As informações que tive deste país foram-me transmitidas pelos “media”, por pessoas que lá fizeram a sua vida ou, simplesmente, por outras que lá estiveram como turistas.
Ajuizar os Estados Unidos pelo seu desempenho e protagonismo a nível mundial nestes últimos anos, seria partir de um pressuposto que nada ajudaria ao meu espírito crítico livre de quaisquer influência, que pretendi levar.
Foi, talvez, por levar uma outra abertura que encontrei uma América diferente e um país de contrastes bem definidos: belo na sua imensidão mas assustador na sua segurança; sereno e bucólico como uma tarde de Outono, mas mesclado com a agitação fora do vulgar das pessoas que passam quase a correr; do vento e da chuva anunciados pelo negrume do céu; do cheiro a verde fresco; dum céu azul, perfumado pelas flores ainda viçosas e de cores garridas; duma Nova Iorque pesada pela imensidão do betão que rompe friamente os céus, que cheira a ozono dos milhões de lâmpadas que tremeluzem em gigantescos “outdoors”.
Foi este o país que decidi visitar de consciência limpa e serena: não é o país dos meus amores, mas nem tudo será tão mau como pintam...
Decidi partir à procura… e fazer o meu próprio juízo!

I – A viagem

Foi uma viagem desgastante. Sentado durante sete longas horas num avião enorme onde o soprar do ar condicionado se confundia com o roncar do meu companheiro do lado e com as hospedeiras, simpáticas, sempre preocupadas com o nosso bem-estar… mas que me acordavam quando já estava embalado pela “música” do meu parceiro!
Ao fim de três longas horas sentado no mesmo lugar, já não havia televisão que me distraísse, nem música que me adormecesse nem livro que me prendesse a atenção. As conversas de circunstância tornavam-se cada vez mais monótonas e sem sentido à medida que o tempo passava.
Chegou aquele momento que já não tinha sítio onde meter as pernas!!! E tive que me levantar, passear pelo corredor, sorrir para a hospedeira que me perguntava se precisava de alguma coisa...
A pouco menos de uma hora de aterrar as hospedeiras distribuíram dois formulários alfandegários que deveriam ser preenchidos e entregues às respectivas autoridades quando desembarcássemos. Depois de verificarem os meus disseram que estava tudo bem… Pois, pois, já vos conto!

II – Aeroporto de Newark (e eu que pensava que era de Nova Iorque!)

No horário previsto estávamos a deslizar na pista numa aterragem suave (suave?!!! suave, sim, só que poucos segundos depois o piloto deve ter descoberto um cão a atravessar a pista e travou a fundo, às quatro rodas! Se não me tivesse agarrado com toda a força ao assento da frente bem ficava com o meu nariz todo esborrachado!!!) que arrancou uma calorosa salva de palmas aos passageiros.
Fiquei sem saber se estavam a felicitar a perícia do piloto, se a nossa chegada sãos e salvos ou aquela travagem súbita de que ninguém estava à espera!
Abandonei o avião e fui seguindo as indicações de saída.
Recebi uma mensagem da Sónia a dizer que estava à minha espera.
Feliz e contente telefonei-lhe logo… mas uma voz agreste troou no meu ouvido a dizer qualquer coisa em inglês, talvez “que fosse conversar com o Camões…”. Mas falar com a Sónia... nada de nada!
Chegado às autoridades alfandegárias fui metido numa fila, direccionada a vários guichets onde os funcionários nos iam recebendo (a minha primeira interrogação em solo americano: será que neste país só os indivíduos de cor e as mulheres é que trabalham?!!!). Saiu-me um funcionário (de cor, claro!) forte, espadaúdo, olhar frio e nada, mas mesmo nada, simpático. Nem um sorriso!
Pegou no meu passaporte e nos formulários que preenchera no avião, olhou para mim ainda mais sério, folheou o passaporte (novinho em folha!), olhou para a fotografia, tornou a olhar para mim, olhou mais uma vez os formulários e disse-me qualquer coisa como “visa” (foi assim que percebi!) …
Olhei-o como se tratasse de um extraterrestre, encolhi os ombros sem perceber nada, fui à carteira e tirei um dos cartões de crédito…
“no, no... visa, visa”, disse-me, sem alterar muito o tom de voz…
Começou então um verdadeiro diálogo de surdos que só terminou com a substituição de um dos formulários por outro em… norueguês!!! (sim, em norueguês! “visum-unntak” – estava isto escrito no cabeçalho do referido formulário e este em norueguês).
Aturdido, fui preenchê-lo ali perto, mas como nada percebia do que lá estava escrito voltei ao guichet e, já com os parafusos a ferver, disse-lhe:
Oh santinho... me, no norueguês, no! I am from Portugal... conheces? Português de Portugal! ... No Norueguês”…
Desta vez o extraterrestre deveria ser eu, pois disse-me um enérgico “write here”, apontando, com o dedo já a tremer, uma linha.
Insisti, como bom português, cidadão do mundo, o mais devagar possível:
I am portuguese... entendes, pá? Portuguese... de Portugal. ... Eusébio, Fado, Amália, Madredeus, Figo…” e mais um rosário de jogadores de futebol de que me lembrei naquela altura!
Hablas español?”, perguntou e parece que foi assim que nos entendemos. Foi então que me tirou fotografias à íris e as impressões digitais numa dedeira electrónica. E tornou a consultar o computador, de novo a minha fotografia, voltou a olhar para mim e disse, já agitado e com uma certa tremura na voz:
Firma aqui!”, e apontou uma linha do formulário norueguês!
Carimbou, então, a página 17 do meu passaporte novinho em folha (virgem, sem nenhuma carimbadela e foi logo escolher a página 17!!!) e lá agrafou parte do referido formulário norueguês.
Fui ao encontro da Sónia, não sem antes ir buscar a bagagem que viajava, pachorrentamente, na passadeira rolante.
Lá fora estava a minha filha, de trancinhas, tal qual a Pocahontas do filme, mas mais linda do que nunca!
Foi aquele abraço apertado e ansiado desde o dia 1 de Maio!



(continua)



Foto da Sónia tirada com o meu telemóvel, sem nunca o ter experimentado a tirar fotografias...


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Com canções como estas mitiguei saudades que tinha do meus País de sonho...

Zéca Afonso
Canção de Embalar
3:59 '
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segunda-feira, 10 de outubro de 2005

Ao jeito de desculpa...

Em busca do arco-íris... Foto José Gomes


Hoje é mais que tempo de mudar este post que jaz aqui há tempo demais!

Sem inspiração... (as minhas musas estão a pouco e pouco abandonando-me!).

Sem vontade... cada vez me dá mais na gana de deixar esta coisa!

Sem paciência... olhar para esta máquina horrorosa dá-me vontade de parti-la!

Desesperado... olhar lá para fora, ver o céu toldado, carregado, pesado e... chover: nada mais que pingas!

Ainda tive esperanças da visita do furacão, mas com o resultado das eleições, desfez-se no mar, cheio de vergonha!!!

Terminei de escrever a minha aventura! Mas ao ver que tinha escrito 7 páginas em A4!!!, sem imagens, deu-me cá uma coisa...!
Não sei o que devo fazer!!! Que a chuva me ilumine o caminho...

Para alguém que perdi nesta Net sem princípio nem fim lembrei-me de Richard Bach e do livro "A Ponte para a Eternidade":

"Se nos apegarmos demasiado às coisas e às pessoas, quando as perdemos, não perdemos uma parte de nós? Melhor será agarrarmo-nos a "pensamentos para sempre" em vez de nos entregarmos àquilo que está aqui e agora e que, um instante depois, pode desaparecer."


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"Canto de Amor e Trabalho"
Banda do Casaco
Álbum: Coisas do arco da velha
Faixa 06
5:51 - vale a pena ouvir do princípio ao fim!
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segunda-feira, 3 de outubro de 2005

DE VOLTA...


















"Continuando à procura do arco íris..." - José Gomes


Meus amigos,
Depois de uma viagem que me pareceu uma eternidade (pudera, amarrado à cadeira do avião por causa das turbulências sobre o Atlântico...) e sem conseguir pregar olho, aterrei em Lisboa, ontem, 1 de Outubro, pelas 6 horas da madrugada.
Às 8 horas embarcava noutro avião que me levou até ao aeroporto de Pedras Rubras, na Maia (que raio, o aeroporto do Porto está situado na freguesia de Pedras Rubras, na Maia!!!!).
Ao entrar em casa é que se manifestou o sono e o cansaço de uma semana mal dormida e em constante correria desde as Cataratas do Niagara até Nova Iorque...
Mas isto será assunto para outra história...
É um prazer estar com todos vós.
Um abraço.
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Deixei-me ficar com "What a wonderful world" cantada por Louis Armstrong... que me acompanha sempre na busca do Arco Íris.
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José Gomes

sexta-feira, 23 de setembro de 2005

Até um dia destes...

Hoje, 23 de Setembro, parto para os Estados Unidos...
Vou buscar a Sónia e espero estar cá por este cantinho a partir do dia 1 de Outubro.
Parto pelos cabelos... mas o ir ao encontro da Sónia vai colmatar a separação daqueles que mais gosto!

Já estou com saudades, mesmo antes de partir...

"No Passado, as vastas solidões foram povoadas por cidades poderosas. Hoje delas só restam ruínas e essas mesmas ruínas acabam por se confundir com a Terra eternamente virgem.
Não importa os homens que passam! Basta que o Espírito sopre sobre eles para deixarem de existir!
Então os filhos da Terra tomarão novamente a posse da Terra e os tempos passados tornar-se-ão novos".
(In Sabedoria Ameríndia)

"Preceitos de vida" recolhidos da sabedoria ameríndia e que fazem parte da herança espiritual legada ao mundo moderno pelos índios americanos.

Até...

José Gomes

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INDIA
Gal Costa

sábado, 17 de setembro de 2005

SETEMBRO



Setembro
(para que a Humanidade não esqueça)


CHILE:

11 de Setembro 1973











Os militares chefiados pelo general Pinochet derrubaram o Governo de Unidade Nacional de Salvador Allende. Este morreu durante o golpe, na defesa do palácio presidencial. Após a sua morte, o regime democrático foi extinto e o país sofreu um terrível banho de sangue. A ditadura de Pinochet durou 16 longos anos.

(Salvador Allende e Pablo Neruda)


17 de Setembro 1973


(Victor Jara)



Na manhã do dia 11 de Setembro de 1973 Victor Jara, tendo tido conhecimento do golpe militar, dirigiu-se para a Universidade Técnica para se juntar aos estudantes e professores que iriam resistir ao golpe de Pinochet.
O Campus foi cercado por tropas do exército. A madrugada foi de terror, ouviam-se tiros e explosões por todos os lados. Os que tentaram escapar do cerco foram abatidos. Victor Jara procurou elevar a moral dos sitiados usando a sua melhor arma: o canto!
Na manhã do dia 12 de Setembro os tanques atacaram a universidade. Depois de uma luta desigual, os resistentes renderem-se. Reunidos no pátio, foram forçados a se deitarem no chão com as mãos na cabeça e começaram a ser espancados.
Foram levados para o Estádio do Chile, transformado em campo de concentração.
Victor Jara foi reconhecido por um oficial que lhe disse:
- Você é aquele maldito cantor, não é?
Antes que pudesse responder foi barbaramente agredido e conduzido para um local do estádio onde estavam os militantes mais “perigosos”.
Foi novamente espancado e torturado. Quando o levaram para as arquibancadas o seu rosto estava todo ensanguentado e mal podia andar ou falar.
Muitos dos prisioneiros tinham surtos de loucura, tentavam escapar e eram executados. Outros, simplesmente, suicidavam-se!
No dia 14 de Setembro, os prisioneiros começaram a ser transferidos. Victor pressentindo que aqueles seriam os seus últimos momentos, pediu papel e caneta e naquele inferno escreveu o seu derradeiro poema:

Somos cinco mil
nesta parte da cidade.
Somos cinco mil.
Quantos seremos no total
nas cidades e em todo o país?
Somente aqui, dez mil mãos que semeiam
e fazem andar as fábricas.
Quanta humanidade
com fome, frio, pânico, dor,
pressão moral, terror e loucura!...
Que espanto causa o rosto do fascismo!...
É este o mundo que criaste, meu Deus?
Foi para isto os teus sete dias de assombro e de trabalho?

Mal acabou de escrever vieram buscá-lo. Os seus companheiros conseguiram ainda salvar este derradeiro poema de Victor Jara.
Foi novamente espancado e um oficial gritou-lhe várias vezes:
- Canta agora, se puderes, seu filho da puta!
Victor Jara, quase já sem vida, reuniu as suas últimas forças e cantou a estrofe do hino da Unidade Popular: "Venceremos!".
Foi brutalmente agredido, quebraram-lhe as mãos e arrastaram-no para os portões do Estádio.
Esta foi a última vez que o viram.

Dois dias depois, seis corpos desfigurados e baleados foram encontrados na periferia da cidade.

Um deles, perfurado por 44 balas e múltiplas fracturas dos punhos, era o do professor, compositor, cantor e director de teatro Victor Jara.


23 de Setembro 1973








“... Deixa que o vento corra, coroado de espuma, que me chame e me busque galopando na sombra, enquanto eu, mergulhado nos teus imensos olhos, nesta noite imensa, descansarei, meu amor..."

Pablo Neruda



Pablo Neruda, foi prémio Nobel de Literatura em 1971.
Foi um romântico e um revolucionário que cantou as angústias da Espanha de 1936 e a condição dos povos latino-americanos e seus movimentos libertários.
Foi cônsul em Espanha e no México de 1934 a 1938. Desenvolveu intensa vida pública entre 1921 e 1940, tendo escrito durante este período várias obras.
Foi indicado para a Presidência da República do Chile em 1969 e veio a renunciar em favor de Salvador Allende.
Participou na campanha deste e, eleito Allende, foi nomeado embaixador do Chile em França.
Outras obras do autor foram lançadas, tendo ganho o prémio Nobel de Literatura em 1971 com o livro “Confesso que vivi".

Morreu a 23 de Setembro de 1973 em Santiago do Chile, doze dias após a queda do Governo de Unidade Popular e da morte de Salvador Allende.



Homenagem ao Povo do Chile

Foram não sei quantos mil
operários trabalhadores
mulheres ardinas pedreiros
jovens poetas cantores
camponeses e mineiros
foram não sei quantos mil
que tombaram pelo Chile
morrendo de corpo inteiro.
(...)

José Carlos Ary dos Santos
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"Canto Libre"
Canta Victor Jara
4:54
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José Gomes